Venho da resistência sertaneja; como as orquídeas, de um tronco rude; da pequena casa de pau-a-pique, tapera, construída em Poço da Pedra, próxima de Lagoa Alegre, distrito de Casa Nova, Bahia, no mais puro sertão, onde fui forjado no campo e na roça, caçando, plantando e colhendo; onde um pé de macambira é para o matuto sequioso um copo d’água cristalina e pura; onde os cactos são fontes vegetais; onde o xiquexique, o mandacaru, o juazeiro, o caroá, a bromélia, a vereda sertaneja e o umbuzeiro – árvore sagrada do sertão – formam a belíssima paisagem da caatinga xerófita, o mato esbranquiçado da acepção tupi. Venho, portanto, desse cenário de vida bucólica e romântica, deixando-me uma configuração física, humana e social consagrada pelo livro “Os Sertões”, de Euclides da Cunha, obra, a um só tempo, de ciência, de arte, cuja leitura imprescindível me impressionou profundamente me tornando um habitante incurável do sertão onde a mancha da maldade não conseguiu chegar e a ingenuidade nunca deixou de ser honradez, revelando, assim, duas virtudes que considero básicas: a bondade, sempre grande; e a grandeza, sempre boa. Venho, pois, desses contrastes e desse chão, tendo como um dos “endereços” étnicos a pertinência do meu pai, Mariano José dos Santos, de quem continuo sentindo a mais imorredoura das saudades, sobremodo por não ter tido a alegria de conhecê-lo e receber sua benção; nem fotografia, tive o prazer de ver, notando-se que só a partir de certa idade tomei conhecimento de sua vida alegre e festiva, destacada pela dança e a cantoria na animação das festas sertanejas; vitima, contudo, da violência e brutalidade do regime autoritário implantado por Getúlio Dornelles Vargas, ironicamente chamado “Estado Novo” (1937-1945). Dele trago o meu lado pataxó, o meu pedaço africano e o meu “interiorzão” piauiense-baiano, que me comovem, inclusive porque o cangaço e o fanatismo dos sertanejos, segundo o sociólogo Rui Facó, “eram formas de reação aguda e legitima contra a injusta e desumana estrutura social vigente e não simples exteriorizações criminosas ou meros aspectos da baixa heresia”, como tem narrado a história oficial.

Conforme me informa a minha mãe, Maria Isabel Silva, mulher simples, estimada, extremamente vaidosa e respeitada como a moça mais elegante e bonita de sua redondeza sertaneja, que, com maestria, dignidade, bravura e amor, soube criar e conduzir seis filhos naquela região das revoluções libertárias de que fala o poeta Manoel Bandeira em seu poema “Evocação do Recife”; nascida no mais remoto sertão de Poço da Pedra, em 1906, vizinhança de Lagoa Alegre, meu pai, o lavrador Mariano, nascido na pureza sertaneja piauiense de São Raimundo Nonato, além de vítima da sangrenta Guerra de Pau de Colher, convenientemente esquecida pela história, morreu combatendo os militares federais e estaduais a serviço daquele regime nefando que, aliás, não combatia apenas os focos da classe média que se insurgiam contra o governo nas grandes cidades, mas também a brava resistência sertaneja na área rural, aflorada, inicialmente, nos finais do século XIX na famosa rebelião do Arraial de Canudos, destruído por intervenção do governo federal de então; competentemente, liderada pelo monge cearense Antônio Vicente Mendes Maciel (Antônio Conselheiro), cujo corpo foi exumado e sua cabeça decepada como objeto de estudo, a fim de apurar sua sanidade mental, consoante admitia o “atraso científico” da ciência antropológica da época; a seguir, contra a resistência “cangaceirista” ou do Cangaço, também com precedentes no século XIX, acentuada no seguinte, onde, entre os cangaceiros mais famosos da republica, destacam-se Virgulino Ferreira da Silva, vulgo Lampião, que de 1918/1938 dominou o sertão, tendo como companheira Maria Bonita.

Eis como ouso relatar esse perfil da crueldade estado-novista, praticada nos conflitos abandonados por nossa má memória, historiográfica, pelo Brasil afora, tendo como foco básico a da “Guerra de Pau de Colher” (1937/1938), uma das mais violentas que houvera, na configuração de um “Mar de Sangue no Sertão”, entre os 32 conflitos esquecidos ou desconhecidos pela maioria dos brasileiros nos últimos 110 anos, brilhantemente descritos pelos jornalistas de O Estado de São Paulo, sucursal de Brasília, Leonêncio Nossa e Celso Júnior, em publicação de 19 de dezembro de 2010. Asseveram que o palco dessa guerra se estendeu por um raio de 400 quilômetros quadrados, envolvendo os povoados vizinhos de São José, Proeza, Minadouro, Cachoeirinha e Olho D’Agua – que pertenciam a São Raimundo Nonato, no Piauí – e, Lagoa do Alegre (onde estudei as primeiras letras em uma escolinha rural com os professores Mundoca e Manoel Pereira), São Bento e Ouricuri, distritos de Casa Nova, Bahia.

Documentos do arquivo Histórico de Pernambuco revelam que a ditadura Vargas mobilizou o Exército e policiais de quatro Estados para massacrar mil sertanejos, chamados caceteiros, baianos, piauienses, pernambucanos, por estarem armados com cacetes de marmeleiro, arvore típica da caatinga, como o arbusto pau-de-colher, que deu nome ao povoado. Entre estes intrépidos “caceteiros”, comandados por Joaquim Bezerra, o Quinzeiro, originário de Casa Nova e líder messiânico do Arraial de Pau de Colher, perseguido pela Igreja e temido pelo Estado e os coronéis, por certo estava o pequeno lavrador Mariano, meu pai, que, como escrevo em discurso de posse na Academia Goiana de Letras: “Morreu na guerra de Pau de Colher fazendo história do cangaço.” Em que lugar teria sido “enterrado”? Mesmo ainda sendo uma incógnita na história do conflito, acredito estar o meu pai entre os 157 mortos no centro de Pau de Colher, em uma sepultura coletiva, onde foi fixado um cruzeiro protegido por pedra tapiocanga; ou, talvez, entre os 40 rebeldes atacados por uma patrulha estado-novista do Piauí, provavelmente em 5 de agosto de 1938, quando cá o escriba tinha apenas um ano e meio de vida. Meu consolo: o campo onde se localiza o arraial de Pau de Colher, bravamente defendido por Ângelo Cabaça, um dos líderes e José Senhorinho, outro líder e fundador do arraial, é uma memória preservada. O agricultor Manoel Rodrigues, 65 anos, é o guardião daquele território dos caceteiros. Surpreendentemente, contam os jornalistas:

“Ele e a família capinaram toda a área e colocaram plaquinhas para identificar as trincheiras, uma cova coletiva, as casas dos líderes dos caceteiros e os pontos onde chefes mataram e foram mortos.”

Não sei como: um dia ainda descubro a vala indigente onde “enterraram” meu pai. Ele é parte principal da minha vida, da minha família, de onde venho pelo sangue, afeto e paixão, endereço de minhas raízes. Agora, tomei conhecimento que Marcos Damasceno, nascido em São Raimundo Nonato, terra do meu pai, no Piauí, escreveu o livro “Guerra do Pau de Colher – Massacre  à Sombra da Ditadura Vargas” que imagino ler muito em breve, quem sabe, desvendando o mistério da morte do meu pai, caceteiro da Guerra citada.

  

Martiniano J. Silva é advogado, escritor, membro do Movimento Negro Unificado (MNU), da Academia Goiana de Letras e Mineirense de Letras e Artes, IHGG, UBEGO, mestre em História Social pela UFG (martinianojsilva@yahoo.com.br)