
Por volta do meio dia começou a chegar gente na Fazenda Sangra-d’água, provinda das redondezas, de povoados vizinhos e até da distante Meia Ponte. Mas foi pelo fim da tarde que o fluxo de carroças, charretes, carretões e cavalos engarrafou o pátio frontispício da casa-grande.
Os recém-chegados apeavam silentes, chapéu na mão, paravam defronte ao local da morte trágica do peão Alípio para uma jaculatória e seguiam rumo ao casarão. Dali a pouco já se espalhavam pelos bancos de vinhático da varanda, degustavam as sucessivas rodadas de café e bolo de mandioca ou fubá que as mucamas serviam, enquanto aguardavam a chegada do coronel Rivalino.
Quanto mais gente aparecia, mais aumentava o diz-que-diz-que sobre a estranha e repentina doença de Sinhá Lúcia, tão jovem e cheia de vida, há uma semana com vômitos incessantes, pupilas dilatadas e espuma pela boca, sem sequer conseguir se levantar do leito. Alimentava-se apenas com um copo de leite, a pobrezinha, e assim mesmo por insistência, quase ordem do marido.
Ao entrar de repente na varanda, padre Cesário, que viera de Meia Ponte ministrar a extrema unção, pôs de pé todos os presentes, na grande maioria homens, e sumiu em um dos longos corredores. Mas quando voltaram a se sentar, renasceu o zum-zum. Dizia aquela gente desocupada que o coronel Rivalino andava desesperado por conta do fim prematuro da esposa, bonita e tão jovem, que mal entrara na casa dos vinte. Casara a doente com um viúvo de quase setenta, com oito filhos do primeiro casamento. Mas a coitada nem chegara a ter cria, dado o pouco tempo da união.
Quando padre Cesário terminou o ofício religioso e se despediu para sair, o coronel pediu que o boticário, que estivera ao lado da moribunda nos dias de sua enfermidade, a combinar formulas e porções ineficazes, pediu que também ele se retirasse.
O sol já amarelava o horizonte e vaticinava o ocaso do dia, emoldurado pelo janelão de duas folhas que deixava entrar a brisa perfumada do cerrado.
Quando finalmente se viram a sós, Sinhá Lúcia virou os pálidos olhos em direção ao marido, numa súplica à sua aproximação. Ele obedeceu, sentou-se na cama, limpou a espuma branca dos lábios dela, alisou-lhe o cabelo e tentou esboçar um sorriso. Sinhá murmurou algo tão imperceptível que o marido teve que quase se lhe colar o ouvido à boca para compreender:
─ Tenho uma confissão, meu marido.
─ Nenhuma confissão é mais necessária.
─ É preciso para que eu descanse em paz.
─ Não se preocupe, agora nada mais importa.
─ Meu fim está próximo, não é?
─ Não se aflija, querida esposa.
─ Não é?
─ Infelizmente.
Ela principiou um acesso de tosse rouca, vomitou, estrebuchou como se fosse morrer, porém subitamente recobrou os sentidos, e a cor pálida substituiu o roxo asfixiante.
─ Minha confissão está ligada ao suicídio do peão Alípio ─ continuou ela.
─ Alípio não se suicidou ─ falou ele tranquilamente.
Ela o fitou com olhos de indagação:
─ Como não?!
─ Meu capataz o pendurou na trava do mourão da casa da moenda.
─ Por quê?!
─ Assuntos domésticos ─ limitou-se o coronel.
─ Deus!
─ Agora descanse, vou chamar uma criada para limpar vassuncê.
Antes que o coronel se movesse, a mão de Lúcia o deteve.
─ Eu o traí com Alípio e quero seu perdão.
─ Nada há que perdoar.
─ Preciso do seu perdão para descansar em paz.
Ele então suspirou fundo, olhou para o céu além da janela e respondeu sem emoção na voz:
─ Eu já sabia.
─ Quê?!
O esforço do susto pareceu consumir as forças restantes da enferma, pois seus olhos começaram a se apagar aos poucos, o que forçou o coronel a dizer num murmúrio final:
─ Por isso temperei seu leite todos os dias com pequena quantidade de arsênico. Inclusive hoje pela manhã. - Passou-lhe a mão com carinho no rosto e falou-lhe ao pé do ouvido num quase murmúrio: - Descanse em paz, minha querida esposa.
Lúcia ainda tentou gritar mas não tinha mais voz; e a imagem distante dos morros arredondados na moldura da janela, banhados pelo sangue do poente, apagou-se aos poucos até ser solvida pelo breu da noite eterna.
O coronel Rivalino vestiu seu casaco de luto e apareceu aos visitantes que o aguardavam na varanda do casarão; falou:
─ Sou viúvo de novo.
Adriano César Curado: É filho de Luiz César da Trindade Curado e de Adelaide Marta de Pina Curado, nasceu em Anápolis, Goiás, em 03 de setembro de 1968. Escreveu "Paixão de Caboclo" (Contos, Editora Kelps, 1999) em coautoria com Luís Eduardo Barros Ferreira; "Travessia" (Novela, Agepel/IGL, Prêmio Bolsa de Publicações Cora Coralina, 2001); 'Almas Gêmeas" (Poesia, Editora UCG, Coleção Goiânia em Prosa e Verso, 2007), em parceria com Thais Valle. Tornou-se bacharel em Direito pela Faculdade de Direito de Anápolis em 1994 e concluiu sua pós-graduação em Direito Civil, em 2000, pela Associação Educativa Evangélica, em Anápolis. Nos anos da década de 1990, publicou contos e poemas no jornal cultural Nova Era (Pirenópolis) e na Revista da Aplam; e 2007 participou da antologia “Anápolis Centenária” (Kelps, 2007, organização de Natalina Fernandes) em comemoração ao centenário da cidade de Anápolis. É membro da Aplam (Academia Pirenopolina de Letras, Artes e Música), da Soap (Sociedade dos Amigos de Pirenópolis) e da ULA (União Literária Anapolina). É verbete do Dicionário Biobibliográfico Regional do Brasil, de Mário Ribeiro Martins, via Internet, dentro de “ensaio”, no site usina das letras ; e do Dicionário do Escritor Goiano, de José Mendonça Teles (Kelps, 2ª edição, 2008).
Contatos pelo e-mail czarcurado@yahoo.com.br.


