Durante as tardes – as quentes tardes goianienses -, madame se deixava ficar à janela dos fundos, contemplando a pequena paisagem que se desdobrava à sua frente. Apreciava, particularmente, acompanhar a evolução das goiabas: flores, frutos verdes; gordas goiabas de polpa escarlate. Gostava de ver as formigas, sobretudo as cabeçudas, dinâmicas construtoras de um mundo desenvolvido – para elas, fique claro. Certa vez, estando debruçada melancolicamente à janela, apareceu-lhe amiga bem chegada, portadora de um presente.
 

- Não gosto de gatos, você deveria ter me telefonado antes.
- Não há problemas: levo a gata de volta.
 

Arrependeu-se:
 

- Quer saber de uma coisa? Vou criar a gatinha.
 

O marido gostou do animal que, em pouco tempo, se transformou em amigo dileto do casal. Um dia, depois de algum tempo de convivência, madame deu pela falta
da gatinha – já então uma formosa donzela – e falou com o marido pelo telefone:

- A Maristela sumiu.
- Ela está por aí mesmo.
- Já andei por toda a vizinhança e nada.
-  Isso é assim mesmo...
-  Assim mesmo como?
-  Garanto que ela está de amores por aí...
 

Parece que foi um capricho. Cerca de uns 30 minutos depois, quando madame colhia ovos no galinheiro, ouviu miado de gato. Olhou por cima do muro e viu a cena, montada no terreno baldio ao lado: a gatinha deitada ao canto do muro e dois gatos – um rajado e outro preto – disputavam a linda fêmea. O rajado, assim do tipo tranquilo, miava ternamente e se dirigia, em passadas elegantes, para o ponto em que se encontrava a provável parceira.

Porém o gato preto, forte e troncudo, cercava o adversário por todos os lados, impedindo que ele passasse a lábia na bichinha. A cena se prolongou pela tarde inteira, sem que qualquer resultado prático houvesse sido obtido. Madame falou com o marido:

- Você tinha razão...
- Em que sentido?
- A gatinha está mesmo de amores...
 

No dia seguinte, marido e mulher passaram fora de casa o dia inteiro e não puderam, assim, saber qual dos gatos tirara a sorte grande, embora admitissem que o gato preto tivesse melhores condições para vencer a disputa. Os filhotes nasceram rajados, todos os três. A mulher:
 

- Eu esperava gatinhos pretos...
-  Esqueci de lhe contar...
- O quê?
-  O vizinho me disse que apareceu um cachorro, que perseguiu os gatos. O rajado se escondeu e, quando as coisas serenaram, o caminho ficou livre para ele...
 

(Publicado em 30/05/2008, Jornal Diário da Manhã  - Goiânia - Goiás)

Modesto Gomes - Perfil