Nasceu em Goiânia – Goiás. Formou-se em Educação Física e em Psicologia . Fez pós-graduações nos dois cursos. Foi professora de dança e de Educação Física, dentre outros locais, na Universidade Católica de Goiás (UCG), e no Centro Livre de Artes, tendo sido aprovada em primeiro lugar em concurso público. Foi sua diretora por nove anos. É membro da União Brasileira de Escritores - Goiás, (compõe o Departamento Social e Cultural da Diretoria); da Comissão Goiana de Folclore - UNESCO, onde é Secretária Geral; da Associação Goiana da Imprensa; da Academia de Letras Ciências e Artes de Campo Formoso e da Academia Belavistense de Letras e Artes. É Chefe de Gabinete do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás (Sócia Titular, ocupando a cadeira número 07). É Conselheira do Conselho Municipal do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de Goiânia. Recebeu o título de Personalidade Cultural do Ano-2005 pela UBE-Goiás. Publicou os livros: Dimensões do Viver, Quatro Poetas Goianos e Um Pintor Francês e O Avesso das Horas e Outros (edição trilingue: português, espanhol e francês). A Cultura Plural de Bariani Ortencio (org). Participa de várias Antologias nacionais e internacionais. Tem poesias publicadas em Revistas da Europa. Representa o Brasil em Encontros Culturais no Chile, Peru e Argentina. É articulista do jornal Diário da Manhã.

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Artigos

Em Poesia, Nada Equivale a Tudo

O escritor argentino Santiago Kovadloff (1942) decidiu o que queria ser, ainda na adolescência, dentro da sala de aula, quando um professor inicia a aula dizendo: “Quero lhes comunicar que sou professor de filosofia. E que filosofia não serve para nada.” Sob olhares incrédulos dos alunos, completa: “Peço-lhes apenas alguns minutos de atenção que vou lhes explicar o que é nada”. Kovadloff comenta que, ao final da explicação do mestre, sabia o que queria ser: professor de “nada”, ou seja, de filosofia. E se tornou, além de grande filósofo, professor, poeta, ensaísta, tradutor e antólogo de literatura da língua portuguesa.
 

Com a poesia, por vezes, ocorre o mesmo. Há quem diga que não serve para nada. Que não há lugar para o feitio lírico na selva capitalista. Que poemas não vendem livros... Como explicar o crescente aumento de poetas? Sabemos que hoje há mais poetas que ontem e menos que amanhã. A poesia, como a arte em geral, jamais será banida. A arte, como afirma Paul Klee: “Não reproduz o que vemos. Ela nos faz ver”. Nas palavras do filósofo alemão, Friedrich Nietzsche (1844-1900), “A arte nos protege para não morrermos da verdade”.
 

A poesia é uma criação autossuficiente de plurissignificação, com seus mistérios, matizes, enigmas e obscuridades em polissemia.  Mais que um gênero literário, é um ofício do ser humano sensível. O domínio da expressão da linguagem pela palavra é que torna o poeta diferente dos demais. Há quem necessite da poesia como segunda opção de comunicação, como forma de se livrar ou atenuar a dor de sentir. A poesia queima, e no seu excesso de luz, consome e traduz a vida. Só na produção poética é possível habitar entrelinhas, preencher espaços intersticiais entre a palavra e o silêncio.
 

Ao poeta é atribuída a aventura de barganhar enigmas. Para ele, a palavra se veste de significados que vão além do que se propõe, alcançando assim a plenitude na expressão poética. Este alcance, que a língua jamais almejaria, só é atingido por intermédio da poesia. Só ela é capaz de dizer o indizível. Mesmo com a precariedade dos meios, abordar o incomensurável. Para o filósofo francês Jacques Derrida (1930-2004): “Ao poeta cabe devolver à humanidade a capacidade de falar.” Para Heidegger (1889-1976), filósofo alemão: “A verdade como clareira e ocultação do ente acontece na medida em que se poetiza”
 
A poesia, como uma adaga em uso, perfura o invólucro em que o mundo se oculta e nos revela outro perfil. Torna possível a completude do universo, que poderá ser assimilado além de sua efemeridade. O poeta, imerso nesse espaço, deixa-nos como legado sua face oculta, transparente ou desfigurada, em que a linguagem é o transporte. A palavra poética, a ser desvendada, necessita de nossa leitura, sensibilidade, busca e revelação. Mas, para T. S. Eliot, a poesia pode se comunicar antes de ser compreendida. Ratificando este conceito, Friedrich afirma: “Ninguém escreveria versos se o problema da poesia consistisse em fazer-se compreensível”. O mistério é então parte inerente da poesia.
 

Santiago Kovadloff acreditou na importância do “nada”. Enquanto poeta, filósofo e escritor demonstra, em suas publicações, nos seminários, encontros e palestras que realiza em várias partes do mundo, a importância do “nada” na poesia para que possamos sentir o pulso da vida por meio da veia poética que alimenta a alma humana e que todos possuímos. Do contrário, não seríamos humanos. E não teríamos alma.

Namastê.
 

Neruda - O Inquilino de Isla Negra

Neruda Escreveu em sua Ode ao Livro: “Livro, quando te fecho / abro a vida”. Ler Neruda. “...é trafegar, com o espírito de um viajante sem destino, por essa fronteira de mão dupla, livro e vida, vida e livro, que estamos sempre a fechar e a abrir”. Afirma Jose Castellano na Antologia Poética de Pablo Neruda.
 

Poeta da inconstância, do movimento, do susto e da intensidade, sem máscaras ou heterônimos multiplicou-se em vários. Destrinchou a inesgotável condição humana, num reflexo de imagens fragmentadas, volúveis e uma inquietude que tão bem representa no seu fazer poético. Não oferece opção ao leitor: ou mergulha inexoravelmente em sua poesia, de difícil acesso, ou não a terá verdadeiramente ao alcance.
 

Pablo Neruda nasceu em 1904, foi batizado de Neftali Ricardo Reys, mas em todos os seus livros sempre constou Pablo Neruda. Nome que se oficializou e se tornou verdadeiro, em 1946, quando já contava com 42 anos de idade. Seu nascimento se deu em uma pequena cidade ao sul do Chile, chamada Parral. Mas foi em Isla Negra, uma cidade na costa central do Chile, que após viajar pelos quatro cantos do mundo, que encontra o seu canto, junto ao oceano, inadvertidamente chamado de pacífico, para se instalar com sua terceira e última esposa Matilde e permanecer para além de seus dias. 
 

Neste santuário poético tive o prazer de pisar os pés, mergulhar em seu mundo, conhecer a sua casa: o Museu Pablo Neruda.  Uma magnífica habitação onde prevalece a presença de seu dono: as lembranças de sua infância, a fantasia, o humor e acima de tudo o mar, um de seus temas preferidos. A história de cada peça é muito bem relatada pelos cicerones que acompanham as comitivas de visitantes. Era ali que o poeta passava a maior parte do tempo escrevendo, sistematicamente nas madrugadas, em seus cadernos de desenhos, sentado na escrivaninha que pertenceu ao seu pai, José del Carmen Reyes. Os olhos encantados pelo mar, quando a lua resolvia o oceano clarear. Todos os aposentos têm visão para o oceano. Suas “paredes” de vidro, voltadas para a costa, são lentes transparentes que fitam o mar e o infinito.

 A casa reflete o universo humano e poético de Neruda, suas infindáveis coleções o mantinham em constante elo com sua trajetória de vida, sendo quase sempre temas de seus poemas. São estátuas de proa, onde cada uma é personagem viva de suas histórias, veleiros dentro de garrafas trazidas de diferentes partes do mundo, estribos de várias localidades do planeta, mais de seiscentas peças de caracóis marinhos de todos os tamanhos, cores e variedades, instrumentos antigos de navegações e um cavalo de madeira de tamanho natural, trazido da cidade berço de sua infância. Fez-se necessário  a construção na casa de mais um quarto, para abrigá-lo. Aliás, a casa consumiu trinta anos para sua conclusão. À medida que aumentavam suas coleções, se sentia obrigado a ampliar um pouco mais sua residência. Há uma parede revestida de lápis lazúli, pedra azul de beleza extraordinária, que só existe no Chile, no Afeganistão e em Burma na Ásia.

A amizade, tema sempre presente em sua obra, (depois do amor, é o preferido do poeta), mereceu destaque também em sua casa. O bar é o local dedicado aos amigos. Enquanto os presentes se reuniam junto ao balcão, os ausentes (mortos) eram homenageados com seus nomes nas vigas do teto. Na entrada duas fotografias, de dois grandes amigos: Federico Garcia Lorca e Alberto Rojas Gimenes.

Assim como a visão do mar oferece uma perspectiva fundamental para perceber e compreender a evolução do poeta ao leitor atento, a sua atitude diante da amizade é também de grande importância. Ele mergulhava em uma destruição geral quando o tema surgia verdadeiro: a morte de um amigo. Neruda em Barcelona é informado da morte de seu grande amigo Rojas Gimenez e transcreve para a poesia uma visão quase surrealista da perda:

“Ouço as tuas asas e o teu lento vôo,
e a água dos mortos me bate
como pombas cegas e molhadas:
          vens voando.

Vens voando, sozinho solitário,
sozinho entre mortos, para sempre sozinho,
vens voando, sem sombra e sem nome,
sem açúcar, sem boca, sem roseiras,
          vens voando.”

 O poeta como a pressentir a morte trágica, por fuzilamento do amigo Federico García Lorca, obcecado que era por manifestações antecipadas do cotidiano da morte, dedicou a ele poema elegíaco, quando o poeta espanhol estava ainda em pleno apogeu poético:

“Se pudesse chorar de medo numa casa sozinha,
se pudesse arrancar-me os olhos e comê-los,
fá-lo-ia pela tua voz de laranjeira enlutada
e pela tua poesia que sai dando gritos”...

Neruda viveu sem rótulos, avesso a erudição, possuía grande apego aos que se sentiam à margem da sociedade.  Creditava o amor à natureza ao seu fazer poético. Sentiu-se poeta antes mesmo de perceber sua vocação. Sempre fiel aos seus temas: natureza, amigos e amores, afirmou que “um poeta deve ser um mito”.  E tornou-se um mito. E o mito jamais morre.

 Em 1971 ganhou o prêmio Nobel de literatura. No início da primavera de 1973 veio a falecer. Seu corpo ficou onde ele sempre quis estar: junto a sua casa e o mar, ao lado de sua Matilde (1912 – 1985). Às águas escuras do pacífico deitou seu corpo a contemplar o mar. Ficou para sempre no encantamento do mar amado. O túmulo é mais um espaço para o visitante se encantar com o bravio oceano de Isla Negra e testemunhar o perene descanso de um mito, que para sempre viverá no universo poético de nossa alma.

Namastê.
 

 

Que Sociedade é Esta?
 

 
Mitchell Stephens, em História das Comunicações, afirma que "As sociedades podem ser soerguidas pela arte que criam, amparadas pela história que preservam; mas as sociedades são, em certo sentido, sustentadas pelas notícias de que partilham."
 

Houve tempo em que Goiânia podia contar com vários espaços de leituras, convivência e acesso livre aos livros, especialmente de autores goianos. A então ingênua Feira Hippie, de décadas anteriores, plantava esperanças, divertia o público e propiciava-lhe lazer e harmonia nas bucólicas manhãs dominicais. Era espaço de convivência. Inicialmente, realizava-se nas pistas e no canteiro central da Avenida Goiás. Mais tarde, foi transferida para a área interna da Praça Cívica. Dividiam espaços: artesãos, artistas plásticos, cantores e autores. O público tinha acesso aos livros e a seus criadores. Livros à vontade. Podiam-se manuseá-los, folheá-los, escolhê-los e comprá-los. Se o preferido era de autor goiano, olhe ele ali ao lado, para autografá-lo.
 

O Bazar Oió, a Livraria Cultura Goiana, dentre outras, eram ponto de encontro de muitos, nos dias que tinham “feira” no nome. No domingo, quando fechavam as portas, expunham seus acervos, ainda pequenos, em rústicas bancas na Feira Hippie. Essas livrarias e muitas outras em Goiânia, assim como esses hábitos de encontros com o saber e a leitura, há muito, deixaram de existir, por absoluta falta de interesse do público.
 

A televisão invade nossos lares, com notícias atrozes. A violência tomou conta do inconsciente coletivo. Está em todos os lugares. Não é mais “privilegiada” a comunidade de periferia ou a de baixa renda. Meninos, classe média, matam por prazer ou engano, em porta de shopping luxuoso. Policiais abatem vidas ao bel-prazer, impulsionados por desejos inescrupulosos. Sarney que não sai, e Presidente que nada sabe. São estas e outras atrocidades, as notícias que partilhamos.
 

As academias de culto ao corpo perfeito, exigência social cada vez mais introjetada em nossa sociedade distante da mente culta, proliferam. Nada contra, muito pelo contrário, desde que haja equilíbrio e a máxima seja cumprida: corpo são em mente sã.
 

Goiânia perde sua história. Permitem que a modernidade e o desenfreado capitalismo desmoronem nossas tradições, nossos locais de origem. Lugares e locais que deveriam carregar em seu bojo nosso passado recente, o de nova capital do cerrado.
Q

ual arte estamos criando que possa soerguer nossa sociedade? Que história preservamos, que possa nos amparar? Quais notícias partilhamos? Elas, que são, “em certo sentido”, o sustentáculo de nossa sociedade, como afirma Mitchel Stephens. 
 

Parodiando Fernando Filizola e José Chagas (Quinteto Violado, Palavra Acesa): "Palavra quando acesa não queima em vão, / deixa uma beleza posta em seu carvão". Palavras que partilhamos não queimam em vão/ deixam tristezas postas em seu carvão.
 

Que sociedade é esta?

 

Namastê.

Rosarita Fleury, Uma Voz de Permanência

No início do século passado, a mulher ainda vivia um universo restrito ao espaço do lar. Segregada e discriminada, algumas conseguiram transcender e abarcar a arte, a cultura e a política. Deixaram rastros além dos muros de suas casas. Precursoras. Romperam paradigmas tradicionais, em um tempo de sociedade fundamentada no patriarcado.
 

A instalação da Academia de Letras de Goiás, em 12 de outubro de 1904, na antiga Vila Boa, capital de Goiás, contrariou o modelo francês, seguido pela Academia Brasileira de Letras. Esta negava a presença feminina. A Goiana não só admitia sua presença, como elegeu uma mulher para primeira presidenta: Eurídice Natal e Silva. De duração efêmera, foi de fundamental importância para o surgimento, em 1939, da atual Academia Goiana de Letras em Goiânia. Fundada pelo seu filho Colemar Natal e Silva, entre outros.
 

Dos patronos e membros fundadores da Academia Goiana de Letras (no total de 21 cadeiras) não constavam a presença da mulher. No entanto, o primeiro certame literário promovido pela nova Academia, Concurso São João, teve como ganhadora, na categoria poesia, uma figura feminina: Rosarita Fleury. O segundo concurso sob o tema Fundação de Goiânia, premiou-a com o Poema a Goiânia. Recebeu ainda, o prêmio Júlia Lopes de Almeida, da Academia Brasileira de Letras, com o romance Elos da Mesma Corrente.
 

A Cidade de Goiás, berço do dinamismo e lirismo feminino de outrora, nos legou a jovem Rosarita Fleury. Aos treze anos já se dedicava ao fazer literário.  Chegou em Goiânia, por ocasião do lançamento da pedra fundamental da cidade, em 1933. Seu pai Heitor Fleury foi o primeiro juiz de Goiânia. Jerônimo Augusto Fleury Curado, seu marido, compôs a comissão que escolheu as terras para a instalação da nova capital.
 

Rosarita foi a idealizadora e uma das fundadoras da Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás, juntamente com Nelly Alves de Almeida e Ana Braga, sendo sua primeira presidenta. Pertenceu a União Brasileira de Escritores de Goiás. Integrou o seleto grupo de membros do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás e imortalizou-se compondo o sodalício da Academia Goiana de Letras. Foi a primeira ocupante da cadeira 31(quando ampliaram o número de 21 para 40), que tem como patrono Eurídice Natal e Silva.
 

Maria do Rosário Fleury, nome de nascimento de Rosarita, publicou dez livros entre poesias, romances, biografias e ensaios. A antologia poética Pétalas, publicada in memoriam, organizada por Sandra Paro e coordenada por sua filha, Maria Elizabeth Fleury Teixeira da Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás é um primor de seleção. Na quarta capa consta:
 

“A vida – um jardim imenso –
tanta flor...Tantos caminhos...
Espalhados entre espinhos,
que até às vezes penso,
que a vida – jardim imenso –
tem muito mais espinheiro
que roseiral... Que canteiro!”
 

Após um ano de seu falecimento, ocorrido no Dia Nacional da Poesia, 14 de março de 2003, a biblioteca da Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás passou a ter o seu nome. Foi ainda homenageada com a Casa Rosarita Fleury, designação dada à nova e bela sede da AFLAG. Inaugurada na profícua gestão de Augusta Faro Fleury de Melo, hoje dinamicamente presidida pela “Tigresa de Bengala” Heloisa Helena Campos Borges, na imagem de José Mendonça Teles.
Goiás continua berço de grandes mulheres das letras, das artes, da cultura e da política brasileiras, que legam ao futuro suas vozes de permanência.

Namastê