Ligou-se a máquina do tempo e foi dada a largada. O médico pegou o bisturi fez um corte profundo na barriga da mulher. Nasceu uma menina. Nem bem abriu os olhos e já virou xodó dela, do papai, da vovó e do vovô. Desenvolveu-se rápido, se arrasta no piso auxiliado por um carrinho, e com os olhos cor jabuticaba, abre um sorriso angelical, muitas vezes sem que lhe alguém lhe faça graça. Brinca uma infância longa que nunca passa. Menina que parece querer alçar vôos de liberdade mesmo ser ter asas emplumadas.
O tempo passou. No fundo do quintal, os galhos de rosas que plantou há décadas, agora são açoitados pelo vento e pela tempestade que os arrasam, retiram suas pétalas que caem e se esparramam pelo chão. Era uma menina de cor branca, negra, loura, ruiva ou morena não importa, nasceu, cresceu, tornou-se mulher, casou e constituiu família. Nasceu uma mulher sem preconceito, mas que, muitas vezes, incompreendida, teve sua juventude engolida pela insensatez humana, tempo em que, muitas vezes, idealizava alcançar voos muito além dos que imaginava para depois, enxugar as lágrimas dos filhos rebeldes e curar as cicatrizes da violência sofrida. Quantas lágrimas de dor e de mágoa ela retirou com as mãos calejadas sem curvar-se diante das adversidades da vida e das circunstâncias impostas pelas intempéries do tempo.
Diante do espelho da vida você vislumbra os caminhos percorridos e hoje no dia Internacional da Mulher, deve sentir-se como se estivesse sido expulsa do paraíso, retornando de repente para testemunhar a existência de uma pessoa sofrida, mas, de fibra, carinhosa, muitas vezes de cabelos brancos e rosto carcomido pelo tempo, mas que ainda consegue remover por meio de seu trabalho, as quadras da vida e as atividades que o mundo envolve e, mesmo diante das intempéries do tempo ou de uma manhã mal dormida, ainda tenta escrever cartas para os ausentes usando a tinta de um coração ferido pela dor e saudade, nunca deixando de reservar para os que estão mais próximos um pouco de seu afeto.
Mulher que ensinou os homens de bem conhecer a beleza das copas floridas e o saboroso néctar das pétalas perfumadas que regaram durante toda a existência e hoje, olhando as famílias alvoroçadas, já com asas distendidas na sociedade, aprendeu também a contemplar a altura e a amplitude do firmamento, voar com graciosidade e conquistar o infinito amor esculpido no seu coração para que, no final, esses homens possam deleitar, respeitosamente, no seu colo de mulher. Outros, em relação à mulher, figuram apenas como ignorantes, descrentes seres humanos que saíram do casulo como a uma borboleta sem rumo, de asas pesadas, a bailar no ar, que nunca aprenderam a vê-las fazer parte da história como pessoas especiais, inteligentes, competentes e sim, como seres humanos sem importância. Se alguém discordar, que desligue a máquina do tempo.


