Nasceu na cidade de Goiás, no dia 15 de fevereiro de 1928. Filha de Belmiro Spenzieri e Diana Luiza do Couto Spenzieri. Cursou o primário no Grupo Modelo da cidade de Goiás, o secundário no Lyceu de Goiás e de Goiânia e o curso superior na Escola Nacional de Música da Universidade do Brasil, Rio de Janeiro. Publicou inúmeros artigos sobre música, em jornais e revistas especializadas. Pertence à Academia Nacional de Música, Academia Feminina de Letras e Artes do Planalto, Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás, União Brasileira de Escritores de Goiás, Sociedade Brasileira de Musicologia, Sociedade Brasileira de Música Contemporânea, Sociedade de Música Brasileira, Academia Goiana de Letras e ao Instituto Histórico e Geográfico de Goiás. É cronista do jornal O Popular. Obra – A Invenção, histórico, forma e estética, tese de livre docência. Goiânia, 1973; A Música em Goiás, pesquisa histórica. Goiânia: Gráfica Editora Líder/Fundação Cultural de Goiás, 1980; Crônicas e outras Histórias de O Popular, antologia. Goiânia: Gráfica O Popular, 1998.
 

 

O piano de Belkiss e Guarnieri  Fonte:Tribuna do Planalto de  15 de Dezembro de 2007)                                                                           


Por:

João Camargo Neto

Goiás é um Estado rico também culturalmente. Literatura, dança, artes plásticas e música de qualidade têm o seu espaço cativo ao longo do desenvolvimento da nossa terra. Aqui projetaram-se, e projetam-se, expoentes de todos os segmentos. São pessoas que difundem o poder auspicioso da nossa cultura. Por mais que em número sejam menores que os que habitam o Sudeste do País, na importância, não ficam para trás.

Belkiss Spenzieri Carneiro de Mendonça - preferia usar o sobrenome do marido: Carneiro de Mendonça - é um modelo. Um dos principais. Apesar da formação pela Escola Superior de Música da Universidade do Brasil, no Rio de Janeiro, - garantiu uma das dez vagas, entre 120 concorrentes - ela não quis as oportunidades que o eixo dão a mais. Preferiu - e sagrou-se vitoriosa - voltar à terra natal e daqui preservar e cultuar a música brasileira. O retorno a Goiânia foi fundamental para a criação do Conservatório de Música, que tomou corpo e hoje é a Escola de Música da Universidade Federal de Goiás (UFG).

A arte foi um dos genes que compuseram seu DNA. O predominante. Neta de uma das pioneiras da música em Goiás, Nhá nhá do Couto, Belkiss, já aos 12 anos, apresentou-se no Lyceu de Goiânia. Cantou, recitou, tocou violino e, claro, piano. Daí em diante, seguiram-se quase 70 anos de uma vida dedicada especialmente à arte de tocar. Sempre apoiada pela família e pelo esposo, o médico Simão Carneiro de Mendonça, com quem se casou aos 18 anos.

A sinergia entre os dois era tão grande que sua sala de música era no andar inferior da casa enquanto Simão mantinha o escritório do andar superior, no Centro de Goiânia. Viveram juntos até 1983, quando Belkiss teve de abrir mão da companhia do marido. A morte os separou. A família conta que Belkiss não tocou somente na Ásia e na Oceania. Os outros três continentes foram desbravados pela goiana que fez a música de concerto se tornar um dos nossos cartões-postais.

A última viagem foi ao Canadá e à França, em 2005, meses antes de falecer. A convite do então governador Marconi Perillo, Belkiss foi mostrar aos canadenses e aos europeus a qualidade de parte da música produzida em Goiás. "Nunca a vi tão feliz", lembra Simone Carneiro de Mendonça, neta da musicista.

Belkiss Carneiro de Mendonça queria, e planejava, comemorar os 80 anos na Disney. Vítima de um Acidente Vascular Cerebral Isquémico (AVCI), sua vida teve fim aos 77, em 2005, três anos antes de celebrar as oito décadas no paraíso, a princípio, das crianças.
Ela não gostava do uso do termo "erudito". A música que fazia, para ela, era de "concerto". "Belkiss queria que todos se envolvessem com a música e erudito não é acessível a todo mundo", explica Simone Carneiro de Mendonça.

A grande pianista era figura garantida nos eventos sociais e culturais da capital goiana.
"Carinhosa, porém, ponderada. Muito querida. Não parava um minuto". Simone é toda recordações. Fala da avó como quem fala de um grande ídolo. Um exemplo a ser seguido. Uma vida a ser divulgada. Uma história a ser preservada.

Coletânea
Na última semana, a Agência Goiana de Cultura Pedro Ludovico Teixeira (Agepel) lançou uma caixa com três CDs da pianista. O piano de Camargo Guarnieri é o nome da relíquia que reúne 64 composições de Camargo Guarnieri tocadas por Belkiss Carneiro de Mendonça.

Guarnieri, além de professor da Universidade Federal de Goiás, tornou-se amigo da família. Era comum freqüentar a casa da pupila, na companhia da família, para confraternizarem-se em torno do piano.

Nos anos 1960, ele passou a ocupar a cadeira de Música de Câmera no Conservatório de Música da Universidade Federal de Goiás (UFG). Da instituição, recebeu o título de Doutor Honoris Causa, comenda máxima aos expoentes ligados à universidade. Um dos compositores brasileiros mais executados no mundo - tem mais de 700 obras -, Camargo Guarnieri morreu há 14 anos.

A coletânea lançada pela Diretoria de Ações Culturais da Agepel é dividida em três discos: Momentos e Improvisos, A Expressão do Encantamento e Pequenas Jóias Sofisticadas. A caixa, produto do Instituto Casa Brasil de Cultura, é integrante da “Coleção Tonico do Padre”. A seleção não está sendo comercializada. A Agepel confeccionou mil exemplares - cem foram dados à família - e doou parte para bibliotecas, videotecas e museus.