Nasceu em Guapó, GO, no dia 25 de maio de 1946. Professor Adjunto da Universidade Católica de Goiás. Mestre em Letras e Linguística pela Universidade Federal de Goiás onde, por essa mesma instituição, graduou-se em Letras Vernáculas no ano de 1972. Como profissional das redes de ensino particular e oficial do estado, prestou serviço em estabelecimentos de ensino da capital e do interior. Ex-diretor do Lyceu de Goiânia, Escola de 1º Grau das Obras de São Simão e Escola Estadual de 1º Grau de São Simão. Foi professor do Colégio Objetivo, Ginásio Cultural, Gonçalves Ledo e Colégio Universitário - COLU. Sempre se dedicou ao magistério e à literatura. Mas, como escritor, só publicou sua primeira obra, Detalhes em preto e branco, em 1995. Membro da União Brasileira de Escritores-seção Goiás. Vencedor de vários concursos literários, dentre eles, Bolsa de Publicações “Hugo de Carvalho Ramos” – 1996 e “Cora Coralina”, Categoria Geral – 2004. Detentor do troféu Goyazes: Conto-Bernardo Élis, concedido pela Academia Goiana de Letras – 2008, ano em que tem sua obra O corpo, indicada para os vestibulares da UEG, UCG, UNIEVANGÉLICA E FESURV. É membro da União Brasileira de Escritores de Goiás. Publicou  textos veiculados na imprensa local e participação em antologias.
 

Obras: Detalhes em preto e branco -  Contos  (Goiânia, UCG, l995); A voz dos vivos, prêmio Bolsa de Publicações “Hugo de Carvalho Ramos”, 1996 - Contos (Goiânia, Gazeta, 1997); O conto sociológico urbano - Teoria da Literatura (Goiânia, UCG, l999); Os níveis de análise linguística - obra didática (Goiânia, UCG, 2003); Os riscos da língua - obra didática (Goiânia, UCG, 2003); O corpo, Prêmio Bolsa de Publicações “Cora Coralina” - Contos, 2003 (Goiânia, Agepel, 2004; 2ª Ed. Goiânia: Kelps/UCG, 2008).
 

Contos:

O Baixinho

Amanheceu com cinquenta anos. O revólver embaixo do travesseiro. "Se aparecer alguém eu mato"  - decidiu. Não era mais um Zé Qualquer. Era um sábado. Sol. Raios na janela, invadindo a cama. Era só. Estava só. Lá fora, os carros. Podia sair bestamente, ver pessoas. A velhinha e o seu cãozinho, cianças de bicicleta nas calçadas, pos pombos na praça. Borrando o chão... Ficou em casa. Examinou o olho mágico. Espera. Na sala.

Era ali que ficava sempre. Gostava. Olhou as paredes, o teto, as manchas no chão: uma de café, outra de vinho. Não queria gente. Nem dona Isolina: "Um cafezinhom, seu Oswaldo?". Se aparecesse, levaria tiro também. Velha preguenta. Enrugada, tremelenta.

Queria silêncio. Pensar, lembrar, rememorar. Pouca coisa em cinquenta anos. Confusa, talvez. Um tapa na cara de um "amigo". Páaa... (Tinha um apelido). Um colibri morto com uma pedrada na flor-do-mamoeiro. A pequena ave entre os dedos. Firme. Não chorou. Gato, não escapava: pof... pof... Esbagaçava a cabeça. Lagartixa na cerca: pef. Tremia. Não errava.

Só não resitiu bem, quando o tio sangrou o porco: Quêêê...Quêêê... O sangue jorrando no terreiro. Fogueira de palha em cima, fogaréu tostando a pele, a faca rachando a barriga, riso branco de banha, de uma extremidade a outra. Coração, língua, paquera. Vômito contidos, não conseguiu comer. Ficou na rua até passar a fritura, o cheiro e a covardia.

- Você não comeu?

- Não estou com fome - justificou.

Na cama, à noite, revia as tripas.

Estava ficando um fraco: nem frango, podia ver morrer. As cabeças no ar, olhinhos vivos, a mãe destroncava. Torcia o pescoço, a vida pulava, pulava, pulava, até silenciar as asas, espichar os pés: aquietar. Fazia cocô. Água fervendo, o mergulho da cabeça, com o sorriso da mãe nos lábios. Depenava. A família, fraterna, almoçava. Molho amarelo.

- Você não comeu direito.

- Depois eu como - gugia.

Começou a panhar na rua. O menino beiçudo batia. Escapava pela cerca dos fundos, espremido de espinhos; sujo, chegava em casa.

- E essa roupa rasgada?

- Passei no arame - mentia.

- E o olho inchado?

- Foi marimbondo.

Passava sal. Muitos dias sem sair, com medom, preso no quintal; "passarim" cantando; cavoucava ele a terra escura e fria. Horas riscando o chão. Passava o tempo. Saía. De novo, arranhões, nariz choramingante. O pai esmurrava: " Palerma". Preso no quarto: "Aprender a ser homem". Pequeno. Cada vez menor, crescendo para baixo, cinquenta anos.

Agora já era minúsculo, hominho insignificante. Carinha miúda, riscos de rugas quadriculadas, igual tapiocanga: muitos carocinhos rendados na pela toda. Braços curtos de caricatura, barriga circulante arredondada, pernas finas. Quase um anãozinho, magro nas extremidades. Diminuto. O punhalzinho da cinta não tinha mais. Perdera-se com  as leituras edificantes. Vestia-se de branco. Roupa manchada, de pés sujos. Aos cinquenta anos, virara bola, de novo chutado.

Falavam do seu nariz: cachaporra; falavam dos cabelos, muito brancos: arapuá; da barriga, diziam: pneuzinho. Sem cerimônia, riam. Riam, riam, riam. Depois diziam: Para beijar, só com banquinho, não é? Ou é mais embaixo? Outra vez riam. Lágrimas nos olhos. Descupavam-se Gostamos de você, brincadeira nossa. Falavam. Iam embora. Ficava em casa, no silêncio, só: as risadas pelas paredes, no chão e no teto. Comprou revólver.

Primeiro tiro, dia do aniversário. Assim seria. Impacto no muro. Pedrada no riso. Gozação morta nos dentes arreganhados no caixão. Jornais. Manchetes. Fotografia. Um hominho de nada na primeira página. "Amigo recebido a bala". Foragido. Cara enruguenta no jornal pisado. Bancas de revistas. Pedaço de testa rasgada sobre a mesa de centro da sala de espera. Pessoas se olhando. Luz fosca, artificial, sol brilhando lá fora. Experimenta o gatilho.

Tiros no bolo. Velinhas estilhaçadas, cinquenta faíscas. Espera que alguém, com o baque na porta, chegue. Mira.  Aponta. Um olho fechado, outro aberto. Um minuto, meio, cansa, descansa.  Aceso. A polícia, quem sabe, o vizinho, escondido, chamam. Só o gato assusta, pula o muro, some. Cada vez mais vazio, o silêncio, ninguém.

De outras vezes, a surpres.  Planejaram. Reuniram-se Refrigerante, salgados, cantorias. Assim de repente, não esperava, e chegaram com tudo. Bem que desconfiava. Os chochichos na sala, os risinhos abafados. Tudo se explica com a chegada repentina. Às oito, em ponto, tudo silêncio, na esquina de baixo. "Dali subimos, a campainha toca, o baixinho vem.  Aí todos cantam. O hominho vai assustar".  Todos entram. Várias vezes, a surpresa. Agora, espera.

Em frente, a porta. Sentado. Dedo no gatilho. Como se paca entrasse, por ali adentro, cevada, a isca, aniversário. Aguarda. Calmo e sereno. Ajeita o corpo. Oito horas, imóvel, ninguém.

 

Formigamento


- O próximo - anunciou a recpcionista do Dr. Isaac.


As pessoas se olham sem saber quem é o próximo, mas a dúvida se dissipa em seguida com a chamada pelo nome:

- Miúcha! Quem é Miúcha?
 

-Sou eu, meu bem!
 

-Pode entrar!


Miúcha se levanta com o assombro de todos pela beleza global de sua altura e entra pela porta semi-aberta do consultório. Dr. Isaac, cabeça baixa, examina-lhe a ficha: "Miúcha Miúra, brasileira, goiana, goianiense, 22 anos, Setor Oeste, modelo fotográfico."


- É a primeira vez?
 

- Como assim?
 

- O enjôo... quando começou?
 

- Há um mês mais ou menos...
 

- Desde que você trabalha na Agência?
 

- Há uns dois meses...
 

- Você já tinha sentido essas ânsias de vômitos antes?
 

- Do jeito de agora, não...
 

- Como é o seu trabalho?
 

- Difícil, doutor...muito difícil!
 

- Quantas horas por dia?
 

- Umas doze horas. Entro às dez da manhã e às vezes fico até meia-noite, uma hora...
 

- O que você faz?
 

- Tudo!
 

- Tudo como?
 

- É!...Todo tipo de fotografia...Todo tipo de pose. Nua! ...seminua!... madame... sensual... de todo jeito.
 

- Você fica tensa?
 

- Às vezes..
 

- Sente-se aí! (Indica-lhe uma caminha alta e branca com uma escadinha ao lado)
 

- Tire a blusa (Apalpa-lhe o pulso, mede a pressão)
 

- Deita! (Põe luvas brancas, pressiona a barriga e os seios).
 

- Dói?
 

- Não!
 

- E aqui?
 

- Também não!...
 

- Pode levantar (Senta-se novamente atrás da mesa com tampão de vidro e continua a consulta).
 

- Como são suas fezes?
 

- As minhas fezes?...
 

- É!... Se são amarelas, escuras? ...
 

- Amareladas...Acho que são amareladas... Nunca observei bem...
 

- Suas fezes ficam no fundo ou flutuam no vaso?
 

- Um pouco em cima... e um pouco embaixo... As primeiras que saem ficam em cima...
 

- Têm mau cheiro?
 

- Tem vez que tem... Mas não é sempre não...
 

- À noite, sente uma coceira no ânus?
 

- Outro dia, parece que percebi um formigamentozinho...
 

- Está bem! Faça esses exames, tome o lombrigueiro e volte na próxima semana (Passa-lhe o pedido e a receita, e anuncia para a recepcionista o fim da consulta).
 

- O próximo!
 

- O próximo! - repete a secretária abrindo-lhe a porta. (Ainda no ar, um suave sabor de perfume loiro...

 

(In. Detalhes em |Preto e Branco. Lacordaire Vieira. Goiânia:Editora da UCG, 1995, p.73-75)