Não havia maior prazer no mundo do que retirar a liberdade de alguém, desavisado pelo cotidiano e envolto em afazeres costumeiros. Assim pensava Plínio, um inveterado investigador; exímio na arte de solucionar a autoria de crimes ainda insuspeitos. Geralmente procurava aqueles momentos que causassem maior impacto ao preso, quando imerso no envolvimento com seus convivas, ou embalado num festejo familiar. Era um regozijo quando detinha outrem prestes a garfar um garboso quitute, isto de se impedir que o detento tivesse uma especial refeição, tipo prato favorito. Em troca, receberia uma gororoba emplastada numa marmita fria e tardia, quando o indigente já estivesse enclausurado. A notícia de prisão, que muda a calmaria dos momentos, numa efervescência de sentidos e pensamentos, era clímax do êxtase de Plínio, que se prolongava pelo trajeto, até o barulho de um cadeado, trancando na jaula outro indivíduo: menos um animal solto no mundo!

Plínio assegurava aos colegas de profissão que tirar um vagabundo de sua modorra tradicional aprazia grande satisfação pessoal. Inclusive “mais do que as volúpias de uma libido sentida com esforço para ser exaurida num cuspe”. Aquela sensação de dever cumprido, de conter um rato das sombras de suas nojeiras. O fato de não haver suficiente cuidado, superlotação em presídios, da escola de crimes que são as instituições penitenciárias, da exposição ao perigo de violação física, sexual, mental etc, tudo isso é um problema do Estado. Não havia nada no mundo (ou somente uma única coisa!) que superasse a beleza de se ver um enojo a mais no xilindró, maturando a paciência por não ver os sóis dos dias nascendo redondo como a abóboda celestial. É a velha lição de crime e castigo. Se há culpa ou não, também é um problema pessoal do detento em cativeiro. Ver aqueles seres miseráveis se gladiando, ingerindo restos de comidas com salitre, promiscuindo as vísceras alheias aos seus mundos violentos, são mais do que provas de que esses abomináveis homens das celas deveriam mesmo é ficar trancafiados em grossas e fortes jaulas de segurança máxima.

O que superava a beleza de se trancar o famigerado bandido na cadeia era a faxina executada de vez em quando na sociedade. Limpar a comunidade é o que se entendia por eliminar a presença desagradável de vermes que perambulam travestidos de seres humanos. É riscar o nome de qualquer ordinário da lista dos vivos, aumentando as certidões de óbito, dando paletós de madeira, fazendo-os comer o capim pela raiz, clarear suas peles imundas na moda caveira –, se agora ficou claro. Um meliante, um pedinte, um traficante, um assassino, um cafetão, um assaltante, um avião, um estuprador, um ladrão, um estelionatário etc. No geral, é mais fácil limpar a cidade na calada da noite, onde os vampiros criminosos saem com mais facilidade; excluídos dormem nas praças e marginais batem ponto nas bocas violentas de fumo. Sem testemunhas para estancar o prurido da limpeza ética (e não étnica), o trabalho é feito com dose de adrenalina para sacrificar aquelas vidinhas mixurucas ao bem-estar da sociedade. Nos dias hodiernos o cidadão de bem se tranca em face dos marginais soltos por aí. Nada mais nobre do que extinguir alguns delinquentes para o bem do povo e manutenção da tranquilidade social. Para isso, é necessário ter pulso e boa mira, posto que as baratas costumam ser ágeis quando percebem a proximidade da chinelada. Agora sim, depois da faxina social, não há nada mais prazeroso do que prender uma pessoa nos calabouços da lei. Por questão de ordem, eis a sina de Plínio, o exímio.

Foi numa dessas madrugadas frias, que Plínio chegou subitamente num boteco imundo e retirou de uma das cadeiras sujas o Chimba, articulador do crime naquela grande zona urbana, olheiro de meliantes e informante sem querer. Chimba estava numa mesa porca, bebendo uma cana barata em companhia de uma mulher igualmente barata. Plínio convidou Chimba a acompanhá-lo, à força dos costumes, a entrar naquela viatura descaracterizada. Quando a mulherzinha estufou o busto, mostrando aquele asco de decote, soerguendo o nariz, abrindo a boca fétida – com falhas dentárias nos molares – e principiou uma fala irritante, desconexa, com a voz rouca e embriagada, antes mesmo que aquelas palavras se tornassem frase de afronta ou escândalo, Plínio deu uma palmada que estralou a face da dita, tendo ficado com mais um buraco no molar vizinho. A mulher desmaiou no chão e Chimba foi chuchado no porta-malas da viatura, que é para dar mais emoção e clima na abordagem. Como o dono do bar continuou a esfregar um pano imundo naqueles copos repugnantes, e não esboçou qualquer reação de impacto por aquela barata desdentada desmaiada no chão, Plínio foi embora não sem antes rasgar aquele tecido pobre e descobrir as vergonhas daquela que não tinha.

 Plínio andou bastante rápido, fez curvas bruscas e freou muito, sem necessidade. Tudo para aclimatar a emoção do passageiro Chimba. O investigador parou a viatura num breu sinistro. Era um matagal sobrenatural que margeava um rio numa área conhecida por desovas de corpos não celestiais, que ficava numa espécie de zona rural encrustada na cidade. Chimba foi posto de joelhos, na beira daquela margem que engolia cadáveres de toda espécie. Plínio disse que iria empalá-lo como um picolé exposto para congelar na noite e derreter no dia. Que se fosse falar, que falasse logo para poupar o trabalho de cortar um cabo de guatambu  por ali. “Então, o papagaio vai ou não abrir o bico?”, disse Plínio. A essa pergunta todos os gatos são pardos, e todos os gatos conscientes tornam-se papagaios, para que um futuro voo fosse possível. Não precisava nem daquele carinho na barriga e daquela massagem lombar para que Chimba falasse que naquela mesma noite o traficante Doca seria fuzilado em sua residência, junto ao seu guarda-costas. Plínio perdeu a paciência, pois sabia que ele seria morto. Ele deixou que acontecesse, pois teria menos faxina a fazer futuramente. “Não vim saber quem vai morrer, quero saber quem vai matar!” Antes que mais afagos de Plínio se tornassem insuportáveis, Chimba encurtou o assunto e com a voz fraca e sem ar, juntou as forças para responder: “Duílio, do morro americano”. Plínio bateu palmas e concluiu que um aviãozinho “quer ser o novo dono da frota e dos aeroportos!” Despediu-se de Chimba com mais um gesto nobre para que ele respondesse mais rápido na próxima vez.

 Como é relativa a questão do domicílio, no quesito inviolável, Plínio se viu em pleno vigor do exercício investigatório. Entrou na casa de Duílio sem que ninguém percebesse, usando de artimanhas que aprendeu no curso de chaveiro. Ali sim foi uma profissão que abriu muitas portas! Lanchou com excesso o alimento nobre daquela geladeira. Com direito a iogurtes com pedaços de frutas e leites fermentados para regular a flora intestinal. Pizza congelada, sorvete de passas ao rum e maçã verde. Uma boa dose de whisky escocês, com azeitona, queijo e amêndoa torrada. Coisa nobre. Sentou na poltrona de couro reclinável e ficou a vasculhar aquelas revistas de cultura inútil. Mulheres seminuas, fofocas fabricadas e resumos de novelas, com conteúdo espoliador. Plínio usou aquele vaso sanitário luxuoso demais para um aviãozinho em acensão. Tirou a roupa e entrou na banheira de hidromassagem, rompendo quase todas as bolinhas espumantes daqueles sais de banho. Largou a toalha molhada no piso e a fez de tapete. Vestiu sua roupa e deitou-se no sofá próximo daquela cama king size (tamanho de rei – o rei das drogas). Já era noite quando Duílio entrou em sua casa, acompanhado de uma sirigaita daquelas sebosas que resvalam seus corpos para obter luxos de traficantes. Vinham os dois da porta da sala, eufóricos, com suas narinas arrebentadas pela poeira branca que lhes convulsionava a repentes de alucinante agitação. Deixaram rastros de vestimentas pelo corredor. Ao chegar no quarto, Plínio exaltou sua adrenalina para que perdurasse o momento da segunda melhor coisa do mundo. Que a prisão de Duílio fosse efetuada instantes antes dele encostar o membro fálico asqueroso naquela umazinha, interrompendo o início daquele êxtase, o momento em que principiaria a cópula ordinária, embalada pelas drogas.

E assim o fez, estragando o prazer. Plínio acionou o interruptor da luz e gritou “polícia, o cacete!”. Os dois saltaram em tremeliques cambaleantes e se toparam de cheio até cair no chão. Se houve alguma ereção antes, certamente foi abruptamente cortada, recolhendo de sopetão com a vergonha e o susto. Plínio algemou Duílio com a rapidez de uma laçada de peão. A mulher entortou a boca, colocou o dedo em riste, instigando futura ameaça e esboçou fazer escândalo. Antes que viesse um chilique e, diante daquele dedinho indicador mirando Plínio, ele fez questão de anestesiar aquela figura à moda arcaica: martelou um soco pilão no meio da cabeça, que, se não fosse o pescoço, teria afundado no peito. O desmaio foi instantâneo. Duílio foi colocado do jeito que veio ao mundo no porta-malas e a moça amarrada de cócoras, com a metade do corpo para fora da janela, como se fosse uma torta, esperando a futura luz do sol fazer crescer e bronzear aquelas partes pudicas.

Plínio levou Duílio até seu lugar favorito: aquele mesmo matagal sobrenatural. Aquele alvorecer do dia, deixou os primeiros raios solares da aurora um ambiente fantasmagórico em antagônicos jogos de luz, sombra e neblina. Duílio tentou correr, mas uma rasteira o fez cair numa poça barrenta do brejo. Plínio substituiu as algemas por uma corda fortemente amarrada nos punhos. Quando gritou por socorro, Plínio calou sua voz com um soco na boca do estômago e para arrematar o silêncio, um chute certeiro no saco exposto. Já estava próximo ao rio, quando Plínio perguntou se tinha alguma bobagem a dizer. Duílio não conseguia falar nenhuma palavra. Plínio ergueu o dedo aos lábios e pediu silêncio, pois o que tinha a falar era mais importante: “estou fazendo um tremendo bem para a sociedade, que estará mais segura sem você. Além disso, vou economizar dinheiro do Estado, pagando promotores, juízes, policiais, defensores etc para trabalhar por anos num processo contra você; custeando sua estadia e alimento na prisão, até sair de lá pior do que agora. Outra coisa, Duílio... Escute isso. Os jornais precisam ser alimentados com notícias. Você ficará famoso e vai aparecer nos jornais! Eu poderia dizer muito mais, mas sua cabecinha sem cultura e cheia de merdas e substâncias tóxicas... não iria entender. São muitos mil reais em troca de seis reais, que são o custo destas 03 balas de 38 que você vai me custar agora!” Ao longe se ouviu uma sequência de três estampidos, como se alguém tivesse comemorado alguma bobagem estourando um foguete de três tiros.

O rio sugou mais um corpo. Passarinhos se assustaram em revoada. Uma garça distante veio se alimentar de um peixe nas águas rasas. Um bem-te-vi cantou o testemunho daquela cena. O jornal Opinião – informação com precisão –, recebeu uma notícia anônima de que o corpo de um grande traficante tinha sido jogado naquele rio. Repórteres levaram aquela notícia para que a delegacia de homicídios apurasse o caso. Plínio foi designado para investigar o traficante do morro americano morto com três tiros na cabeça. Em cinco dias Plínio relatou o caso para a delegacia, que, por sua vez, apresentou para a imprensa em audiência coletiva. “O traficante Doca havia sido morto por Duílio, o novo dono do tráfico no morro americano. Em represália, Juba, que integrava a gangue de Doca, sequestrou Duílio na sua residência e o levou para as margens do Rio das Almas. Juba amarrou o corpo nú da vítima Duílio, que teria sido agredido na região abdominal e na bolsa escrotal. Juba deu três tiros em Duílio. A única testemunha do fato era uma mulher conhecida por Tekinha, dançarina de funk, que também foi morta no dia seguinte com o mesmo revólver calibre 38 de Juca. Tekinha foi encontrada pelo investigador Plínio ainda com vida, quando Tekinha falou informalmente que Juca era mesmo o autor do sequestro ocorrido naquele dia. Juca foi encontrado morto na madrugada de hoje. A polícia suspeita suicídio, pois não havia sinais de arrombamento ou impressões digitais diferentes de Juca em sua residência. Juca havia abusado de alta dose de cocaína e crack, instantes antes de ter atirado contra a própria cabeça. A perícia confirmou a compatibilidade das balas das três mortes (Duílio, Tekinha e Juca) com a arma encontrada com Juca. Os quatro eram envolvidos com o narcotráfico e tinham passagens na polícia. A estimativa é de que quase 70% dos homicídios em nossa região tenham ligação direta com o mundo das drogas. Jornal Opinião. Cinquenta anos levando a verdade das notícias até você!”