Ercília Macedo de Morais Eckel) nasceu em Palmeiras de Goiás – GO, em 20 de fevereiro de l937. Mas se considera da cidade de Goiás e cercanias, onde viveu desde bebê até sua adolescência. Casou-se duas vezes. a primeira, com Aparício Dias de Araújo, aos 22 anos e a segunda, com o alemão Horst Eckel, aos 56.Foi escriturária ( registro de diplomas de normalistas) na Secretaria da Educaçao do Estado de Goiás, tendo trabalhado nesse órgão com os doutores José Feliciano, Rocha Lima, José Sizenando Jayme e Antônio Nery da Silva, esse ainda jovem, estudante de odontologia. A biografada abandonou tal função, ao se casar pela primeira vez, em l959. Mais tarde, em outrubro de l963, sem marido e com um casal de filhos, transferiu-se para Anápolis – GO e começou a lecionar Língua Portuguesa no Colégio (Evangélico) Couto Magalhães, onde já havia sido aluna, em regime de internato e com relativo destaque (3º ano colegial). Desde cedo (11/12 anos), Ercília Macedo mostrava inclinação para o magistério. Como irmã mais velha, reunia os irmãos mais novos e algumas crianças da Rua Travessa (Marquês Tocantins), na cidade de Goiás, para dar “aulas”. Confeccionava cadernos, boletins e livros de chamada com papéis de pão, costurados na máquina de mão da avó materna.

Em Anápolis, cidade a que muito deve, fez parte (l968) da primeira Banca Examinadora da Faculdade de Direito (FADA), recém-fundada. O exame incluía prova oral, depois da prova escrita de Língua e Literatura. Também lecionou no Colégio Estadual José Ludovico de Almeida, em cursinhos pré-vestibulares e na Faculdade de Filosofia ”Bernardo Sayão”, depois de concluído o curso superior nessa mesma Faculdade. Na ocasião (1966), redigiu a monografia de final de curso Um contista goiano, sobre os contos de Bernardo Élis. Esse estudo foi publicado pelo Departamento Estadual de Cultura em l968. Seu gosto pela literatura se acentuou. E, tendo adquirido, anos antes, A poesia em Goiás (1964), estudo e antologia, de Glilberto Mendonça Teles, pensou em fazer algo modestamente parecido, no que se referia à prosa: crônica, conto, romance. Então, teve como ponto de partida o apêndice da obra citada, os “balanços literários” de final de ano elaborados por Miguel Jorge e publicados no suplemanto cultural de O popular. A isso somou as respostas aos questionários enviados para os escritores e também a leitura atenta da prosa goiana “mais recente” (até l974). Diante desse material, a curriculada conseguiu datilografar mais de 200 páginas em papel ofício. Deixou os origianis encadernados no Departamento Estadual de Cultura para publicação, sem guardar para si uma cópia. O trabalho se perdeu, juntamente com quatro anos de sua elaboração. (Infelizmente, com tamanho descuido, a curriculada fez por merecer.) Porém muitas partes desse estudo foram publicadas nO popular, no Correio braziliense (sobre Ursulino Leão), na Folha de Goyaz, no Cinco de março (hoje Diário da manhã). Deveria se chamar “A prosa em Goiás” ou ”Literatura goiana em prosa”.

Ercília Macedo voltou a residir em Goiânia no começo de l973. Pois no ano anterior fora admitida na Universidade Católica de Goiás. Ali ficou quatro anos, até iniciar o curso de mestrado em Literatura Brasileira na UFG, cuja dissertação não chegou a ser concluída e caducou.Também frequentou quatro semestres de Artes Visuais na UFG,1979/81. Problemas familiares a acompanharam desde... sempre. E, nessa época, leu uma obra de Nancy Mayer que tinha como subtítulo: “Recomeçando a vida depois dos 40”. Uma reflexão muito importante para quem está na meia-idade e precisa de mudanças, enfrentar desafios. Então, no começo de 1982, pediu licença do Estado e fixou residência em Curitiba, aos 45 anos. Naquela capital, lecionou Português nos colégios do governo (CLT) e Metodologia Científica / Técnicas de Pesquisa, na Faculdade de Ciências Humanas e Sociais, também chamada, na época, de Faculdade Espírita. Três ou quatro anos depois, retornou a Goiânia, às cadeiras de Língua Portuguesa, Literatura Brasileira ou Redação, anteriormente licenciadas. E aí prevaleceu até se aposentar.

Aprendeu a ler na fazenda aos cinco anos, em cartilha branca e preta e em revistas evangélicas para crianças. Soletrando, a aproximadamente 12 km da Colônia dos Alemães, hoje Uvá _ 38 km de Goiás. Isso aconteceu sob o rigor e cuidados da avó materna, Domethildes de Matos Macedo (1886-1981), uma baiana, que dizem ser descendente do poeta barroco Gregório de Matos. Aos 7 anos a menina Ercília deixou a fazenda Buriti Isolado e veio com os avós para Goiás.A cidade ainda guardava o cheiro de Capital. E de longe ela pensou que as lâmpadas fossem estrelas caídas, espalhadas pelo chão. Matriculou-se na escola pública: Grupo Escolar Manuel Caiado. Depois fez o Curso de Admissão ao Ginásio com a profa. Colombina de Castro (particular). A seguir, vieram o ginasial e colegial (“científico”) no antigo Liceu da cidade de Goiás, exceção feita ao 3º ano , cursado em Anápolis, como aluna interna. E, numa época em que moça de bom nome saía de casa só depois de casada, Ercília Macedo veio para Goiânia sozinha. Prestou vestibular na ainda Faculdade Católica para o curso de Letras Anglo-germânicas e passou a morar no “Pensionato das Freiras”, em frente ao Hospital Santa Helena. Porém abandonou a Faculdade ao se casar pela primeira vez, vindo a concluí-la mais tarde, em Anápolis, 1966.

Curso superior: Letras Modernas (2 de dezembro de l966) “Bernardo Sayão” Anápolis – GO; Aperfeiçoamento: Autorizada pelo MEC para lecionar Metodologia do Trabalhlho Intelectual , frequentou o curso de Metodologia do Ensino Superior,UFG, concluído em 23 de abril de l975; Mestrado: Letras e Linguística – Literatura Brasileira (28 de novembro de l994), UFG.

Publicações (além de jornais): Um contista goiano. Anápolis: Couto Magalhães, 1968 – estudo pioneiro sobre as obras de conto de Bernardo Élis; Maíra – reescrita e dessacralização do mito: o ritual parodístico do sacrifício indígena pela catequese. Goiânia: Kelps, 2000 – ensaio sobre o romance pornomítico Maíra, do antropólogo Darcy Ribeiro; Quarta dimensão: o tempo da palavra e outros tempos. Goiânia: Kelps, 20005 – poemas.Coletiva:Revista Educação hoje. São Paulo: Brasiliense, nº 3, maio/jun. 1969; Colheita (antologia de poemas), org. Gabriel Nascente, Goiânia: Unigraf, 1979;Coletânea de poesias. Curitiba: org. Casa do Poeta do Paraná, 1983; Quarta noite da poesia paranaense: a poesia sobe ao palco. Curitiba: Ed. Beija Flor, Teatro Guaíra, 15 de setembro de 1983. Direção de Lilian Fleury; Revista da UBE/GO. Goiânia: Kelps alguns números. Anuário e Revista da Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás. Todos os números, desde sua fundação (1969); Coletânea de escritores brasileiros contemporâneos em prosa e verso, de Adrião Neto, Teresina – PI: Edição Geração 70, 1999, dentre outras. Participou de festivais de poesia falada e de exposições de poemas-cartaz (Cine Teatro Goiânia) na década de 70 – Organizados por Miguel Jorge.

Verbetes de Dicionários:Dicionário enciclopédico de Goiás, de Ciro Lisita Júnior. Goiânia: Universidade Católica de Goiás. 1984; Enciclopédia de literatura brasileira, de Afrânio Coutinho. Rio de Janeiro: Oficina Literária. 1990 e 2001, 2. ed; Ensaístas brasileiras, de Heloísa Buarque de Hollanda e Lúcia Nascimento Araújo. Rio de Janeiro: 1993;Dicionário de escritores de Goiás, de Mário Ribeiro Martins. Rio de Janeiro: Rocco, Master. 1966; Dicionário biobibliográfico de escritores brasileiros comtemporâneos , de Adrião Neto, Teresina – PI: Edição Geração 70, 1998 e 199; Dicionário de mulheres, de Hilda Agnes Hübner Flores, Porto Alegre: Nova Dimensão, l999;Dicionário do Escritor goiano, de José Mendonça Teles, Goiânia: Kelps. Várias edições.

Patrona e titular da Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás (l969), cadeira nº 10, Goiânia; sócia da União Brasileira de Escritores (UBE/GO) e da Academia Petropolitana de Letras, cadeira 76, Petrópolis – RJ. Quando residiu em Curitiba, pertenceu à Casa do Poeta do Paraná.

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Textos:

No Santuário de Cora Coralina 
 
           
No final de 2001 José Mendonça Teles me autografou No Santuário de Cora Coralina. Dias depois (11 de dez.), a Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás encerrou brilhante e saudosamente, nesse mesmo santuário, suas atividades do ano. Na ocasião lá estava o autor nos prestigiando, tanto na casa de Goiandira do Couto, quanto nas homenagens _ aos nossos 32 anos de fundação _ patrocinadas pelo prefeito Boadyr Veloso, no Hotel Vila Boa. Magnífica festa! Apresentamos coral, jogral, cantos e falas enaltecendo a Antiga Capital e sua gente.

Protelei e protelei um contato com José Mendonça para agradecer-lhe a gentil oferta dessa 2.ª edição e descrever-lhe meu coração emoldurado na saudade de minha infância e juventude inebriadas de damas-da-noite e vividas na rua em cuja esquina estava a casa de Octo Marques. A sala de entrada do artista era um ateliê improvisado e as paredes usadas como as telas que figuram no livro em questão: burrinhos de carga e/ou urubus coadjuvam os temas locais. De tempo em tempo o mendigo de Deus renovava os painéis, pintando outros sobre os anteriores. Do lado de fora da janela-Moreira eu via tudo com olhos de menina curiosa, da Rua Travessa. Via também a felicidade de Octo, recebendo os congos na época de devoções populares. Encantava-me o aparato daqueles homens: sua coroas, chapéus, plumas; suas roupas coloridas e brilhantes; seus colares, suas fitas. Os reco-recos das compridas cabaças, os guizos dos pandeiros e sons rústicos de origem negra misturavam-se ao queixume indígena, indo e vindo sobre os mesmos passos:

 

Arirê, cum! cum!
Arirê, cum! cum!
Ô congo arirê!

 
E ouvia a simulação guerreira na Dança do congo:

 

Moça goiana
chega à janela.
Vem ver o congo
que vai pra guerra.
Eu vai pra guerra.
Vai guerreá ... á.
Se não morrê ... ê
hei de vortá ...

 
Na pág. 115, vemos José Mendonça com o braço no ombro de Consuelo Caiado. Ah, Consuelo! Era diretora do Gabinete Literário. Minha avó, muito enérgica, mandava-me tirar as dúvidas das matérias do Liceu naquela Farmácia (do sobrado cheio de jornais nacionais e franceses) e ponto de encontro dos amigos. De quebra, aprendi que não se dobra o canto das folhas do livro; exercitei-me na leitura pequenininha das notas de rodapé no compêndio de História Geral; pratiquei a pronúncia correta de nomes franceses e a consulta ao glossário, para o entendimento de palavras técnicas, específicas _ ou em desuso_ de cada disciplina. Finalmente aprendi que  moça não se senta e fica batendo um joelho contra o outro. Nem vou dizer o que significa! Conheci e ouvi Xará, em frente à minha casa, cantando:

 
Encontrei Maria
dentro do jardim
tá panhano frô
pra jogá ni mim.

 
           
As modinhas goianas mexem fundo no coração da gente. Parei!_com saudade das ruas de pedra_eu só, sem mais ninguém, quando José Mendonça matou a vontade de escrever alguma coisa sobre o toque genial de Maria Augusta Calado nos acontecimentos artístico-culturais de nosso Estado.

           
Quando vim da fazenda, para cá da Colônia de Uvá, a fim de fazer o primário, ouvi pela primeira vez Noites goianas, no Cemitério São Miguel, ao som  de violinos. Fiquei fascinada. Os alunos do Grupo Escolar Manuel Caiado e de outros estabelecimentos tivemos que prestigiar o enterro de uma urna que trazia os ossos de grande figura goiana. Creio que do poeta Joaquim Bonifácio de Siqueira, autor da letra desse hino oficial (e não de Joaquim de Sant’Ana que o musicara).

           
À medida que avançava na leitura, mergulhava no tempo:  sentia o gosto dos quintais, o cheiro dos casarões; tateava os musgos dos becos; re/via praças, largos, chafarizes bebendo a lua; ouvia a Pinta preta _ que eu tenho no lado direito do rosto _ tantas vezes declamada pelo poeta Ygino Rodrigues, no ouvido de sua enorme e tísica solidão.

           
Também ouvia as vozes de meus antigos professores, postadas nas paredes do velho Liceu, como numa torre de Babel entrecruzando as matérias: Haydée Bastos (Hist.), João Perilo (Ciências), Edla Pacheco/Dolcy Caiado (Mat.), Carlota Jubé (Geog.), Goiandira do Couto (Des.), Laíla Amorim (Francês), Maria Leite (Ed. Fís.) e muitos, muitos outros mestres do giz e da palavra. Polivalentes! Dolcy Caiado me iniciou na arte do discurso e da declamação poética, no salão nobre daquele velho Liceu.

           
De tanto as cigarras chamarem chuva nos quintais de Goiás, o rio Vermelho, avozinho de Cora, resolveu orquestrar uma sinfonia tempestuosa (4.° movimento da n.°6, de Beethoven?) e ofuscar os fogos de artifício no Réveillon/2002. A enchente de 1839 retornou como um fantasma para Luiz do Couto, querendo arrastar de volta para Catalão a Cruz do Anhangüera. Rolinhas-fogo-pagô não mais vêem a areia limpa do terreiro; lagartixas balançam astutamente a cabecinha, do alto das mangueiras, procurando pedras no muro para alugar; urubus emergem das pontes e sobrevoam as águas ao anoitecer. A cidade se dissolve humildemente num batismo coletivo.

           
Vejo Marlene Velasco, Maria Veiga e outros amantes ardorosos dessa terra limpando e carregando com cuidado os filhos e as folhas da história, na madrugada do novo tempo. Vejo, ainda, Marcelo Barra puxando serenata e seresteiros, Goiandira acima, Rosário abaixo, parando na porta de todas as idades, fazendo adivinhações, plantando emoções no cais da cidade pastada, lanhada e lacerada. E da cidade coralina, cheia de esperança, florida, revestida de abril para o mundo inteiro. Um sarau alegre chega ao antigo mercado e vai se dispersar no Largo do Chafariz. Nesse concerto noturno estariam Nice Monteiro, Sílvia Curado, Brasilete Caiado, Augusta Faro, José Mendonça, Helinho Brito, Ana Taveira, Marco Antônio Veiga, Maria Lucy, Iracema Malheiros, Fernando Cupertino... Poder e povo. Muita gente humilde dando e colhendo espigas de soliedariedade para a reconstrução das pontes, sobrados, telhados, paredes e muros verdes de avencas.

           
As vozes de Elder Camargo, Ouvidinho, Ely Camargo, Bartira, Rita Ludovico e dezenas de outra vozes soam na passarela das igrejas e mosteiros e nos autos do passado. Márcio Alencastro Veiga, ao violão, sola Rio Vermelho e desce da solidão dos morros uma lava boêmia, expelindo chispas de amor contra a fúria das águas profanas que invadem a biquinha sob a ponte. Sus Cristo! Cora arrasta chinelos desabusados no assoalho do medo, levanta muletas sem preconceitos, comanda a torre dos ventos sobre a qual essas águas cavalgam e  toma a bênção das lavadeiras,  na manhã de um novo dia que começa. Goiás ressurgirá purificada e regenerada. Tão linda como em minhas retinas de criança.

           
Santuário seria uma imagem cúltica usada por José Mendonça Teles para a cidade de Cora Coralina e para sua casa (dela) que, como a Arca, guarda tábuas, escritos e documentos seculares da aliança e união entre os goianos, em meio de grandes cerimônias e reformas, como as que presenciamos agora.