Pela janela podia observar toda a mansidão de um domingo pacato e silencioso. Roberto no quintal, colhia folhas de hortelã e com o vento no rosto ele sorria contente, lembrava da tenra idade onde tinha ingenuidade para interpretar a vida como um circo bom. Agora os palhaços usam mascaras tristes e os malabaristas estão brincando com sentimentos. Na porta segue um cartaz enorme pregado com cola de gente grande:"Bienvenidos al circo de los corazones rotos" .

Ele voltava a cozinha, lavava com cuidado as folhas frágeis, misturava a água e levava ao fogo.

O chá gritava preso no bule. Roberto ainda fitava a janela, sentado no sofá antigo que comprara uma semana atrás, mais ou menos no mesmo tempo que perdeu tudo que tinha. Não só o sofá, tudo que decorava a sala fora comprado recentemente, e mesmo assim, carregavam um tom de velhice, de tempo morto. Havia uma estante pequena e outra maior, as duas lotadas de livros, quase todos não lidos, acima delas, retrato dos dois. A parede pintada de branco, três quadros de céu, dois quadros de mar. Espera. O chá tava evaporando todo, não podia. Tinha que servir duas xícaras, afinal, Roberto ainda faz chá pra dois.

Desligou o fogo e serviu as xícaras à mesa, sentou-se de um lado, na cadeira velha-nova, sentindo a madeira fina pela qual ele pagara um preço absurdo. "Renove a casa, renove a vida" era a propaganda da loja de moveis que convenceram Roberto sem precisar de muita enrolação. E agora sentado, ele sabia que o dinheiro não foi gasto atoa, havia conforto em tudo, já a propaganda da vida nova, era totalmente enganosa. Levou a xícara aos lábios, queimou levemente a língua, e parou encarando o fantasma que se sentava do outro lado da mesa, em frente ao chá servido. Porque ainda me serve chá? O espelho perguntava, olhando sem remorsos para Roberto. Se não quiser eu bebo. Ele respondia calmo, e as expressões se tornavam meio azuis. Ele percebia que falava sozinho, e que ainda faltava açúcar pra acompanhar o hortelã. Ainda era um domingo.

Em seu quintal havia um ipê, cheio de flores que dançavam a alegria do dia. Mas elas não sabiam que aquele dia ainda não era uma segunda, ou terça, ou sexta. Era um domingo.

Ele andou até a casinha de madeira que estava ali (bem na entrada da casa) desde antes dele comprar tudo. Lá dentro tinha algumas ferramentas, de algum morador antigo, quem sabe. Junto com todas as coisas novas, que prometiam uma vida de brinde. Ele tinha comprado cordas, muitas delas.

O carteiro estava passando. Cumprimentando todos da vizinhança. Normalmente ele era bem grosseiro e não falava com ninguém, com toda certeza ele tinha fodido na noite anterior. Mas mesmo que ele não fosse a melhor pessoa do mundo, e que no dia seguinte iria voltar a ser rude com todos. Bom dia! Não se nega à nenhuma alma. E ele passou direto pela casa de Roberto, de novo.

Ele procurava um tronco firme, um capaz de aguentar seu peso. Amarrou a corda, em um nó que aprendera com seu pai, olhou ao redor, testou se estava firme, derrubou algumas flores sem querer. Em enterros sempre levam flores não é? Questionou consigo. Ainda sentia o gosto do chá em sua boca, e a língua meia dormente da queimadura. Porque os mortos ganham flores e os vivos não? Quer dizer, flores de verdade. Daquelas que vão junto com lágrimas, saudades e tudo que tem direito. Falta amor entre os vivos e as pessoas insistem em misturar tudo com terra e enterrar um amigo que não vai voltar. Testou mais uma vez, estava firme.

Retirou o papel do bolso e escreveu um poema:

"Caminhos falsos,
deitados em espinhos,
gritando nomes antigos.
Eles são seus melhores eus."

Fechou os olhos e perguntou pra sua criança interior. Uma forca ou um balanço?