Doracino Naves nasceu em Araguari-MG. Mudou-se para Goiânia em 1958 e nessa cidade foi vereador, na legislatura de 1988-1992. É autor da Lei Nº 7.148, de 4 de dezembro de 1992, que institui o Festival Nacional de Cinema em Goiânia, sancionada pelo então prefeito Nion Albernaz.

Em 1994 e 2008, respectivamente, foi Secretário estadual e Municipal de Cultura, o que demonstra a sua relação de afinidade com o jornalismo cultural brasileiro. É cronista no jornal Diário da Manhã - DM Revista -, escreve aos sábados.

Enquanto vereador, elaborou um projeto de Lei para que todas as construtoras de Goiânia construíssem, na fachada dos prédios, esculturas de artistas goianos. O projeto não foi aprovado.

Recebeu diversas premiações, dentre elas: diploma troféu Tiokô - conferido pela União Brasileira de Escritores - Seção Goiás, em 2009, e Honra ao Mérito - conferido pela Câmara Municipal de Goiânia, em 2012.

Apresentou o programa Raízes Jornalismo Cultural - todos os sábados na PUC-TV; foi editor da Revista Raízes Jornalismo Cultural - nascida da marca Raízes, já consolidada no mercado desde 2007. Desenvolveu um projeto de restauração de nascentes no município de Piracanjuba GO e o reflorestamento de uma área de  48.400 metros (4 hectares) no Sítio Vale das Quimeras, em Piracanjuba. Em dois anos, replantou mais de 2 mil mudas de árvores do Cerrado.

Suas crônicas revelam uma prosa poética, contextualizando, muitas vezes, temas como reminiscências da infância em Porto Barreiros, Araguari e Palmelo; o amor por Goiânia e pela cultura integral; metáforas sobre a morte e dialéticas do existir. Criou o Simão Sem Caráter, um personagem amoral, cômico e, apesar da falha na personalidade, trata-se de um ser humano "bom" por não ser "mau" e vice-versa.

 

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Crônicas Publicadas no Jornal Diário da Manhã - Goiânia:

 

 

Mão-de-onze
 
                                                                                                             
Estranho o truco jogado naquela casa; calado e no escuro. O silêncio  trazia fantasmas para morar na escuridão. Os jogadores continuavam calados, com palavras e gestos medidos. Bem ao contrário da natureza barulhenta e alegre do truco. No centro da sala uma mesa pequena, quadrada, com quatro cadeiras ocupadas por jogadores tensos. Era possível ouvir a respiração dos jogadores enquanto manuseavam as cartas, três em cada mão.
 
                     
Voltou a luz e, com ela, um pouco de entusiasmo. Mas o clima ruim continuava no ar. As paredes enfumaçadas e picumãs pendurados no teto escondiam um segredo. O jogo de truco, por tradição, é feito sem apostas. Mas, neste jogo havia um acordo sinistro.
                     
- É meu o baralho. Dou das cartas!
                     
Cada um examina as suas:
                     
- Eu sou o pé. Então, você que é mão, joga  a sua carta!
                     
Cai um ás de espada na mesa, depois um valete de ouro, um três de paus e, no pé, uma espadilha fecha a primeira mão.
                     
-Primeira feita, Agostinha na garupa.
                   
Começa a segunda rodada. ‘O mão’ retorna a primeira carta e um três de copas roda a mesa até fechar a segunda mão sem truco. A seguir a última rodada da queda. Estava jogo-a- jogo e onze a onze; uma das duplas chegaria aos doze pontos. Pela regra ninguém podia trucar na mão-de-onze. Nessa altura a sorte seria de quem tivesse as maiores cartas ou uma boa psicologia do jogo.
 
                   
Antes de embaralhar os jogadores se levantaram para esticar as pernas. Isoladas, as duas duplas de jogadores tratavam da estratégia final. Depois, sentaram-se.  No truco os parceiros ficam de frente; os adversários, um  à esquerda e o outro à direita. Um deles falou:
                   
- O mundo é chato. Todos os dias é a mesma coisa pra mim. Acordo de madrugada, levanto, bebo café, dou umas voltas, almoço, janto e vou dormir. Nada há de novo. Eu sei que existe gente que acha o contrário. Mas eles encontram motivos para pensar assim, eu não.
                   
- Pois é. Eu também sou desse jeito. Tento não ter inveja de ninguém. Mas não consigo evitar a inveja dos que têm o que fazer. Acordar, trabalhar, ir ao cinema, ao estádio, pescar, enfim, essas coisas que tomam o tempo e levam-nos mais  mansos para a hora do juízo final. Porque dessa ninguém escapa.
                   

Houve um silêncio entre os quatro. Entrou um ar úmido e limpo. Mas parecia que respiravam um ar que não era deles.
                  
- O mundo está cheio de bondade. Mas, ás vezes as nossas preocupações vem nos visitar em momentos de desânimo. É como o nordestino que tem orgulho da sua terra, porém, não gosta de receber visitas no verão, quando tudo está seco.
                 
- É... os três tem razões em pensar assim. Mas, vou lhes confessar uma coisa: estou com medo. Não quero ir agora. Concordamos com a  roleta-russa. Mas, a gente poderia rever os termos da aposta. 
                 
Num canto da sala tinha um revólver com duas balas no tambor. Uma inesperada brisa gelada entrou pela janela, fez tremer os jogadores, e foi expulsa por uma luz sobrenatural que invadiu a sala e aqueceu o ambiente. Um deles quis resistir á proposta. Outro, ligeiro,  retirou as balas da arma e o escondeu da tentação. Todos concordaram com um sorriso aliviado. Novas cartas foram distribuídas.                
                   
Agora, sim, o truco parecia jogo de truco. Um dos jogadores subiu na mesa:
                   
-Truco, papudo!
                   
Outro se levantou e, aos berros, retrucou:
                   
- Toma seis, ladrão dos meus tentos!
                   
Não mais importava quem ganharia a mão-de-onze. A luz traz ânimo para tirar os fantasmas da solidão que mora no escuro da  alma do homem.

 


 

Coração de Boi
 
               

Bem cedo Quintino já estava debaixo do pé de manga coração-de-boi. Na sua mão um canivete de folha larga afiada na pedra de amolar tirada do córrego Botafogo. Pensava: “hoje, passarinho nenhum vai meter o bico na minha manga”. Estava vistosa. Solitária, no galho mais alto, se tingiu de dourado. Manga coração-de-boi que se preza tem cor amarela, vermelha ou laranja. E sem fibras para ser chupada até o caroço. Deu água na boca de Quirino. Só de pensar na doçura da manga ardeu-lhe a caxumba. Viu o alto da mangueira.
 
        
Uma copa enorme projetava sombras  no quintal vizinho separado por  muros de taipa. Embaixo, as folhas formavam um tapete folhado e úmido. Pendurado no pescoço um estilingue feito de borracha de pneus de bicicleta, couro de botina velha e forquilha de amora escolhida a dedo. Levava no bolso bolinhas de vidro para melhor precisão. Despescoçou o estilingue, pôs uma bolinha no couro da atiradeira.
 
        
Forquilha para cima, borracha esticada, arremesso calculado. Pontaria certeira. Bem no talo. A manga rodou no ar e caiu levando tudo que estava embaixo. O som de manga derrubando folhas era peculiar, simbólico da vida de moleque. A  bola perdida caiu, como a folha-seca do meia Didi, justo no telhado da penitenciária de Goiânia, no Bairro Popular. Sem danos. Os ruídos da manga despencando das grimpas, o quicar da bolinha nas telhas, soavam como música aos ouvidos de Quintino.
 
          
Veio com a família para Goiânia num caminhão pau-de-arara fretado na Bahia. Morava na Rua 79, aonde a maioria viera do nordeste. Seu pai, Raimundo, pedreiro em Correntina, trabalhava na construção do Centro Administrativo. Brigou no serviço por causa de marmita. No dia seguinte o outro foi encontrado morto com um furo no peito. Como era o principal acusado, foi preso incomunicável; a família desamparada.
 

         
Sua mãe, lavadeira. Tinha três irmãos mais novos. Mas, faltava o de comer. Ela saía à noite e, às vezes, chegava tarde. Bom que no outro dia havia dinheiro para o pão. Assim, esperavam o pai sair da cadeia. Não conheço nenhuma história de manga caída que demorasse tanto a chegar. 
 
         
A manga, em queda livre, bateu numa caixa de marimbondo-cavalo. Um deles, num vôo rasante, meteu o ferrão na sua orelha. Ardeu igual às tapas do Tião, moleque mais velho da Rua 68. Ouviu um baque fofo de manga caída sobre as folhas. E um grande furo de passarinho na fruta que amadureceu com o seu olhar. Só podia ser coisa de bem-te-vi. Num galho próximo um bem-te-vi parecia zombar do seu destino. O estilingue já estava pronto para atirar. 
 
           
Mirou firme que era bom de tiro. A bolinha bateu no peito amarelo que caiu ao lado da manga coração-de-boi. Suas perninhas, viradas para o céu, tremeram de morte.
 
          
O menino, a manga, o chão, o pássaro. Um soluço sacode os ombros magros, sem camisa, de Quintino. 

 


Imagens de Papel
 
                                                                                                         
Rasgo a memória em busca das imagens guardadas entre os meus papéis. As anotações revelam histórias passadas; não só da minha vida, mas também de outras pessoas ou um acontecimento. Aqui vai uma crônica para celebrar a arte do diálogo e ver a lógica do argumento contrário com bom humor. E aceitá-lo sem evasiva. O armazém do Seu Juca estava instalado num prédio estilo americano, na Vila Nova.
 
                       
Naquela venda não havia preço em coisa alguma. Ali se vendia de tudo: alimentos, ferragens, tecidos, material de construção, chapéus, instrumentos musicais, bijuterias e aviamentos. Era um pegue-pague; tudo ao alcance das mãos. Com uma diferença fundamental: não havia registro do preço de venda. Só havia um código com o  custo dos produtos. Mais tarde descobri que cada letra da palavra ‘pernambuco’ correspondia a um número de zero a dez.  Assim sete era ‘b’. Setenta, portanto, estava escrito com duas letras, b mais o, igual 'bo'. Sem trocadilho.
 
                       
A maioria das vendas era feita fiado.
                       
- Seu Juca, anota na caderneta. Um par de botinas!
                       
Ele anotava o produto sem o preço de venda que era para poder negociar depois. O freguês aceitava as regras da casa; tudo era feito na base da confiança. Fazia parte de um jogo de barganha. No bom estilo de negociar  do povo abrâmico. Ele dizia:
                      
- É fundamental conversar e convencer o outro da nossa razão. Não tenho preços fixos. Tudo pode mudar com uma boa conversa. Se o freguês me convencer da necessidade leva até de graça.
 
                        
Ele dizia que havia falta de diálogo no mundo. E a negociação nos preços era um bom motivo de argumentos com mão e contramão.  Zequinha, um baiano de Ilhéus queria comprar um violão para o seu filho.
                        
- Só pago 40 cruzeiros.
                       
-Não, senhor, é 80 e não se fala mais nisso.
                       
-Seu Juca, meu sonho é comprar um violão para o meu filho. Mas só tenho 40 cruzeiros. Se não quiser o preço que posso pagar não compro nem fiado.
                       
Seu Juca pensou antes de perder a venda.
                       
- Vai, leva o violão para o garoto!                      
                       
Aceitou ganhar pouco naquele produto; menos perder o freguês. Perdia numa mercadoria e ganhava na outra. Cada objeto tinha um preço, dependendo da situação, do comprador e do momento da venda. Assim, seu comércio prosperou. Mas, de vez em quando alguém saía sem comprar nada. Ele perdia o humor quando isso acontecia. Num desses dias entrou na cozinha bravo.
                       
A mulher de Juca passava boa parte do seu tempo cuidando de animais doentes que recolhia na rua. Na cozinha, encontrou a mulher cuidando de duas gatinhas recém-nascidas deixadas na porta do armazém. Perdeu a paciência:
                      
-Quero que você se livre já dessas...
                      
-Delicadamente a mulher disse:
                      
Calma, querido. Não fale bobagens na frente das gatinhas, elas ainda são crianças. 

 


 

Setor Sol
 
                                                                                                                                                             
Hoje fiz uma descontraída caminhada sob o sol do Setor Sul. Fui visitar a biblioteca de um amigo. Ao passar pelas ruas senti umas fisgadas de alerta. Comecei a olhar o outro com boa vontade. Resolvi fazer um teste: sorri e cumprimentei a todos que passaram por mim. Pensei: “um dia, quando o homem for mais cristão, enxergará o próximo com amor”.  A maioria foi receptiva. Poucos foram indiferentes ao meu jeito amigável. Um cara de bigodão passou por mim. Em resposta ao meu cumprimento, sussurrou entre os seus dentes de ouro:
      
                
- Sujeito esquisito.
 
                 
Uma mocinha que ia ao colégio, desconfiada, vendo o meu sorriso de bom-dia mudou de calçada:
 
                 
-Atrevido!
 
                 
Mais a frente, na Rua 104, encontro Ivo, de cabelos brancos azulados como o algodão de Santa Helena. Tinha uma bengala com uma cabeça de cachorro torneada no alto. Respondeu ao meu gesto com atenção. Perguntou se eu tinha visto uma cachorrinha poodle branca. O nome dela é Fofucha. Gastou preciosos minutos falando da sua vida; tinha filhos e netos adolescentes. Contou que se aposentara como professor da Universidade Federal de Goiás onde foi um dos fundadores do curso de jornalismo.
 
                  
- É, meu filho, na minha idade o tempo escoa com uma lentidão excruciante.
 
                 
Vi a luz do dia com outros olhos. A emoção de sentir as pessoas vai comigo, colada à minha pele. O vento me sopra: “fale sobre isso na sua crônica”.  Tomei nota  e continuei andando pelas calçadas desniveladas do Setor Sul.
 
                   
Num banco da viela escondida do Projeto Cura encontrei uma mulher lendo a Bíblia. Assim que começamos a conversar percebi que estava diante de alguém especial. Dona Luzia, esse é o seu nome, foi contando como aprendeu a ler a Bíblia.
 
                   
-Sabe, moço, eu só sei ler a Bíblia. Não sei ler mais nada por que nunca fui á escola. Um dia senti uma dor no peito. Estava só no meu quarto de empregada doméstica. Tive a sensação de morte. Num impulso abri a Bíblia e decifrei um versículo. Chorei muito de emoção e espanto. Recebi um milagre de Deus. Juntei uma palavra à outra e me vi atravessando páginas como se nadasse no rio Vermelho da minha Aruanã.
 
                      
Despedi-me emocionado com a história de Dona Luzia. Dei alguns passos e já estava diante da casa do amigo. O sol do Setor Sul ilumina todos os cantos. O Setor Sul, espichado atrás do Palácio das Esmeraldas,  é onde o sol se mostra por inteiro. Deveria se chamar Setor Sol. Sonho com  um mundo com mais sol que espelhos.
                      
A caminhada me deu ânimo. Fez-me ver no outro a sua grandeza universal e única. Toquei a campainha. Encontrei o amigo que procurava. Estava certo de que teríamos um bom bate-papo.