Muitos pesquisadores da historiografia brasileira, em relação às Academias de Letras, tem escrito pouca coisa sobre elas. Talvez muitos até as desconheçam. Resolvi, nesta edição de Opinião Geral, abordar o assunto e o faço discorrendo para os leitores o que sei sobre as mais antigas fundadas em nosso País, a partir de 1724 e, para tal mister, pesquisei o tanto quanto pude. Então, inicio como se deu a fundação da primeira delas – a Academia Brasílica dos Esquecidos. Sua criação foi o resultado indireto de uma carta do Rei D. João V (1689 – 1750) ao Vice-Rei do Brasil Vasco Fernandes César de Meneses (1673 – 1746). Nesta missiva, o monarca deu uma ordem para que o mandatário português no Brasil providenciasse a escolha entre os dignitários da Igreja Romana (bispos, cônegos, monsenhores, padres etc), com a finalidade de investigar tudo que fosse possível sobre a história brasileira, na conformidade com a memória da Academia Real da História Portuguesa, que lhe foi remetida com a sobredita carta. Assim, o monarca desejava que referida Academia não fosse formada por qualquer outra pessoa não religiosa, à exceção, feita aos oficiais das Câmaras para prestarem toda colaboração, tudo de acordo com o que constava na mencionada memória. Aliás, isto era de se esperar, porquanto, sabe-se que o soberano foi um grande beato e seu reinado foi o que mais surrupiou as riquezas do Brasil. Tomando as devidas providências, em cumprimento às reais ordens, no mês de fevereiro de 1725, o Conde de Vila Maior, Fernando Teles da Silva, e 2º Marquês de Alegrete (1662 – 1731), Ministro e Embaixador do Rei, dirigiu-se a Vasco Fernandes para comunicar-lhe que estava começando a cumprir as ordens conducentes à criação da Academia, segundo o modelo da Academia Real, antes referida. Entretanto, o Vice-Rei, Cesar de Meneses, apesar da diligência prometida ao Conde, não atendeu à ordem real na forma como foi prescrita. Quase dois anos depois, reuniu pessoas importantes da Capital, Salvador (Bahia), inclusive, religiosos e fundou a Academia Brasílica dos Esquecidos. A resolução de instituir uma academia na Bahia foi, como se viu, somente do Vice-Rei, que é chamado pelos que a compuseram como sendo um homem ilustre pelas armas e pelas ideias louváveis de tornar conhecidos os talentos da Bahia, até então obscuros por falta de “exercícios literários”. Houve toda uma simbologia pela qual concretizaram a ideia inicial de Vasco Fernandes Cesar de Meneses. Queria ele, na verdade, fazer algo em contrapartida à criação da Academia Real de História Portuguesa, inspirado na ordem do Rei, mas que não foi de encontro, totalmente, à intenção do monarca. O melhor resultado da Academia Brasílica dos Esquecidos foi a História da America Portuguesa, de Sebastião da Rocha Pita, obra concluída em 1724. Barroco, como era de se esperar, deve-se a Rocha Pita, o título de “pai da história nacional”. Não posso deixar de, às rápidas, citar aqui a biografia de Sebastião da Rocha Pita (1660 – 1738), nascido em Salvador – Bahia. Foi historiador e um grande pesquisador. Escreveu odes, hinos, cânticos, sonetos, éclogas e um romance em castelhano. Fez seus estudos na Universidade de Coimbra, em Portugal. Membro da Academia de História de Portugal e, como disse, da Academia Brasílica dos Esquecidos. Seu livro História da América Portuguesa, escrita em Portugal, conta a historiografia desde o ano de 1500, data do descobrimento do Brasil, até 1724. Convém salientar, por oportuno, que seu estilo é marcantemente gongórico, elegante e preciso. A última sessão dos “Esquecidos”, deu-se em Salvador, tendo participado dela, o padre Gonçalo Soares de França, o desembargador Caetano de Brito e Figueiredo, o coronel Sebastião da Rocha Pita, o capitão João de Brito e Lima, o juiz de fora, Dr. Inácio Barbosa Machado e, ainda, o cidadão José da Cunha Cardoso. Lembre-se, ainda, que os acadêmicos escolheram o “sol com letra” (sol oriens in occidus). Os arcádicos dessa primeira Academia se reuniram por dezoito vezes com o intuito de ouvir conferências eruditas e sonetos. Tomaram os pseudônimos seguintes: Obsequioso (o padre Gonçalo), Nubiloso (o desembargador Caetano), Vago (Rocha Pita), Laborioso (o juiz de fora Inácio Barbosa), Infeliz (Brito de Lima), Venturoso (Cunha Cardoso), Ocupado (Luís de Siqueira). Esta última reunião ocorreu em 1725, na cidade de Salvador. Sabe-se que o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro possui os códices manuscritos que contém os trabalhos dessa efêmera Academia. Após a curta existência da Academia Brasília dos Esquecidos, apareceu no Rio de Janeiro a Academia dos Felizes, que foi fundada no Rio de Janeiro, em 6 de maio de 1736, pelo governador Gomes Freire de Andrade (1557 – 1817). Reuniu-se no palácio de José da Silva Pais, estando ausente Gomes Freire de Andrade. Seu emblema: Hércules afugentanto com a clava o ócio. Sua divisa: Ignavia fugando et fugienda. Teve como fundador-presidente: Dr. Matheus Saraiva, formado em medicina em Lisboa, onde se casou com uma brasileira do Rio de Janeiro. Veio ao Brasil em 1713. Conta-se que essa sociedade desapareceu em 28 de fevereiro de 1740. Foi fundada no Palácio do Governador do Rio de Janeiro, Brigadeiro José da Silva Pais. Compunha-se de trinta sócios e se ocupava de “assuntos vários, assim heróicos como líricos”. Em Salvador, na Bahia, realizou-se a sessão preparatória para formação da Academia Brasílica dos Renascidos, em 1759. Ela nasceu da iniciativa que tomou o Dr. José Mascarenhas Pacheco Pereira Coelho de Melo, que, naquela época, ocupava o cargo de Conselheiro do Ultramar. Para a concretização dessa Academia, buscou o Conselheiro reunir expoentes do gênero literário, alguns membros sobreviventes da finada Academia dos Esquecidos. Dessas Academias, a dos Renascidos, foi a mais fecunda delas, tendo realizado as primeiras reuniões na casa do fundador e seu primeiro diretor. Organizados os seus estatutos, foram eles postos em execução até que o Rei de Portugal concedesse o placet (cumpra-se). Esse sodalício era composto, ao que me parece, do que mais distinto houvesse no universo literário de Salvador e arredores. A padroeira da instituição, o que não ocorre hoje, foi a Virgem da Conceição, isto, segundo diziam, era para proteger o Rei D. José e como Mecenas, o falado Marques de Pombal. O dístico da associação tinha uma fênix de olhos postos para o céu com a seguinte frase latina Multiplicabo dies. Era bem organizada: tinha selo particular adaptável para os despachos, concedia diplomas etc. A mesma fênix, por si mesma imortal e renascida das próprias cinzas, possuía ainda a inscrição Ut vivam. Dos textos literários nela elaborados, lidos e discutidos, resultaram obras memoráveis, que publicadas honram, sobremaneira, nossa civilização da segunda metade do século XVIII. A Academia Brasílica dos Acadêmicos Renascidos, indubitavelmente, foi o maior projeto cultural e político iniciado pelos brasileiros no período colonial. É importante constatar, a propósito, que na Academia dos Renascidos estiveram homens importantes como Cláudio Manuel da Costa e Rodrigo de Seixas Brandão, este último da família da esposa de Tomás Antônio Gonzaga, partícipes da Inconfidência Mineira. A título de complementação publicarei, em síntese, a biografia de Cláudio Manuel da Costa. Nasceu em 1729 e morreu em 1789, em Ribeirão do Carmo, próximo a Mariana – Minas Gerais. Era poeta – o maior representante do arcadismo no Brasil – pertenceu, como frisei acima, à Academia Brasileira dos Renascidos e à Arcádia Ultramarina, com o pseudônimo de Glaucester Saturno. Estudou Direito em Coimbra, viajando depois para a Itália, onde, em contato com poetas e intelectuais, aprimorou os seus conhecimentos, passando a escrever sonetos e cantatas em italiano. Retornou a Portugal, de onde partiu para o Brasil, fixando-se em Vila Rica, como advogado, e, aí, tornou-se cada vez mais conhecido e admirado. Quando irrompeu o movimento da Inconfidência Mineira, do qual fazia parte, Cláudio Manuel da Costa foi preso e encarcerado. Não resistindo aos sofrimentos da prisão, enforcou-se. Um dos grandes poetas do Brasil, considerado por Camilo maior que Bocage. Seus sonetos – verdadeiras jóias da literatura brasileira – podem ser comparados aos de Camões. Escreveu: Vila Rica, Epicédio, Labirinto de Amor, Números Harmônicos, Memórias Sobre a Literatura Antiga e Moderna, Cartas Chilenas etc. Vou, agora, discorrer sobre a Academia dos Seletos, fundada no Rio de Janeiro (RJ), nos fins de 1751 ou princípios de 1752, para celebrar a grande figura que foi Gomes Freire de Andrade, Conde de Bobadela, sendo seu inspirador Feliciano Joaquim de Sousa Nunes, autor dos Discursos políticos e morais. A esta sociedade deve-se a instituição da primeira tipografia que houve no Brasil. Entretanto, durou pouco porque, cumprindo ordens do governo de Portugal, foi destruída e queimada para que não se editassem obras literárias no Brasil – Colônia.  A única seção que realizou foi a 30 de janeiro de 1752, em louvor de Gomes Freire de Andrade que acabava de ser elevado ao posto de Mestre de Campo Geral. Foram, na oportunidade, lidas as produções do secretário Manuel Tavares de Siqueira e Sá, tão longas que cansaram a todos os presentes. Entre elas mencionam-se dois sonetos em vernáculo e dois romances líricos em castelhano de Angela do Amaral Rangel, poetisa cega de nascença, natural do Rio de Janeiro. A seção gerou relatório volumoso que foi publicado em Lisboa, em 1754, com o nome de Júbilos da América. Um simples menino de 12 anos que ali os escutava era José Basilio da Gama (1740 – 1795), poeta luso-brasileiro que escrevia sob o pseudônimo Termindo Sipílio. Celebre por seu poema épico O Uraguai, de 1769, e investido como patrono da cadeira 4 da Academia Brasileira de Letras. Por derradeiro, dou a conhecer, também sinteticamente, a biografia de Gomes Freire de Andrade, fidalgo português, governador e capitão-geral do Rio de Janeiro, governador das capitanias de Minas Gerais e São Paulo, ligado a Goiás, que trouxe ao Brasil o concurso de sua capacidade administrativa, sendo lembrado com admiração e respeito pelos brasileiros. Criou no Rio de Janeiro a primeira oficina tipográfica, erigiu o aqueduto da Carioca, fontes, conventos e outros monumentos públicos.