Em tempos de e-mails, SMS e WhatsApp, a co­municação por cartas caiu em desuso, porém já foi o meio de encurtar distâncias e expressar sentimentos. Redigir uma carta, enfeitar e até perfumar para depois postá-la via correios, além de ficar aguardando ansiosamente a resposta, era comum antes da era da internet. Assim foi a rotina de He­lena Maria Balbinot Vicari, que começou a se corresponder com Carlos Drummond de Andrade quando tinha 21 anos, em 1961, época em que o poeta tinha 60 anos.

A professora guaporense, que hoje tem 72 anos, foi apresentada aos versos de Drummond por intermédio de Lara de Lemos, poeta e cronista do jornal “Correio do Povo”, que leu para ela o poema “Consolo na praia”. Por sugestão de Lara, Helena comprou um livro do bardo de Itabira.

Depois de se emocionar com os versos, ouviu sua professora de literatura dizer que não gostava da poesia de Drummond. A mestra disse que Cecília Meireles era a grande poeta brasileira e a única que iria “vingar” do movimento modernista (como se poetas diferentes não pudessem conviver no mesmo país). Indignada, decidiu escrever para Drummond, exprimindo sua opinião. Correspon­dente atencioso, Drummond respondeu, em mensagem datada de 16 de junho de 1961. Grato às palavras gentis retribuía a gentileza, enviando, a pedido da leitora, um cartão de visitas autografado.

De tempos em tempos, Helena retomava o contato e sempre recebia resposta. As cartas seguintes já relatavam uma maior aceitação de Drummond na escola (a professora havia mudado de opinião) — graças aos esforços da aluna. “Para um autor de minha geração, é interessante verificar como rapazes e moças aceitam a poesia chamada modernista, que foi tão combatida e mesmo ridicularizada pelos professores de ginásio”, comemorava o poeta em novembro de 1962, ao saber que Helena e os colegas haviam realizado uma dramatização do poema “Noite na repartição”.

No firme propósito de defender Drummond, posteriormente confrontou outra professora que havia exposto em aula o poeta como teatrólogo. “Drummond não é teatrólogo, é poeta.” A mestra insistia que tal informação estava no papel. Numa das cartas, o bardo mineiro esclarece que havia apenas autorizado adaptações de sua obra, mas não era homem de teatro. A resposta, apresentada em sala, deixou a professora impressionada.

Helena enviou suas cartas, por 24 anos, até 1986, um ano antes do falecimento de Drummond. Não se sabe quantas cartas foram enviadas por ela, 63 chegaram como respostas. Foram guardadas numa pasta preta, conservadas como um pequeno tesouro.

Esse material inspirou o filme “O Último Poema”, retratando o universo poético entre a professora gaúcha e o poeta mineiro. O filme capta o conteúdo de várias cartas. O tema é centrado na poesia. Helena, também poeta, escrevia alguns versos para que ele dissesse algo a respeito. O poeta, por sua vez, pontuava que os poemas pequenos, compostos por ela, eram mais interessantes que os longos.

Poesia é o tema recorrente, mas o filme também trata de amizade, gentilezas, demonstrações de afeto, pequenas particularidades tanto da vida de Helena como de Drum­mond, além de acontecimentos familiares importantes da vida dela.

A diretora Mirela Kruel, que ficou sabendo dessa relação poética por meio de uma revista, procurou a correspondente do poeta, nas conversas iniciais, com o objetivo de produzir um curta de 15 minutos, que acabou virando filme — um documentário poético, no qual são recriadas imagens a partir das cartas e poemas de ambos.

A escrita poética de Drummond nas correspondências foi a inspiração para criar cenas imaginadas e revelar a influência do poeta na construção do mundo íntimo da professora gaúcha.

Apesar da troca de correspondência por todos esses anos, eles não chegaram a se conhecer. O encontro foi apenas epistolar, mesmo com duas tentativas de Helena que foi ao Rio de Janeiro e infelizmente não conseguiu encontrá-lo — encontro que a ficção permite.

Copacabana, bairro que Drum­mond escolheu para viver até seu falecimento, em 1987, foi o cenário das passagens em terras cariocas. Helena foi levada até a estátua do Drummond e à Rua Conselheiro Lafaiete (onde o poeta morava). Na casa do poeta, Pedro, neto de Carlos Drummond, é quem a recebe. Ele também é o responsável pela confecção do cartaz do filme.

O próprio Pedro autoriza a diretora a localizar as cartas enviadas por Helena, no acervo da Fundação Rui Barbosa, no qual estão catalogadas as correspondências, inclusive as trocadas com os escritores Mário de Andrade e Cyro dos Anjos, além é claro das não menos importantes, trocadas com Helena. Mas o foco foram as cartas enviadas por ele.

Sem as cartas enviadas por Helena a Drummond, a diretora pede que a professora reescreva, e Helena acaba revivendo e podendo também recriar sua história — um componente interessante para o documentário —, no qual se perde o limite entre o real e o fictício.

“Anoitecer”, poema de Carlos Drummond de Andrade, foi transformado em canção pelo músico e compositor paulista Zé Miguel Wisnik. A música e seus acordes são o tema do universo de Helena Maria no documentário.

O filme tem um viés pedagógico, intelectual e histórico, sem ambição das grandes bilheterias, voltado para exibição em universidades e escolas, além da televisão e algumas salas de cinema dirigidas ao público cult. A estreia está prevista para o final do mês de março.

Artigo publicado originalmente no Jornal Opção.