Nasceu na cidade de Goiás, no dia 12 de maio de 1932. Filha de Colemar Natal e Silva e Genezy de Castro e Silva. Fez o curso secundário Sacre Coeur de Jesus, Rio de Janeiro. É professora Titular aposentada da UFG. (1962-1991); Graduação: Língua Portuguesa; Pós-graduação-(Mestrado e Doutorado): Estilística. Crítica literária
Formação escolar:
Curso secundário: Colégio Sacré-Coeur de Jesus - Rio de Janeiro
Curso superior: Faculdade de Filosofia Santa Úrsula -Rio de Janeiro.
Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras- UCG - da Universidade de Goiás. Goiânia
Doutorado: Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. USP: Doutorado em Letras Clássicas e Vernáculas. 1972
Titulação:
Doutora em Letras Clássicas e Vernáculas -1972 - pela Universidade de São Paulo.
Professora de Língua Portuguesa e de Estilística nos cursos de graduação em Letras, da UFG - aposentada em 1991.
Professora de Crítica Literária - Crítica Estilística - nos cursos de Mestrado em Letras e Linguística, curso de que foi fundadora e que coordenou por oito anos.
Fundadora e primeira Coordenadora do Centro de Estudos Portugueses da UFG.
Editora da Revista do Mestrado - Signótica - por duas gestões: 1988-1990; 1990-1992.
Produção:
Autora de diversos ensaios críticos, sendo colaboradora assídua das Revistas da UFG, nas áreas de Letras: Cadernos de Pesquisa, Letras em Revista e Signótica. Outras revistas: Revista da Academia Goiana de Letras, Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás, Revista da Academia Pirenopolina de Letras, Artes e Música, Revista da UBE ( GO); Colaboradora de espaços culturais dos Jornais: O Popular e Jornal Opção; Participação em Congressos, Seminários, Fóruns de Cultura; Conferências, Palestras, Comunicações; Membro da Academia Goiana de Letras, ( AGL); da UBE ( União Brasileira de Escritores- Secção de Goiás) ; do; Instituto Histórico e Geográfico de Goiás (IHGG); do Conselho Estadual de Cultura, de Goiânia; Sócia correspondente da Academia Brasileira de Filologia. Rio de Janeiro. (2002); Sócia correspondente da UBE. Do Rio de Janeiro-- 2004
Publicações:
O Processo Sintagmático na Obra Literária. Goiânia: Editora Oriente, 1976 ,(.221 pp.); O Espaço da Crítica- Panorama Atual. Goiânia: Editora da UFG, 1998 ( 381pp; GEN- Um Sopro de Renovação em Goiás: Vozes representativas. I Vol.(1 Prêmio do Concurso de Ensaios Nelly Alves de Almeida).Goiânia: Editora Kelps, 2000, ( p. 157); O Espaço da Crítica II - A crônica-Dimensão Literária e implicações dialéticas. Goiânia: Ed. Kelps, 2002, (p. 293); Moura Lima: A voz pontual da alma tocantinense. Co-edição - Unirg/ Fafich. Gurupi: Editora Cometa- 2003, ( p.121); O Espaço da Crítica III - Goiânia: Editora da UFG-CEGRAF, 2009 ( 455pp); Diálogos Plurais - Goiânia Editora RF 2008; GEN- Um sopro de Renovação em Goiás. Volume II- Goiânia: Kelps, 2009; Novos Ensaios- Vozes em interação. Goiânia: Editora Kelps/UCG, 2010; A Ficção brasileira e a Cultura Árabe- em fase de edição.
Curadoria:
Organizadora e Apresentadora da Coletânea:Realizações e projetos de Colemar Natal e Silva, no Campo da Cultura em Goiás. Goiânia: CEGRAF ( Editora da UFG), 1992, ( 487pp); Organizadora da Coletânea Centenário de Colemar Natal e Silva: 1907 – 2007,. Goiânia: Editora Kelps, 2007 ( 76 pp); Celebração ( org.) Editora da UFG, 2009-
Distinções:
Diploma da União Brasileira de Escritores-UBE--Seçção de Goiás - por contribuição à Cultura Goiana, no ano de 1973. Área de Literatura, categoria especial; Ordem do Mérito em Grau de Comendador, conferido pelo Presidente de Portugal, Dr Mário Soares, por encaminhamento do Sr Primeiro Ministro Cavaco Silva, pela contribuição à divulgação da Língua Portuguesa no Brasil - 12 de junho de 1990; Ordem do Mérito Anhanguera, em grau de Comendador, concedido pelo Sr Governador do Estado de Goiás, Dr Alcides Rodrigues, pelos relevantes serviços prestados ao Estado. ( Governo de Goiás-2007; Diploma de Personalidade Cultural - 1996 - conferido pela União Brasileira de Escritores do Rio de Janeiro; Título de Professora Emérita da Universidade Federal de Goiás, 1997; Medalha Honorífica concedida pela Secretaria Municipal de Cultura, por contribuição à Cultura em Goiás. 03/07/2002.
Prêmios no campo crítico-ensaístico:
Medalha Wendell Santos - na Área de Crítica Literária - conferida pelo Conselho Estadual de Cultura de Goiás, 1996; Prêmio Clara Ramos, conferido pela UBE, do Rio de Janeiro, 1997; Prêmio Tiokô - Área de Crítica Literária -conferido pela UBE, secção de Goiás, 1998; Medalha Alice L. da Silva Lima. Conferida por unanimidade pela UBE do Rio de Janeiro, pelo livro de Ensaios O Espaço da Crítica- Panorama Atual -1999; Primeiro Prêmio da Bolsa de Publicações Nelly Alves de Almeida, 1999, ( Ensaio crítico) pelo livro GEN- Um Sopro de Renovação em Goiás. Patrocinadores: Universidade Salgado de Oliveira; União Brasileira de Escritores- seção de Goiás- Academia Goiana de Letras. (Vol. I); Medalha Tristão de Athayde (Alceu de Amoroso Lima)- conferido pela UBE-RJ, 30/11/2000, pelo livro GEN- Um Sopro de Renovação em Goiás; Prêmio Antonio Olinto, conferido pela UBE-RJ- (2011) pelo livro O Espaço da crítica III. Goiânia: Editora da UFG,( 2009, pp.455).
Crônica:
O Sobrado Rosa da Rua Vinte: Sua Áura
Um título que ressumbra a mistério e magia e cuja referência se justifica no sentido de intensificar o halo desse sobrado que está lá, na esquina das ruas vinte e quinze, rosamento déco, magistralmente soberbo, genuinamente goiano das décadas de trinta e quarenta, registro número um em Cartório da Nova Capital.
Se estudos urbanísticos modernos mostram que a rua é o espaço que complementa o perfil da casa e de seus moradores, ( estilo e atividade sócio-econômico- cultural), não poderia estar melhor instalado que nessa histórica rua vinte, que abrigou número sugestivo de pioneiros da cidade que nascia, saudando em núvens de poeira vermelha, os intrépitos novos bandeirantes.
Sede-lar da família de um deles, testemunha de encontros políticos, sociais, culturais, espaço do embate dos sonhos, e lutas de seus moradores, foi, desde 1937
em primeiro plano, a casa de Colemar Natal e Silva, de sua esposa Genezy de Castro e Silva, de suas quatro filhas Moema, Mariza, Magaly e Marilda e da mãe de Genezy , Tarcila Caiado de Castro.
E esta primeira face marca-lhe um vinco definitivo a formar, pelo menos para mim, o contraponto, em segundo plano, da unidade futura: sede da Academia Goiana de Letras, simbiose de duas imagens consagradoras no meu universo afetivo.
É que o referido sobrado marca, ainda, o tento de ser o primeiro teto próprio da Academia, fundada em 1939, e que ainda não tinha sede própria, aspiração que pôde ser atendida graças à iniciativa do então Presidente da Instituição, escritor José Mendonça Teles, junto ao governador Henrique Santillo, solicitando-lhe a compra e doação daquela casa para a Instituição, casa que, por quarenta anos, fora o lar e a oficina de trabalho do seu fundador: Prof. Colemar Natal e Silva. Prontamente atendido, Mendonça Teles presidiu à inauguração solene da nova sede, que passou a ser designada Casa Colemar Natal e Silva, isto em 24 /8/87 , data natalícia do homenageado, e dela nos aproximamos novamente, agora, constituindo, portanto, duplo marco a ser comemorado.
Assim, a Academia, hoje sob a gestão do presidente, professor e escritor José Fernandes, busca fortalecer seus princípios norteadores de abrigo e oficina cultural, sodalício congraçador, e, o que é importante, também núcleo emissor de atividades estimuladoras da vida intelectual da comunidade com que se propõe manter dinâmica interação.
Neste sentido, trata de incrementar a produção intelectual de seus membros, seja na elaboração de livros, antologias, conferências, ou indicando nomes para participação em Bancas julgadoras de Concursos, ou para representação em Congressos, e, sobretudo, através da colaboração na sua tradicional Revista: Revista da Academia Goiana de Letras, em sua 23 edição, quando, por meio de ensaios, ficcção, poesia, conferências, entrevistas, os acadêmicos revelam sua versatilidade criadora.
Ao ocupar a cadeira n.4, vaga com o falecimento de Colemar, ao adentrar aquele vetusto sobrado, o número 175 de rua vinte, centro, hoje tombado pelo patrimônio Histórico, sobrado tão representativo do estilo déco que marca as históricas construções de Goiânia, já como membro da Academia Goiana de Letras, senti pesar-me, de maneira inequívoca, a interposição das duas imagens que o casarão me desperta. Se a operação se realiza, por vezes, de maneira dramática, para mim, no confronto das imagens de ontem e de hoje, cada vez se torna mais palpável a capacidade de lutarmos pela qualificação de nossas atividades, fazendo da Academia Goiana de Letras, um centro credenciado de realizações culturais, como sempre preconizava seu fundador.
E de lutarmos, também, pelo congraçamento de seus participantes, o que implica no evidente respeito às diferenças de opiniões, alimentado-se a capacidade
de convivência de seus membros, caldeada na sabedoria que todos esperam de nós, o que nos torna reféns de uma aura energizante, ativista e dinamizadora, diferente do que se encontraria em um sodalício de acomodados.
Eu diria, como o escritor Antonio Olinto, da ABL, em seu antológico romance A Casa da Água, o primeiro da trilogia que se completa com O rei de Keto e Trono de vidro, quando, num extraordinário recurso estilístico-- o emprego da apóstrofe, em contextualização inusitada-- dá presença e voz a uma raça, a raça negra que, saindo da África, chega ao Brasil, enriquece-se com o processo de miscigenação, sobretudo na região da Bahia, e volta, depois, para a mãe pátria.
Assim, também, concluiria, parafrasendo o conhecido escritor e dinamizando o meu apelo: Que o sobrado rosa da rua vinte, ó sobrado, possa, pelas gerações vindouras, ser baluarte de uma viva consciência cultural , de uma profunda essência de goianidade, traços que lhe parecem inerentes, na dupla face que ostenta como sede da Academia Goiana de Letras e Casa Colemar Natal e Silva.
Conto:
Laçadas traiçoeiras
Que tempo foi o que passou? O tempo da alma ou o do corpo?
Heitor, sentado á janela de seu escritório, tentava nortear a sua andança mental. Interiorano, chegado à capital para os estudos, e se preparar para o vestibular da vida, não se reconhecia, agora, advogado, profissional competente, dono de seu nariz.
Mas as imagens, ainda que distintas, não se desgarravam totalmente, numa interação perturbadora; um pouco de uma, um pouco de outra. Adolescente, ajudava na labuta da roça; do zelo com o gado ao plantio do canavial.
Ouvia, pelo rádio, notícias de um mundo diferente. Cenas em que o trabalho era o passaporte para o impulso real, para uma vitória que só chegaria com o traquejo em lidar com os embates existenciais e a disposição e habilidade em enfrentá-los
Quando estendia os olhos ao redor de seu mundinho, já se deparava com mostras de rumores maléficos ou benéficos, sem avaliar bem as suas consequências. Por exemplo, vizinho da fazenda de seu pai, onde vivia, morava tio Zé. ( tio pelo lado paterno).
A imensidão de suas terras, glebas promissoras, pastos que verdejavam coalhado de bois o embasbacavam sempre, sem despertar-lhe cobiça, como se fosse natural que o tio Zé se diferenciasse tanto deles. E não era só nos bens. Na maneira de ser, também. Diria, até, no teor da alma.
Coronel traiçoeiro em suas fabulações, diziam as más línguas; implacável com os que habitavam os seus “ quintais”, os espaço que administrava.Recusava-se a acreditar.
Pedro, seu primo, filho do coronel, fora companheiro de suas folganças de meninote e adolescente: roda pequena de amigos. Mas , interessante, não se bicavam. Heitor, tímido, transparente, Pedro escorregadio e dissimulado. Heitor, filho atento com suas obrigações. Pedro, irresponsável.
E o tempo da saudade parava por aí! Lembrava-se, naquele momento, de uma tarde especial, quando margeando o rio em busca de frutas silvestres, um tronco moveu-se à frente deles. Antes que reagisse, seus olhos estupefatos, viram o ondular daquele réptil enorme, já enrodilhado, pronto para o bote fatal.
Num relance, a imagem de seu pai acionou-lhe a reação. Entre as histórias assombrosas, que contava, alimentadas pelo sabor da rude vida sertaneja, e, como dizia ele, como curso para prepará-los- para aquela vida, uma delas, tinha um pormenor que se desenhava vivo em seus pesadelos. Ele dizia: “ filho, vi com meus olhos, o meu “ cumpade” preso nas laçadas mortais de uma sucuri; com a mão livre, conseguiu, graças à sua agilidade, arrancar do galho pendido sobre o rio, aguçada haste, dura e salvadora, e, com ela furar um olho da víbora que, desatinada pela dor, desatou o laço mortal.!...” Eram, assim, suas histórias. Quanta sabedoria, nas armadilhas da vida do campo. “ Causos” infindáveis e cheios de assombramentos!...
Então, o inacreditável aconteceu. O primo Pedro empurrou-o para frente, e fugiu!... O corpo da víbora enrodilhando-se nele, expremeu-lhe as costelas!.. Foi aí que seu pai e suas histórias lhe valeram.
E safou-se da laçada fatal.
“Ah, naquela tarde, senti o bafo da saudade! Sobretudo no dia –a- dia como advogado. Os répteis não eram os mesmos, como as armadilhas não mais tão visíveis, mas sempre traiçoeiras e inesperadas.”
Foi como se sentiu naquela tarde, ao receber o telefonema de seu distante primo Pedro. Por quê, voltava a procurá-lo? Por quê? Pareceu-lhe, suspeito, que o procurasse, depois de tanto tempo, confiado num parentesco que nunca havia funcionado até então.
Apertavam-se as premissas, o caso exigia cautela. Por quê Pedro não abria o jogo? Seria “laranja” de alguma trapalhada qualquer, ou o próprio autor? Bem nos moldes de seu temperamento!
E seus princípios de então renegavam, à primeira vista, os meneios necessários para salvá – lo. Pedro começou a consulta dizendo que lhe pagaria bem, é verdade.
E daí, Heitor? Valeria a pena? E a tática de furar o olhos da fera? E as laçadas?
Tio Zé falecera há pouco. Morte meio cheia de “ assombramentos” e mistérios.
Foi-se tornando claro que seu cliente “forjava” uma herança. Por quê o “ forjar” se era herdeiro direto, o que lhe dava a condição de direito pleno?
Alguma coisa destoava na sequência das investigações... Havia suspeitas no ar. Heitor tentava, sutilmente, penetrar no “ x” da questão, mas seu cliente estava mais ardiloso que o réptil de olho furado.
Por quê se afligia tanto, se já enfrentara, com êxito, tantos casos oblíquos em processos de herança?
- Doutor, meu primo, parece que você não está confiante no meu dizer. Em vista disso, resolvi trazer, ao seu escritório, um dos dois peões de meu pai, de inteira confiança dele, que pode reforçar as situações pendentes presas a uma morte repentina. Combinado?
- Só havia este peão, na fazenda, Pedro.?—
- O que vou trazer é o Ivã, amigo, que morava nas nossas redondezas, antigamente. O outro você não conhece. É novo na região, e muito calado. É o Bastião e não vai colaborar em nada...
A palavra amigo despertou em Heitor os sentidos. Haveria testemunha imparcial em tudo isto? E daí? Quede a tática de furar o olho da fera, ? E desmanchar as laçadas?
E Heitor, diligente, viajou em segredo, até a fazenda. Conversa vai, conversa vem, tardes inteiras, aproveitando a ausência de Pedro que se demorara na cidade. Um dia, véspera de partir, pega Bastião de jeito, mais à vontade, sozinho naquele momento e conduz a conversa de modo sorrateiro. Bastião relata a Heitor, com poucas palavras, é verdade, mas de maneira que lhe pareceu sincera, o que o trouxera ali. Muitas dificuldades de início. Apadrinhado pelo Coronel, casara-se com Joana, mulher astuciosa, mas trabalhadeira é verdade, que no entanto, não tinha muita paciência com as suas indagações. Não gostava de se ver vigiada, dizia ela, quando discutiam, o que era raro, uma vez que não gostava de brigas; só que não se entendia bem nem com Pedro, nem com o outro peão, o Ivã, mau caráter; mas com seu Zé, sim, ele que morrera tão de repente, e mais depressa ainda, enterrado.
Joana, a caseira, no pretexto de servir ao Heitor o cafezinho, muita tímida, a princípio, disse-lhe da esperança de que o advogado pudesse ajudá-los. E Heitor havia notado a preocupação , tanto de Pedro, quando do Ivã, em não contactá-lo com o Bastião, o que o levou a encompridar a conversa com essa mulher, aparentemente simples e que poderia lhe ser útil, no destrinçamento do impasse. Como morrera seu Zé?
No intento de relatar ao advogado seus meios de sustento, revelou-lhe que eram pobres. Trabalharam suado, servindo ao patrão; tinham juntado umas vaquinhas para o leite dos meninos. No sentido ingênuo de valorizar-se, revelou que até era valiosa, na região, com seu trato com as ervas, ensinando aos outros peões os seus segredos. Tanto é que a consultavam em busca de poções, benzeções, e mesmo para preparar veneno capaz de matar bicho danado!..
Veneno!...Heitor sentiu que estava numa trilha promissora!... Uma laçada se armava, Procuraria informações sobre a mulher, hoje pacata mãe de família , mas que fora, há tempos, amante de um dos peões” amigos”, logo o Ivã, o mau caráter, de confiança de Pedro, e, um tanto, de seu Zé, segundo lhe contaram. Intensificou os contactos. A laçada se apertava. Pedro e Ivã se alvoroçavam. Pedro insistia com o Heitor, na rapidez da herança. A mulher se mostrava “ desinquieta”.
Até que Bastião sumiu.
Seu corpo foi achado durinho, à beira do córrego. Como o do coronel, seu Patrão. Heitor sentiu que o tempo de sua alma se fechava. A víbora, novamente, tinha o olho furado.
Grande Hotel, baluarte histórico-cultural de Goiânia
“O pedido de tombamento do Grande Hotel partiu do conselheiro José Mendonça Teles e foi aprovadonas Câmaras do Patrimônio Histórico e Comissão de Legislação e Normas do Conselho Estadual de Cultura, em 25/10/81” (Apud José Mendonça Teles: Em defesa de Goiânia,1988).
Goiânia já é celeiro de passado e de futuro!... Já abriga a história, e já se conscientiza do deslanchar-se para a modernidade!...Parece surpreendente que uma ainda jovem capital - de apenas 72 anos - já tenha a condição de recolher, em seu perfil histórico, a tríade de uma cronologia existencial: passado-presente-futuro; três em um, em montagem cinematográfica, a prever uma caminhada surpreendente. Não seria o espírito do urbanista Atílio Correia Lima, em guarda, a escudar sua obra prima, Goiânia, burilada em estilo art-déco a ensejar um tempo que vai além do cronológico de sua criação, o tempo universal das artes, em geral.
Explico: nas suas ruas, praças, lagos, rios e, sobretudo edifícios e monumentos, tresanda um clima de expectativas urbanísticas, patrimoniais, ecológicas atualizadas, em ritmo de devir, as quais, se ainda nem sempre amadurecidas e valorizadas, provocam a busca da conscientização cívica e cultural. Porque, sabemos, exercitar a memória é dever de cidadania. E o IPHAN, está aí, vigilante; e o IHGG, e a AGEPEL, e a Secretaria Municipal de Cultura, e as Academias de Letras, sobretudo as tradicionais, a saber: Academia Goiana de Letras e Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás, e o CENART, e os Museus, e tantas outras instituições .
Em foco, hoje, o Grande Hotel, figurando entre as principais construções pioneiras desta capital e, agora, revitalizado, em nova estruturação cultural, pelo CENTRO DE MEMÓRIA e REFERÊNCIA do Município.
Inaugurado, oficialmente, em 23/02/37, quando se tornou, à época, o santuário representativo dos contatos da jovem capital com o “ exterior”, a saber, os demais estados da Federação, o Grande Hotel abrigou nomes ilustres, sobretudo quando da realização de congressos, como em 1942- ( batismo cultural de Goiânia); em 1954 ( congresso nacional de intelectuais quando aqui estiveram, entre as celebridades estrangeiras e nacionais, Pablo Neruda, Monteiro Lobato) além de contar, entre seus hóspedes, os engenheiros que aqui vieram para construir Goiânia,em especial, Lúcio Costa e os irmãos Coimbra Bueno, histórico já bastante conhecido.
Presenciou, em seus salões, - como testemunha competente do processo de formação de nossa sociedade - reuniões e festas marcantes segundo nos relata Ofélia Sócrates do Nascimento Monteiro em Como nasceu Goiânia.( São Paulo: Empresa gráfica da “ Revista dos tribunais”, 1938).
É um delícia, para nós, pioneiros, ver os trechos em que a autora desvenda o que de provincianismo e, também de ousadia a prenunciar os novos tempos, se registra no desenrolar de festas como o primeiro carnaval (1936), ou o primeiro Reveillon, no mesmo ano.
Após alguns anos desativado, o Grande Hotel - “um dos mais glamourosos patrimônios em art déco de Goiânia” - reabriu suas portas, fato ocorrido a seis de maio de 2004- ( em sua restauração, foram respeitados os padrões da arquitetura original, como orienta o projeto Cara Limpa, que tem, como meta, revelar a beleza do centro da cidade, segundo nos informa matéria do Diário da manhã, em texto postado por Leandro Coutinho, em 15/03/2007)- com a inauguração da edição Casa Cor Goiás. Depois que a Casa Cor foi encerrada, em 6 de julho, a Prefeitura de Goiânia firmou um convênio com o órgão proprietário do imóvel e lá instalou o CENTRO DE MEMÓRIA E REFERÊNCIA, tendo em vista preservar e possibilitar a pesquisa da história e das produções culturais da capital.
Hoje, sob a dinâmica direção da escritora Márcia Ferreira, este Centro já abriga biblioteca com acervo bibliográfico ainda incipiente, é verdade, aguardando participação e doação de livros de nossos escritores- sala de leitura, já promovendo lançamentos e outras iniciativas culturais.
Tive o prazer, agora, ( 16/03/2007) de rever suas instalações, já por mim conhecidas desde 1935-1936, quando, juntamente com o jurista e historiador Colemar Natal e Silva e a advogada e escritora Genezy de Castro e Silva, meus pais - ele sendo da Comissão de Mudança da nova capital - nós, crianças deslumbradas com o novo ambiente, eu e minha irmã Mariza, fomos hóspedes deste histórico hotel, enquanto aguardávamos providências para liberação do sobrado da rua vinte que nos seria destinado, dentro das exigências impostas pelo Governo aos primeiros pioneiros, futuros proprietários dos poucos imóveis já construídos. Sobre este sobrado – hoje “ Casa Colemar Natal e Silva”, como foi designada a partir de sua inauguração em 1989, comemorando os cinqüenta anos da fundação da referida Instituição - peço licença para transcrever pequeno trecho de minha crônica, reproduzida pela revista da Academia, (revista n. 23, ano 2000 ), já que nosso assunto, hoje diz respeito à memória da jovem cidade. A crônica se intitula: “ O Sobrado rosa da rua vinte: sua aura.”
“Um título que ressumbra a mistério e magia e cuja referência se justifica no sentido de intensificar o halo desse sobrado que está lá, na esquina das ruas vinte e quinze, rosamente déco, magistralmente soberbo, genuinamente goiano das décadas de trinta e quarenta, registro número um em cartório da Nova Capital.
Se estudos urbanísticos modernos mostram que a rua é o espaço que complementa o perfil da casa e de seus moradores, (estilo e atividade sócio- econômico- cultural), não poderia estar melhor instalada que nessa histórica rua vinte, que abrigou número sugestivo de pioneiros da cidade que nascia, saudando, em nuvens de poeira vermelha, os intrépidos novos bandeirantes.”
Voltemos ao Grande Hotel, isto porque encontro grande analogia entre o exposto logo acima, e o enorme prédio, primitivamente também rosa, também de um rosa déco, como já foi dito, pioneiro de nossas primeiras etapas no processo de amadurecimento sócio- político- cultural, dentro dos parâmetros modernos, e situado ali, numa de nossa mais belas avenidas, a avenida Goiás, a que traz o nome do Estado, e ornada pelos rubros flamboyants, a flor que já foi símbolo da cidade, no canto de nossos poetas. Dele, revivi impressões que me bateram forte: ao lado da lembrança de seus salões ( considerados, à época, enormes), a de sua sacada, ( aliás, as sacadas nos prédios pioneiros tiveram seu papel histórico, sendo lugar de onde se presenciava todo o movimento emergente daquela cidade em formação). Dela, quantas vezes, assistiam, impávidas, nossas autoridades, aos desfiles escolares em época de comemorações. Dela, discursaram políticos, no arrebanho das massas. Até ela, subiam os cochichos dos apreciadores das manhãs e das noites, dos negócios ali engatilhados, dos cochichos amorosos, ás vezes sentados em mesinhas de vime, ou mais tarde, ao cair da noitinha, perfilados ao longo do espaço da frente do hotel, ao lados dos namorados, que assistiam pressurosos ao “ footing” de suas belas candidatas.
E é o que, emocionada revivi, lá da sacada, na noite da inauguração da sala de leitura, do Centro de Memória, com noite de autógrafo da poeta e escritora Alice Spíndola, quando, em palanque levantado na calçada do grande Hotel, frente a dezenas de expectadores, sentados em mesinhas estrategicamente colocadas, e que tomavam parte da avenida - naquele momento interditada paraa cerimônia - quando, pois, o grupo musical Alma Brasileira se exibiu, apresentando, com maestria, números do Clube do Choro, com violão, flauta e percussão, sendo, a atração, parte do projeto Grande Hotel Revive o Choro. Também, foi inaugurado um painel de escritores ( pelo que me informaram, cerca de mil nomes, a maior parte recolhida a partir do Dicionário do Escritor Goiano, do poeta, cronista, pesquisador e dicionarista José Mendonça Teles - reedição 2006); escritores que enriquecem nossa literatura.
Portanto, está de parabéns nosso Centro de Memória e Referência, a diretora Márcia Ferreira e sua equipe, o atual Secretário de Cultura do Município, escritor Kleber Adorno, por mais esta iniciativa de incrementar nosso interesse no espaço da cultura.
Se, da sacada histórica, pudemos reviver flashes de um passado que se fez presente, agora, na sala de leitura, preparemos, pela argamassa sólida do saber, os dias futuros da nossa capital, lembrando, aos escritores, poetas, historiadores, que, enriquecendo seu acervo, graça à doação de seus livros, muito contribuiriam para a meta sonhada do crescimento cultural da “ainda jovem” Goiânia.


