Augusta Faro Fleury de Melo, natural de Goiânia, Goiás, Brasil. Pai: Augusto da Paixão Fleury Curado e Ivany Craveiro Fleury Curado. Casada com Vanderley de Oliveira Melo, engenheiro civil. Dois filhos, Frederico e André. 2ª Tesoureira do IHGG (Instituto Histórico Geográfico de Goiás) - Articulista no Jornal O Popular no encarte infantil Almanaque coluna: Era uma vez a mais de 20 anos  (desde a fundação do mesmo). Curso Fundamental grupo Escolar Modelo Liceu e Instituto de Educação (médio). Fez Pedagogia na UFG com especialização em Orientação Escolar. Cursou Aliança Francesa e curso de Inglês no "Brasil Estados Unidos" (incompletos) Mestrado em Teoria da literatura e Linguística, defendo tese em 1990. Nome da tese: "Sinfonia Telúrica do Cerrado na obra do poeta Jacy Siqueira" Especialista em Orientação Escolar. Realizou o curso completo de Espanhol.Especialista em Administração Escolar. Realizou por completo o curso de Teologia da UCG (Universidade Católica de Goiás) Escreve desde 14 anos nos Suplementos Literários dos Jornais Goianos. Desde a fundação do Almanaque (suplemento infantil do Jornal O Popular) é colaboradora.
 
É pioneira da Poesia Infantil no Estado de Goiás com os livros: "O Azul é do Céu? 1990 e O dia tem cara de Folia" 1991, ambos estão na Editora Kelps e todos os anos tem novas edições. Foi professora de Psicologia da Criança no Instituto de Educação de Goiás, também lecionou Sociologia da Educação e Filosofia da Educação. Coordenadora do ensino médio no Liceu de Goiânia por vários anos. Lecionou Administração Escolar no Colégio Santo Agostinho e no COLU (Escola Ensino Médio). Professora concursada para alfabetização de crianças, lecionando no início da carreira. Em 1980 fundou o Centro Educativo Piaget após curso sobre "construtivismo" com professor Lauro de Oliveira Lima no Rio de Janeiro. Trabalhou lecionando e dirigindo o C.E. Piaget, até deixá-lo em 1992 para dedicar-se somente a literatura. Sua irmã Graça sócia, continua o trabalho ainda hoje e a escola Piaget tem novo nome há poucos anos: Escolinha Piaget.
 
Criou os tempos de arte, teatro, xadrez, na escola e trabalhos com sucata etc. Divulgou o folclore com exposições anos seguidos. Publicou artigos sobre educação, orientação escolar, didática, literatura infantil em jornais de Goiás, escolares e na Revista "Escola" da Editora Abril do Rio de Janeiro. Realizou e realiza constantemente palestras em escolas para professores, pais e alunos que querem entrevistar após a leitura de seus livros infantis. Nos encontros educacionais sempre é convidada para entrevistas, comunicações, palestras, etc, realizando em escolas ou espaços públicos.
 
Foi júri do concurso "Novos Valores da Literatura" da organização Jaime Câmara pelo tempo que existiu uns 8 anos seguidos. Júri do concurso "Bolsa de Publicações Hugo de Carvalho Ramos", concurso Cora Coralina e outros por anos seguidos. Faz parte de várias coletâneas infantis com contos do gênero, em Belo Horizonte, Vitória, João Pessoa.
 
Escreveu anos seguidos contos para o "Correinho das Artes" de João Pessoa - Paraíba. Possui um acervo de 30 fitas VHS de entrevistas, palestras em congressos de educação TV, literatura infantil e literatura oral, ainda entrevistas sobre seu livro de contos A FRIAGEM que foi indicado para o vestibular em 2000 e 2001 nas Universidades Católica, Federal e Fundações, Faculdades Particulares. Percorreu o estado a convite das Prefeituras para responder sobre os contos, a literatura o fantástico e o absurdo, estilos que muito definem seu trabalho literário.
 
Seu livro A Friagem continua sendo publicado pela Editora Global do Rio de Janeiro. Contos de A Friagem foram traduzidos e estão publicados nas "Revistas de Tradução" da USP Universidade, São Paulo e Unicamp (Universidade de Campinas SP). A Editora Record São Paulo/Rio publicou "25 Mulheres que estão fazendo a Nova Literatura Brasileira" organizada pelo crítico e escritor Luiz Ruffato que teve varias edições (2004). Augusta convidada participou com o conto "Gertrudes e seu homem" muito aplaudido pela critica.
 
Seu conto "As Formigas" serviu de enredo e para o curta 20 - com o nome de "Dolores", ganhando o título de melhor Ficção no FICA de 2006. Em andamento outro curta "Gertrudes e seu homem" dirigido pela cineasta Adriana Rodrigues. A crítica nacional deu destaque aos contos de A Friagem com um artigo-ensaio do articulista da "Veja" Roberto Pompeu de Toledo, que é crítico e escritor.  Após essa visibilidade aconteceram críticas positivas elogiando a originalidade e os estilos adotados, bem como a linguagem poética do livro. São continuas as edições do livro.
 
Em 2008 publicou "Boca Benta de Paixão", 10 contos também no estilo fantástico e absurdo mesclando ambos em um mesmo conto. A crítica continua positiva como aconteceu com A Friagem. Foi homenageada como escritora convidada no encontro da AMPOLL, ou seja, "XXIII Encontro Nacional de Pós Graduação e Pesquisa em Letras e Linguística" em julho de 2008 em Goiânia-Goiás. Seus contos servem de motivo para estudos, defesa de teses de alunos nas universidades goianas, em Minas Gerais, no Rio e São Paulo. Recebeu prêmios da UBE Rio de Janeiro onde foi homenageada varias vezes. Seja pela literatura infantil, poesia e literatura de adultos.


Bibliografias (livros publicados) 
 
1- Poesia.
 
"Mora em mim uma canção-menina" 1982 (poesia-adultos) Prof. Nely Novaes Coelho
"Lua pelo Corpo" , 1984 - Prefácio de Afonso Felix de Souza (prefácio)
"Estado de Graça" (poesia) prefácio Nely Novaes Coelho USP
"Avessos do Espelho" 1995 (poesia adulto) Prefácio professora Moema Castro Silva Olival.
 
Contos:

A Friagem - 1998 - Prefácio Professor Dr. José Fernandes
"Boca Benta de Paixão"  2008 - narrativas
 
 
Infantil 
 
1º O Azul é do Céu? 1990 - (poemas)
O dia tem cara de Folia 1991 - (poemas)
"Usar a Cuca é melhor do que a pança" 1992 - (Teatro)
"Por quem chora Potira?" - lenda recontada
"Alice no País de Cora Coralina"  1993 - novela
"A dor divida - um caso de Aids" - 1994
A menina que viajou para o Sol - (novela)
Depois seguiram as coleções Fonte de Carioca - 5 livros
Era uma vez... Contos infantis - (3 unidades)
Beijo de Alfenim - 10 livros
Cajuzinho da Serra - 5 livros e inúmeros outros títulos e co-participação.
Obs.: Seus livros anualmente são feitas reedições e novas tiragens.
Alice no País de Cora Coralina esta na 33ª edição.
 
Possui inéditos vários diários de viagens, sobre países do Oriente Médio e Extremo Oriente e Europa, América Latina etc.
Por onde andou, anotando costumes, folclore, história etc.
 
- Em 1995 (Janeiro) participou como aluna do curso "Arte Peruana Antiga" em Lima, curso organizado pela Faculdade Estácio de Sá do Rio em convênio com a Universidade Católica do Peru. 48 horas/aula.
- Participou vários anos da Expo arte com poemas e ilustração de 1 artista plástico.
- Participa como aluna sempre de cursos avulsos de arte, folclore, historia, seja como seminários, simpósios, palestras etc.
 
- Seu conto "A Gaiola" foi traduzido para Antologia de autores do século XX em inglês, tradutora Allisson Etrekin (australiana)
- Seu conto "As Formigas" teve mais de 10 dramatizações com autores diversos.
- Anteriormente foram traduzidos todos os contos do livro A Friagem.
Indicados pela Biblioteca Brasileira Nacional pela /FLIP, de Parati em 2003.
Juntamente com mais 9 autores brasileiros.
 
Instituições a que pertence:
 
- AFLAG (Academia de Letras e Artes de Goiás) cadeira 15
- AGL (Academia Goiana de Letras) cadeira 26
- IHGG (Instituto Histórico Geográfico de Goiás) cadeira 22
- AGI (Associação Goiana de Imprensa)
- Comissão Goiana de Folclore
- Gabinete Literário da cidade de Goiás
- Sócia-fundadora da Fundação Museu casa de Cora Coralina na cidade de Goiás.
- Foi membro do Conselho Estadual de cultura por 21 anos.
- Academia Trindadense de Letras, Ciências e Arte
- Centro de Cultura da Região Centro Oeste (Ceculco)
 
Obs.: Foi Presidente da AFLAG por 2 mandatos seguidos, ocasião que realizou a
efetivação da casa própria e decoração, ampliação mobiliário, quadros, livros tudo foi recriado, ampliado.
Criou o Centro de Memória Aída Felix de Souza. Galeria de Artes Neusa Moraes. Criou Sala Regina Lacerda
- Biblioteca Infantil Maria Paula F. de Godoy (pioneira da literatura em Goiás com o livro: A Viagem de Nancy.
 
- Instituiu os "Saraus na Praça", acontecendo 3 apenas, com participações
nas cidades de Morrinhos, Trindade e Goiânia.
Criou o Troféu "In Memorian" para homenagem de pessoas da comunidade que
deixaram seus nomes no trabalho em prol da sociedade. Foram homenageados: Consuelo Nasser e Domiciano de Faria
Criou os diplomas "Amigos da AFLAG" (para pessoas que de alguma forma colaboraram com a entidade).
Criou o troféu "Nhá do Couto" - Rosarita Fleury.
Deixou iniciado a Montagem do Concurso de Contos Ada Curado.
- Na AGL e no IHGG sempre fãs parte da diretoria.
 
- Constantemente é convidada para autografar em colégios, fazer palestras para
a meninada em tardes e manhãs de autógrafos, recebendo fitas, medalhas,
diplomas, sendo homenageada pelo corpo docente dos mesmos colégios.
No grupo Escolar Odete de Brito no Jardim Curitiba II a biblioteca tem o nome
"Biblioteca Infantil Augusta Faro".
- Revistas da Sociedade sempre publicam fotos e entrevistas, misto de cultura e
comunidade cultural, destacando Augusta Faro.
 
Premiações:
 
- Medalha "Comenda da Ordem do Mérito Anhanguera - Estado Goiás"
- Comenda Pedro Ludovico - Assembléia Legislativa de Goiás.
- Premio TIOKÔ de Poesia 1993 UBE Goiânia
- Destaque "Mulher-Cultura" Revista Costume 2008/2009
- Aplauso Revista - Destaque Cultural do ano 2005
- Vários diplomas e medalhas da UBE do Rio de Janeiro
- Cidadã Vilaboense Câmara da Cidade de Goiás 2007
- Medalha Alessandro J. Cabaça UBE Rio de Janeiro 1993
- Grande Loja de Oriente 2000
- Em Goiás - Troféu Pelicano "Nome Destaque na Cultura de Goiás"
- Ceculco - Troféu do Ano na Cultura em 1998
- Diploma e medalha Berenice Artiaga Assembléia de Estado Goiás
 
As premiações referem-se à obra completa, ou apenas à pessoa, ou à poesia , ou à literatura infantil.
 

Citações e participações em Antologias, Dicionários etc:

- Colheita-a voz dos inéditos de Gabriel Nascente.
- Estante do Escritor Goiano do Serviço Social de comércio participando com prosa e poesia
- Enciclopédia da Literatura Brasileira de Afrânio Coutinho (1990)
- Pequena Historia de Literatura Goiana de Alaor Barbosa
- Dicionário de Mulheres de Hilda A. Huber
- A Poesia Goiana do Século XX de Assis Brasil
- Goiás meio Século de poesia "Gabriel Nascente"
- Estudos Literários de autores goianos e escritores de Goiás - Mario Ribeiro Martins
- Dicionário Crítico de Escritores Brasileiros Nelly Novaes Coelho
- Dicionário do escritor goiano "Kelps 2006 de José Mendonça Teles"
- Dicionário bibliográfico de Goiás Mario Ribeiro Martins. Citada nos dicionários de Bariani Ortêncio, Oscar Sabino e outros.
- Literatura Infanto-Juvenil - Prosa e Poesia autoras: Ana Maria Lisboa Mello, Maria Zaira Turchi, Vera Maria Tietzmann (coleção Horus) Editora UFG 1995, contém referências à poesia infantil pioneira que é no gênero em Goiás.
- "25 Mulheres que estão fazendo a Nova Literatura Brasileira" - (2004) Editora Record/Rio/ São Paulo - Autor: Luiz Ruffato
 
 
Augusta Faro fez mais de cem (100) apresentações e prefácios de livros de vários estilos e autores. Poesia, prosa, infantis, apresentação oral de lançamento, realizou inúmeros. Quando membro do Conselho Estadual de Cultura na Câmara de Patrimônio Histórico conseguiu a retirada do garimpo no Rio Vermelho auxiliado pelo saudoso promotor Dr. Sullivan Silvestre. Conseguiu ainda que o antigo BEG (hoje Banco  Itaú) e o Banco do Brasil modificassem completamente as respectivas fachadas, adequando-as ao cenário colonial da cidade Patrimônio. Ainda conseguiu a não demolição da Capela Santa Casa (Nossa Senhora das Graças) e ainda o restauro e a entrega da mesma capelinha da Rua 4 ao culto religioso, ainda a iluminação do Cemitério São Miguel na cidade de Goiás.
 
No Conselho e na AFLAG apresentou proposituras colocando placas na cidade de Goiás nos logradouros onde nasceram e viveram vários nomes da cultura goiana exemplo: casa onde nasceu e viveu Rosarita Fleury, Dona Eurídice Natal Silva (onde viveu) na farmácia Santana que veio pra Goiânia nos primórdios do nascimento da capital e onde nasceu e residiu Regina Lacerda Nita Fleury, Maria Paula Godoy entre outros vultos goianos, Veiga Vale, Professor Alcide Jubé e etc.
 
- A Fundação Cultural de Goiás no governo do Sr. Marcone Perillo homenageou Augusta no dia da mulher com sessão solene no Teatro Goiânia - recebendo homenagem também do Sr. Governador e de Valéria Perillo (1ª dama)
 
- A Secult da Prefeitura da cidade de Goiânia homenageou Augusta em solene festividade no Cine Ouro, sob o comando do teatrólogo Danilo Alencar que já apresentou vários contos seus dramatizados, inclusive o livro Alice no País de Cora Coralina.
 
Foi homenageada diversas vezes pela Fundação Museu "Casa de Cora Coralina" na cidade de Goiás - entidade da qual ela é sócia fundadora. Iniciativa das homenagens: Professora Dona Marlene Vellasco.
 
- No 2º FICA foi homenageada no Largo do Chafariz da cidade de Goiás com encenações dramáticas do conto "A Gaiola", com iluminação e som apropriados para a praça e atuação de Tetê Caetano. Mais de 2 mil pessoas aplaudindo a performance às 2 horas da manhã.
 
Augusta é convidada sempre para abrir Semanas Literárias em Faculdades da UEG por ex Pires do Rio, Anápolis, Rio Verde etc. - Seus contos infantis fazem parte de Coletâneas dedicadas às crianças até 12 anos. Como o ultimo Chapeuzinho Verde que integra o Compendio de Literatura Infantil de Belo Horizonte- MG, publicada em agosto de 2009.

- O conto do gênero absurdo e fantástico "A Gaiola" foi traduzido e publicado em inglês novamente, desta vez para "A Traveler´s Literary Companion" editada por Alexis Leventm em setembro de 2009.

 

Contos:

Gertrudes e Seu Homem

Ai, tudo é abismo 
sonhos, desejos, vida e morte
inspirada e, Baudalaire.

 As amarguras de Gertrudes doíam na alma tropeçante de quem parasse um pouquinho só para observá-las. Havia um sorriso de penumbra sempre lhe embaçando o olhar cor de chuva, de tormento, de desvairo e de profunda solidão.


Gertrudes apareceu na cidadezinha assim como sarna surge, de reente, sem explicação. Chegou com sua maturidade acalmada, retinta de fogo morto, sobrando apenas cinzas fabulosas. Alugou a casa da viúva Eleonora, do seu Tomás, aquele de olhar branco, com os cabelos grudados e que possuía um sorriso tão alto e cheio de estranha sonoridade, que espantava os passarinhos de todas as árvores da praça e os morcegos da torre da igreja de Nossa Senhora do Bom Parto.

Gertrudes montou seu "ateliê de costura" (como escreveu na placa rústica e simpática do portãozinho) e o trouxe tecidos de cores primorosas e sem semelhança com outras cores de uso acostumado.


Esses panos passavam uma intranquilidade danada no espírito dos homens de todas as idades e um contentamento esfuziante no espírito das mulheres. A freguesia cresceu como a brisa de maio, assim silenciosa e rápida, inflexível em sua presença, que rangia de tão cheia de frescor. Gertrudes, muito prosa, falava até espumar os cantos da boca e contava grandeza do amor de seu homem, e tocava a pionola, e dava corda nos relógios, e plantava lírios amarelos nos fundos da casa e girassóis no jardim. Mas as amarguras de Gertrudes iam atrás dela, de tão forte presença que se assemelhavam a vultos de espíritos num acampamento solene.

A sociedade amou rapidamente aquela mulher, que dizia com a boca benta de paixão: "Meu marido chegou de viagem tarde da noite, agora dorme. É viajante, não tem porto, o coitado. Ama o lar, mas a profissão o consome. Vamos falar baixo, pois, se ele acordar, fica ansioso o resto do dia." Puxava a porta, trazia as botinas sujas de lama para perto da bacia no corredor do jardim. A mala abria sobre duas cadeiras ao sol.


Todo mundo que frequentava o ateliê de costura, sempre ouvia as estórias de Romão, esse nome sempre envolto de onírico mistério ruidoso, palpável e, sobretudo, impenetrável. Ninguém nunca o vira, só sinais do cavalheiro distinto que "estralava" de amores por Gertrudes.


Sempre um presente acompanhava o retorno daquele rapaz escalavrado de vítrea aura impermeável, e que sufocava o ambiente com um perfume de macho saudável, vigoroso e quase satisfeito plenamente.


E Gertrudes fazia bolos e broa, peta e biscoitos, rocamboles com frutas cristalizadas, tão perfumadas, e abarrotava de "quitutes" os guarda-comidas. Sempre havia dois pratos, dois copos, duas xícaras, duas chávenas, e assim por diante, na enorme mesa "antigona" e toda trabalhada, acomodada num salão, só para refeições. A toalha rendada de branco céu e, em tudo por tudo, uma zelosa harmonia parecia dançar valsa naquele ambiente. O interior da casa sempre sóbrio, elegante e distinto, bonito de se contemplar.

"Gertrudes não é desse mundo, gente!", diziam as moças cheias de vida e encantadas com tudo. Leninha jurou de pé junto que viu mais de uma vez seu Romão atravessar o pátio dos lírios desesperados. E contava na praça: "Ele é lindo, altão, moreno claro, tem uns olhos tão verdes como uma folha de parreira nova. É perfumado, o homem. Deixou no ar um cheiro tão bom, que nem dei conta de ir embora dali, até que o sol me queimou e, quando ardeu minha pele, consegui sair andando. Ele tem as mãos longas e macias. Deram-me calafrios. Quando cheguei em casa, tive febre a noite toda. Esse homem veio do começo do mundo, gente!"


A aura do marido de Gertrudes crescia com fama audível, indomável. Seus cheiros, sinais, astros, marcas estavam por todos os cantos e cantoneiras da casa. A curiosidade de vê-lo era atiçada, fora de toda compreensão, quanto mais casos Gertrudes cantava de Romão. De como o conhecera, do dia do casamento, do filho que lhe morreu na barriga, porque um jacaré imenso apareceu rolando no limpo chão. Esse dia, Gertrudes, entrecortada de dor, pensou que fosse morrer e engomou a mortalha que bordara em noites de espera de Romão. Inteiramente de vidrilhos cor de água, cor de espuma, em desenhos e arabesco geometricamente riscados e que, olhados de longe, imitavam uma biga com sete cavalos e um cavaleiro, como aqueles antigas que corriam nos primórdios dos tempos cristãos, na cidade de Roma, que, de tão conhecida, até pereciam-lhe os encantos.


Era sempre e sempre um martírio sem conta, de uma fundura custosa, aquele sofrido pelas senhoras e moças que visitavam o ateliê de costura de Gertrudes.

E ela voejava pela imensa casa como borboleta, sempre a fazer mil coisas. E, entre uma e outra, olhava-se no espelho e contava mais um caso, e revelava as noites de amor com aquele potro de legítima gentileza e incansável ternura.


No fim de pouco tempo, as pernas das adolescentes, das moças velhas e novas, das donas viúvas e das senhoras casadas tremiam só de pensar em ter de experimentar o vestido, de provar a saia plissada, ou verificar se o chapéu melancólico, mas cheio de luz, estava em ponto de prova satisfatória.

Quem andava com a alma cheia de musgo, zumbindo resignação dolorida de ciúme consistente, como aço, era cada marido, ou cada pai, ou cada irmão. O perfume de Romão, sempre rarefeito, sufocava e parecia derreter os ossos e nervos das freguesas. E Gertrudes a contar suas noites afogueadas, mostrar os presentes e pedir mais silêncio, pois ele ressonava. Chegara novamente de longa viagem.


A agitação interior das meninas costumava provocar câimbras nos pensamentos delas, as coitadas, ouvintes das confidências pesadas de tão reais, fundindo o coração e a alma, resultando daí um caldo de angustiante desejo e curiosidade sem termo.


Às vezes, quando a ausência da viagem era maior, Gertrudes caía na cama, inapetente, pálida e, todas  as tardes, chorava inclementemente, que toda a cidade começava a rezar para que a profunda amargura descesse o rio o deixasse a costureira sossegada. Mas logo chegava o moço, com seus assombros em brasa, seu perfume e paixão indecifráveis, seus suspiros que carbonizavam até planos e bordados. Os quatro cantos da cidade pareciam sacudidos por terremotos dolorosos de tanto carinho.

Ninguém nunca conseguia explicar o porquê da desatinada amargura que emanava sempre e constantemente da costureira Gertrudes, estando o nobre amo e senhor presente ou estando em suas obscuras ausências de ambulante, mascateando miudezas raras e curiosas.


Após mais de ano de tanto martírio, meia dúzia de aventureiras insalubres e desalmadas planejaram invadir o quarto do cavalheiro para vê-lo dormindo e em pêlo, pele, suores e suspiros.


Isso, evidentemente, quando Gertrudes fosse às compras na feira do morro ou no mercado velho, onde costumava ficar horas piruetando entre as vendinhas, aproveitando um gole de café, e então contava as façanhas de seu amado distante ou presente bem dentro de sua alcova dominada pela penumbra e cheiro de céu.


Numa manhã cravejada de mau agouro, as meninas tomaram coragem e penetraram no imenso e silencioso recinto. O homem resonava, coberto de linho puro todo bordado de rosáceas de seda. Bárbara de seu Tonico, o seresteiro afamado, acendeu a vela da cabeceira, enquanto as meninas, devagarinho, para não despertá-lo, foram lhe tocando os linhos com a leveza das mãos e das palavras. O resfolegar da serpente interior das fêmeas mugia solene naquela manhã calorenta e pasmada até a raiz das nuvens.


Com vagar e doçura, foram descobrindo o rosto, os ombros, o meio do corpo daquele homem moreno, fragilizado pelo sono, dormindo tão justo e casto. Até que, por fim, descobriram-no por inteiro, nu, repousando na beleza de um deus grego, tão silencioso como uma estátua perfeita e fascinante de um museu de Tróia.


Era o dia do fim do mundo. Ele, ali, verdadeiro e completo. A menor das moças. Ditinha de Sá Rita, tocou-lhe os lábios. Estavam frios com gelo. Assustadas, vieram todas apalpando os cabelos de seda, os ombros cheios de flores, o peito vigoroso de pêlos lisos e dourados e os pés alvos e de perfeição rara de se ver. Ele estava ausente de alma? Habitaria naquele instante o mundo subterrâneo, levado pela "indesejada de todas as gentes?"


Não é possível! Abram as janelas, acendam luzes do alto, escancarem tudo para o sol chegar! O ar fresco, restolho da madrugada há pouco morta, entrou em cheio no aposento. E elas reviravam agora aquele homem acalentado tanto tempo em sonhos, cercado de intenso silêncio e fragilidade exposta.


Os minutos enfraqueciam nos relógios de toda terra, para chegarem a mais esquisita constatação: era um boneco de goma, espécie de uma borracha, perfeito dos perfeitos.

Com mãos trêmulas e úmidas de suores, abriram-lhe com tesoura o ventre delicado viril e incandescente. O grito soou rompendo tímpanos. Uma caixa mecânica incrustada no plexo solar, para que os suspiros, gemidos ali dormitassem cumprindo sua sina cronometrada. O resto era algodão com sementes, saindo aos borbotões. Os olhos de vidro, lindos, brilhantes e lacrimosos. As orelhas, lábios e língua feitos de matéria como uma borracha especial e macia.

Gritaram até a outra madrugada chegar. A cidade acorreu em massa. Frei Lauro, o caolho, veio tropeçante em pura castidade, suando frio com roxo beiço tremido.

Depois de três dias de afobação tresloucada, sentiram falta de Gertrudes. Esvaziaram Romão, beijaram-lhe todas as partes, num misto ódio e amor, e o partiram em pedaços nobres e pouco nobres. O perfume no ar, e Gertrudes nunca aparecia.

Cada qual pôde levar um pedaço para casa, nem que fosse uma unha, daquele sonho deitado acima de todas as compreensões. As trevas vieram em forma de aguaceiro sem nome, sem tempo, e provocaram mediana enchente, lambendo pontes e pinguelas.

Uma semana depois, na prainha, bem abaixo do matadouro, estava Gertrudes, perfeita como viva, abraçada com os agrados que buscara do seu amado. Eram colônias, sais de banho, presentinhos e enfeites, um anel de pedra lilás, tudo para Romão, homem de suas palavras diurnas e noturnas. Nada sucumbiu à chuvarada e nem à enchente.

Gertrudes guardou entre os seios e braços os presentes do viajante, tudo bem guardadinho, para aquele que havia voltado de mais uma viagem. Mas quem pegou a estrada dessa vez foi Gertrudes, não foi o cavalheiro amoroso. A alma de Gertrudes foi vista mais de uma vez; às vezes, tomava forma de uma pomba sempre esperta e fria. O corpo em nada foi maculado, mas recendia aquela antiga amargura disfarçante, que ficou repousando por todos os recantos da cidade, vinda daquela mulher que parecia adormecida, na curva maior da prainha, coberta de violetas e solidão. Ninguém nunca esclareceu se a senhora Gertrudes teria morrido na hora exata em que descobriram e violentaram seu sagrado segredo, ou se aguaceiro lhe havia roubado a flor da vida.

 Até o último momento, ao fechar o esquife, ainda possuía o frescor dos vivos, a tristeza de quem está partindo e a saudade desmesurada de um ente querido que perdera definitivamente.