Fonte: Revista Bula

Uma reflexão crítica sobre a história da literatura, as grandes façanhas editoriais e as dúvidas suscitadas sobre a autoria de textos e livros precursores.

Deparei-me com um pequeno ar­­tigo que despertou o meu interesse. Ao lê-lo, vieram-me à mente títulos de livros, nomes de  autores e algumas reminiscências de longa data. Resolvi trazê-las à luz. Mas antes, comecemos com o artigo que, para os  aficionados por livros antigos, poderá ser de bom paladar.

Foi vendido o mais antigo livro da Europa. Foi este o título do pequeno texto que, resumidamente, dizia:  a Biblioteca Nacional da Grã-Bretanha comprou, por 11 milhões de euros (cerca de 27,5 milhões de reais), o  “São Cuthbert Gospel”, o livro mais antigo da Europa. Trata-se do Evangelho de São João, um manuscrito em latim,  que encontrava-se em poder da Ordem Jesuíta Bri­tânica. A obra, com 9,6 x 13,6 cm, é encadernada em couro vermelho e data da época de Cuthbert de Lin­disfarne (Cutberto, mon­ge e  bispo inglês) que morreu em 687. O livro foi en­contrado em seu sarcófago no ano de 1104. Segundo a British Library “trata-se de um dos livros mais importantes da bibliografia mundial”.

Da cultura egípcia, conservaram-se documentos feitos em papiro que da­tam de 4 mil anos a.C., isso graças ao clima seco e propício da região do Nilo. O que impressiona no “São Cuthbert Gos­pel” é o fato da obra ter sido conservada 417 anos num sarcófago da Europa Central, com um clima bem adverso ao do Egito.

Lembrei-me, então, de outro episódio. Nove anos antes do achado do “São Cuthbert Gospel” houve um acontecimento de grande repercussão histórica sobre o qual, para mim, sempre pairou um manto de dúvidas. Trata-se do sermão (há fontes que falam discurso) proferido em 27 de novembro do ano de 1095 pelo papa Urbano II, cujo papado começou em 1088 e durou até 1099. Convém vasculhar um pouco no baú da história daqueles tempos: durante 300 anos Jerusalém era uma cidade cristã sob controle de Bizâncio. Em 637 a Terra Santa caiu, pela primeira vez, em poder islâmico. Até o século 10, os califas abássidas não criaram nenhum transtorno aos peregrinos do Ocidente em seu caminho à Terra Santa. Esta situação mudou em 1077 quando hordas turcas (os seldschukas) se apoderaram de quase toda a Ásia Menor e interromperam o caminho dos peregrinos cristãos à Terra Santa.

Foi nesta altura dos acontecimentos que o papa Urbano II convenceu-se da necessidade das cruzadas. No décimo dia do Concílio de Clermont-Ferrand, em 27 de no­vembro de 1095,  Urbano II proferiu um  célebre sermão conclamando  imperadores, reis e príncipes da Europa a aderirem à ideia das cruzadas, que teve origem na Espanha mas que frutificou dentro dos muros da abadia de Cluny, da or­dem beneditina, na Região de Bor­gonha, na França. A abadia de Cluny foi, no início da Idade Média, o maior e o mais influente centro espiritual e religioso da Europa. A ideia era livrar a Terra Santa do domínio islâmico.

O  anúncio do sermão do papa Urbano II, que foi monge na abadia de Cluny, despertou grande interesse e, de antemão, concluiu-se que a igreja de Clermont-Ferrand não comportaria o grande número de ouvintes. Resolveu-se  realizar a cerimônia ao ar livre, num campo, nos arredores de Clermont-Ferrand. Está historicamente comprovado que Urbano II realmente proferiu um sermão, ao ar livre, nas imediações de Clermont-Ferrand,  em 27 de novembro de 1095.

Está comprovado também que o papa falou de improviso. Urbano II veio sem sermão preparado e curiosamente o sermão sobreviveu aos tempos e chegou até aos nossos dias sem que houvesse um documento escrito. Mais curioso é o fato de que pode-se encontrá-lo em livros como “Discursos que Emo­cionaram o Mundo” ou “Os 100 Melhores Discursos da Hu­ma­nidade” ou “Os Melhores Dis­cur­sos Desde o Princípio da Idade Média”. Tenho três versões do sermão que variam em conteúdo e tamanho. Sempre me preocupou, e eis aí a minha dúvida,  a questão, como é que o sermão perdurou durante um milênio sem que Urbano II tivesse deixado um documento escrito?

O discurso pronunciado por Urbano II foi reescrito, após a sua morte em 1099,  durante as décadas seguintes por, no mínimo, cinco cronistas, quatro dos quais são conhecidos: Balderich de Dol, Fulcher de Chartres, Robert de Reims e Guilbert de Nogent. Como é possível alguém reescrever um sermão exatamente como o que foi proferido,  baseado em narrações de outros? Consequentemente o sermão de Urbano II, nas versões como as conhecemos hoje, e que  fazem parte dos anais históricos, só podem ser  reproduções (invenções) mal feitas de um original que, em verdade,  nunca existiu. O sermão de Urbano II não deixou de ter a sua repercussão: deu início à Pri­meira Cruzada. O resto deste sombrio período é conhecido.

Além deste assunto duvidoso de um período sinistro da Idade Média, lembrei-me de outro ocorrido no século 18. O francês-suíço Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), escritor, pedagogo, filósofo, naturalista e compositor, foi autodidata em quase tudo que aprendeu. Quanto a isso nada se pode objetar, ao contrário, merece admiração. Rousseau foi um dos mais influentes filósofos do Iluminismo e um dos mais importantes precursores espirituais da Revolução Francesa. Tenho, no entanto, uma grande dúvida com respeito ao seu “Emile”, um tratado pedagógico que foi livro orientativo educacional durante quase três séculos. Muitos mestres da psicologia e da pedagogia que viveram depois de Rousseau, estudaram o seu “Emile” e dele  tiraram suas  teorias e conclusões educativas. A pergunta que sempre me preocupou: como foi possível que Jean-Jacques Rousseau conseguisse escrever um livro pedagógico sem nunca ter tido experiência prática em matéria de educação? Rousseau nunca esteve defronte de uma classe de aula, nunca discutiu com alunos. Não teve nem experiência educacional com os seus próprios filhos, que foram cinco, todos fruto de um relacionamento com uma de suas concubinas. Rousseau não teve a mínima experiência educacional familiar, pois deu os cinco filhos à adoção logo nos primeiros dias após os nascimentos. Mas Rousseau é autor de “Emile”.

A fim de ficar numa sequência cronológica, ocorreu-me algo de outro autor que é mestre em matéria de complexidade: James Joyce, com o seus “Ulisses” e “Finnegans Wa­ke”, o suplício dos tradutores. As mencionadas obras foram traduzidas dezenas de vezes em várias línguas e sempre aparecem editores que duvidam dessas traduções e sugerem novas traduções. Uma editora de Munique encarregou não um tradutor, mas uma equipe de tradutores para que elaborasse nova versão, mais apurada, sobre o complexo e artificial linguajar de Joyce. Há 21 anos esta equipe começou o trabalho e até hoje não chegou ao fim. Na Floresta Negra, no sul da Alemanha, vive um estudioso da obra de Joyce que se propôs a elaborar uma nova tradução do “Ulisses”. Já faz 37 anos e ainda não concluiu.

Sempre que encontro alguém que me diz ter lido o “Ulisses”, minha reação é a mesma: incredulidade. Começo a olhar o sujeito de esguelha e quando pergunto: “E você entendeu?” Se responder afirmativamente, mudo de conversa!

O problema de Joyce é o seu complexo vocabulário. Ele poderia ter redigido “Ulisses” e “Finnegans Wake” de forma mais simples, mais elegante, como Ernest Hemingway,  Stefan Zweig,  Joseph Roth, Machado de Assis, Fernando Pessoa, Gógol, Stendhal, Somerset Maugham e outros tantos deste calibre. Há  estudiosos que acham que a complexidade  é  sinônimo de erudição.

Acrescido a sua complexidade linguística James Joyce ainda se destaca por outros atributos:  o seu descaramento, a
sua insolência, como em um de seus famosos aforismos: “A única exigência que faço aos meus leitores é que devem dedicar as suas vidas à leitura de minhas obras”. Sinto dor no estômago! Quanto à complexidade de seus textos, pessoalmente prefiro seguir o valioso conselho de Gabriel García Márquez que recomenda: “Não force o leitor a ler uma frase novamente para compreender o seu sentido”. Obrigado Gabo. Pena que Joyce já se encontrava no outro mundo quando você divulgou a sua sábia recomendação.

Sempre tive uma predileção especial pela literatura russa: Dostoiévski, Gógol, Sholokov, Ievtuchenko, Tolstói, Púchkin, Tchekhov, Brodsky, Soljenitsin e Pasternak. Devorei todos e, entre esses, Boris Pasternak (1890-1960) também é personagem deste en­saio. Com “Doutor Jivago” Boris Pas­ternak tornou-se conhecido internacionalmente. Convém, à título de pano de fundo, esmiuçar um pouco na biografia deste grande intelectual.

Nasceu em Moscou, filho de uma casal judeu, cresceu dentro de um ambiente familiar altamente intelectual. O pai, Leonid, era professor de arte na Academia de Pintura, em Moscou; a mãe, Rosa Kaufmann, uma célebre pianista. A casa dos Pasternak era ponto de encontro de artistas, músicos, compositores, escritores e demais representantes da intelectualidade russa. Assim, o jovem Boris conheceu Tolstói, que era amigo de seu pai. Várias obras de Tolstói, publicadas na Rússia, foram ilustradas por Leonid. Aos 13 anos conheceu o compositor Alexander Scriabin, foi sob sua influência que Boris começou a interessar-se por música. Estudou piano, teoria musical e composição. Data de 1909 sua primeira composição, uma sonata para piano. Cursou o ginásio alemão em Moscou e em seguida matriculou-se na universidade onde estudou filosofia. Resolveu continuar com os estudos de filosofia em Marburg, na Alemanha, que era, à época, a mais conhecida universidade alemã na Rússia. Em Marburg dedicou-se à filosofia neo-kantiana. Durante esse período fez várias viagens à Suíça e à Itália. Foi em Marburg que resolveu abandonar a filosofia e dedicar-se à poesia e à literatura. Data dessa época uma de suas conhecidas frases:  “Na minha opinião a Filosofia deveria ser um condimento da vida e da arte. Quem se dedica unicamente à Filosofia se parece ao indivíduo que só se alimenta de rábano”.

Regressou à Moscou e começou a publicar poesias, contos e as primeiras obras. Uma deficiência na perna, isentou-o da participação na 1ª Guerra Mundial. Em vez disso, foi obrigado prestar serviços numa fábrica de produtos químicos na região do Ural. Terminada a 1ª Guerra Mundial, Pasternak publicou várias obras. Com “Além das Barreiras” tornou-se respeitado nos círculos literários de seu país. Em 1921 seus pais emigraram para a Alemanha.

A situação mudou a partir de 1930 quando suas obras não mais puderam ser publicadas por não serem compatíveis com o realismo socialista. Para sobreviver começou a traduzir obras do alemão, do inglês e do francês para o russo. Sua tradução do “Fausto”, de Goethe, o­bras de Rilke e Kleist são famosas; do inglês traduziu as tragédias de Shakespeare e outros autores.

Paralelamente Pasternak escrevia. Escrevia às escondidas e guardava seus manuscritos em um baú, assim como o fizeram Isaac New­ton e Fernando Pessoa. Desi­ludido, resignado, era vítima de  frequentes fases depressivas. 

No início de 1954, um ano após a morte de Stálin, Pasternak, depois de longo silêncio, publica algumas poesias no jornal “Snamja”. Trata-se de poesias que planejara incluir no apêndice de “Doutor Jivago” que terminaria em 1955. Terminada a obra Pasternak envia uma cópia do manuscrito à Goslitistad, a editora oficial do Império Soviético, que decidia sobre toda e qualquer publicação. Ao mesmo tempo Pasternak envia cópias ao suplemento literário do jornal “Novi Mir”, de Moscou, a editoras em Praga e na Polônia. Passado mais de um ano, sem resposta, Pasternak convenceu-se  de que a obra nunca seria publicada na União Soviética. Desesperado, resolveu distribuir, clandestinamente, cópias de seu manuscrito em círculos literários em Moscou, São Pe­tersburgo, Je­katerinburgo e outras cidades.

Foi nesse momento que, por um desses acasos do destino e por uma dessas admiráveis coincidências,  Pasternak cruzou-se com um personagem que marcaria profundamente sua vida. O personagem, membro de uma das famílias mais ricas do país e uma das mais brilhantes e controversas personalidades italianas pós 2ª Guerra Mundial era Giangiacomo Feltrinelli. Um ho­mem altamente intelectualizado, uma mistura entre editor, bon vivant, excêntrico, milionário, comunista e, provavelmente, terrorista.

Na época desses acontecimentos, início da década de 1950, Feltrinelli já fundara a editora Giangiacomo Feltrinelli Editore de Milão, uma das mais respeitáveis editoras europeias. Politicamente, Giangiacomo Feltri­nelli era membro ativo do Partido Comunista Italiano (PCI).

Em 1955 Feltrinelli foi contatado por um seu amigo Sergio D’An­gelo, que também era membro ativo do PCI. Sergio D’Angelo revelou-lhe que iria a Moscou a fim de trabalhar, como redator do partido,  na Rádio Moscou, a voz soviética em todas as línguas. D’Angelo chegou a Moscou em março de 1956 e, passadas algumas semanas, ouviu rumores de que o “Doutor Jivago”, de Pasternak, estaria prestes a ser lançado em Moscou. D’Angelo achou por bem passar esta informação imediatamente a Feltrinelli em Milão. A reação de Feltrinelli foi imediata: “Trate de contatar o autor imediatamente e diga-lhe que temos interesse na obra”.

Dias depois, Sergio D’Angelo encontrou Pasternak em Pere­djelkino, uma colônia de escritores e intelectuais, onde costumava passar os fins de semana, nos arredores de Moscou. Falou-lhe de Feltrinelli e de seu interesse na obra. Nessa altura Pasternak ainda estava à espera de resposta da editora soviética, da de Praga e da Polônia e, como nada recebera, concordou em ceder um exemplar de seu manuscrito à Feltrinelli. Em tom irônico Pasternak diz a D’Angelo: “Já agora o convido para assistir a minha execução!”

A partir desse momento, todas as medidas, todos os passos forçosamente tinham que ser feitos em segredo a fim de não pôr em perigo a vida Pasternak. Entre Feltrinelli e Pasternak desenvolveu-se uma impressionante troca de correspondência. As cartas sempre chegavam ao destino, às mãos do destinatário, por canais  incógnitos.

Em data e hora combinadas, Giangiacomo Feltrinelli encontra-se em Berlim onde recebe pessoalmente, das mãos de Sergio D’Angelo, uma embalagem com uma cópia do manuscrito de Pasternak. Ao regressar a Milão encontra-se com o renomado eslavista Pietro Zvete­re­mich, a quem pede uma leitura e opinião. Passados alguns dias, Zvete­remich deixa um bilhete no gabinete de Feltrinelli: “Não publicar esta obra é um crime contra a cultura”.

Feltrinelli, em Milão, não tinha certeza se os rumores que circulavam em Moscou acerca da eventual publicação do “Doutor Jivago” tinha fundo verídico e D’Angelo, em Moscou, não tinha condições de obter informações. Para Feltrinelli este detalhe era de suma importância pois tinha a ver com os direitos autorais. A União Soviética não tinha assinado o Acordo de Berna que regula o assunto internacionalmente e, consequentemente, a situação para Feltrinelli e para Pasternak se apresentava da seguinte forma: se um editor europeu ou americano lançasse “Doutor Jivago” dentro de 30 dias após o lançamento na União Soviética, este editor  teria os direitos autorais para o resto do mundo pois, segundo o Acordo de Berna, esta edição seria vista como a primeira edição. Para Feltrinelli, que queria os direitos, começou uma corrida contra o tempo, pois traduzir, revisar e lançar uma obra do fôlego de “Doutor Jivago” dentro de 30 dias era um trabalho quase impossível.

Enquanto isso, o KGB, o serviço secreto da União Soviética, estava completamente inteirado sobre os contatos entre Pasternak e Feltrinelli. O chefe do KGB informou à cúpula da União Soviética. Léonid Brejnev e Nikita Kruchev estavam totalmente inteirados. O KGB chama Pas­ternak, falam-lhe da possibilidade de publicar a obra sob a condição de que a reescreva. Pas­ternak  recusa-se. Ameaçam prendê-lo. Pasternak continua firme e procura estender o diálogo com o KGB pois sabe que, com isso, Fel­trinelli ganharia tempo.  Em verdade ganhou tempo e uma série de problemas, pois o KGB entrara em contato com a cúpula do Partido Comunista Italiano cujos líderes também pressionam Fel­trinelli. O KGB  tenta de tudo para evitar o lançamento da obra no exterior e pede que Feltrinelli devolva o manuscrito em seu poder. Em vão. Feltrinelli não se deixou pressionar e publica a obra. O lançamento foi em 27 de novembro de 1957 em Milão numa edição inicial de 12 mil exemplares que foram rapidamente vendidas. Sucederam-se diversas novas  edições e traduções em várias  línguas. Em 1958 Boris Pasternak é agraciado com o Prêmio Nobel de Literatura. Começa uma virulenta campanha contra o autor na Rússia. A Associação dos Escritores pede o seu degredo. O governo soviético proíbe-lhe de viajar e de receber o prêmio em Estocolmo e propõe-lhe duas alternativas: receber o prêmio e deixar a União Soviética com perda da cidadania russa ou recusá-lo e permanecer na Rússia. Pasternak recusa o prêmio, decide-se pela pátria e morre em 30 de maio de 1960. Em 1989, passados 29 a­nos, em uma cerimônia especial post mortem em Estocolmo, seu filho Jewgeni recebe o prêmio em nome do pai.

O encontro de D’Angelo com Pasternak nos arredores de Moscou desencadeou a mais espetacular atividade editorial do século 20. A tenacidade de Giangiacomo Fel­trinelli e o Nobel concedido a Pasternak foi um dos grandes vexames que a União Soviética sofreu fora da Cortina de Ferro.

Recordo-me de uma célebre  fotografia que, na época, correu mundo: mostra o então vice-presidente do Conselho de Ministros  da União Soviética, Anastas Mi­kojan,  em viagem aos Estados Unidos, em 1958. Na foto vê-se o representante do Kremlin defronte da vitrine da maior livraria de Nova York. A vitrine está repleta de livros, curiosamente  todos com o mesmo título: “Doutor Jivago”. Um paparazzi captou a cena. Em seu semblante estampa-se todo o vexame pela qual passou a União Soviética.

Em 14 de março de 1972 foi encontrado o corpo de um homem ao pé de uma torre de alta tensão nas proximidades de Milão. Até hoje não se sabe as causas da morte. Foi um descuido que fez explodir a bomba antes do tempo ou foi um atentado da direita?  O morto  era  Giangiacomo Feltrinelli que, nos últimos anos, tinha desaparecido na clandestinidade. A lista de autores cujas obras Feltrinelli lançou é gigante. Foi ele também que trouxe de Cuba a célebre fotografia de Che Guevara feita pelo fotógrafo Albert Korda. Feltrinelli recortou a imagem de Guevara de uma foto de grupo, ampliou-a. A imagem resultante de Guevara tornou-se uma das fotografias mais divulgadas da história e serviu de símbolo mundial para os movimentos estudantis de 1968.

Carlo Feltrinelli,  filho de  Gian­gia­como Feltrinelli, escreveu uma brilhante biografia sobre o pai. O enredo começa com a família dos avós e termina com a morte do pai, Giangiacomo, na torre de alta tensão nas proximidades de Milão. A obra, cujo título original é “Senior Ser­vice”, foi publicada pela Gia­n­giacomo Feltrinelli Editore de Milão, em 1999. O livro impressiona pela inclusão de uma quantidade de textos de cartas trocadas entre Fel­trinelli e Pasternak. São cartas muito pessoais, que chegam a emocionar por sua franqueza e sinceridade, redigidas num estilo respeitoso e convincente. Os adjetivos são usados sem exagero, delicadamente, num linguajar que só os grandes espíritos são capazes de criar.  “Senior Service” é um relato histórico, altamente informativo, profundamente humano, de agradável e inesquecível leitura. Além disso a obra contém textos do KGB com  detalhes que revelam como o “grande irmão” acompanhava os trâmites dos dois intelectuais que conseguiram realizar a maior façanha editorial do século vinte.

A profunda amizade entre o editor Giangiacomo Feltrinelli e o autor Boris Pasternak ficou restrita ao papel. Os dois homens nunca se encontraram em vida. Muitos admiradores de Feltrinelli não conseguem entender a razão pela qual o multimilionário capitalista foi se enveredar pelas águas lodosas do comunismo.

Outro autor russo, Mikhail Sho­lokov, que recebeu o prêmio Nobel em 1965, teve mais sorte. Pôde viajar a Estocolmo e receber o prêmio que, na época, não era tão grande como hoje. Sholokov recebeu 282 mil coroas suecas. Nor­malmente o valor do prêmio é pago com cheque ou transferência bancária. Sholokov refutou ambas e fez questão de receber o valor em espécie, “cash”, em inglês. Refutou também a coroa sueca. Pediu que o valor fosse em rubros. O ato da entrega foi flagrado por um fotógrafo e mostra o diretor do Banco Sueco, Erik Thum­holm, entregando pessoalmente um monte de cédulas ao laureado Mikhail Sholokov que, a partir de então, foi o primeiro capitalista em seu país, após a Revolução de Outubro de 1917.

Este ensaio, até aqui, mais parece uma conversa com o leitor. Encaixa-se  bem a menção de outro autor que merece respeito em virtude de um insucesso. Impressionante é o resultado desse insucesso. Refiro-me ao sueco Stieg Larsson (1954-2004), cujo nome verdadeiro é Karl Stig-Erland Larsson. Trocou o Stig por Stieg, pois havia um cineasta sueco com o nome de Stig Larsson.

A vida de Larsson não foi fácil. Passou por calamidades que começaram em tenra idade. Após os estudos básicos resolveu estudar jornalismo. Ao fazer a inscrição, em 1972, os candidatos eram obrigados a entregar um texto redigido de próprio punho. Larsson  entregou o texto e ficou aguardando. Passadas algumas semanas, Larsson  recebeu uma carta da comissão da Academia Sueca de Jornalismo que  lhe comunicara  que “não poderia estudar jornalismo por carecer de qualidades redacionais”.

Stieg Larsson “deu a volta por cima” e, mesmo não tendo “qualidades redacionais”, começou a escrever. Publicou uma série de livros, ensaios e críticas. Fundou a revista “Expo”, cujo objetivo é o combate a todas as formas de racismo, e se tornou uma das maiores autoridades sobre o tema no mundo.

Morreu cedo, em 2004, aos 50 anos. Após a sua morte, foi publicada a trilogia “Millennium”, que já vendeu mais de 65 milhões de exemplares. Para alguém que, comprovadamente, não tinha “qualidades redacionais” tal su­cesso é muito mais do que uma vitória que não pode ser descrita em palavras.

A carta que Larsson recebera da Comissão Acadêmica foi en­contrada em seu acervo. No verso da carta Stieg Larsson desenhou, a lápis, a fisionomia de um homem. Não se sabe quem é. Em princípios deste ano, os familiares resolveram leiloar o documento na Sotheby’s, de Londres, juntamente com um volume de uma edição especial da trilogia  “Millennium”. O valor arrecadado foi de 8 mil libras. O dinheiro será investido na revista “Expo”, que continua sendo administrada pelos familiares. Aos mais jovens, que eventualmente me lerem, recomendo: “se alguém lhe disser que você não tem talento, não acredite. Siga em frente”.

Falta mencionar o leitor que aparece no título deste ensaio. É um indivíduo que conheço apenas de leve. Nem sei o que faz. Na última vez que o encontrei, em meados do ano passado, comentou:

— Não sei o que é a Teoria da Relatividade. Já consultei várias pessoas e não encontrei ninguém que me soubesse explicar. Mas lhe prometo, vou tratar de descobrir.

Despedimo-nos. Reencontrei-o há poucos dias. Perguntei:

—  E a Teoria?
— Pois é, disse-me ele, já li muita coisa a respeito. Onze livros.
—  E você já entendeu?
— Falando a verdade, ainda não, mas já posso explicá-la... Se o senhor quiser?

Reagi semelhante ao cachorro de Pavlov. Num reflexo condicionado, olhei-o de esguelha. Lem­brei-me então do “Ulisses” e mudei de assunto!