O caçador se levantou no canto dos galos em seu rancho de pau-a-pique na periferia de Frutal, levando a tiracolo a espingarda Winchester calibre 22. O trabuco estava com quinze balas no pente cheio até na boca. O local onde pretendia caçar distava mais de trinta quilômetros a serem tirados no pedal de bicicleta. Seu campo de caça eram uns restos de mata intocada, deixados pela consciência ecológica de alguns fazendeiros. O estirão de terras sem cortes de machado e benefícios de arado abrangia uns quatro latifúndios imensos, somando mais de trezentos alqueires. Era possível encontrar diversos animais vivendo na largueza selvagem, tais como veados, antas, ouriços-caixeiro, tamanduás bandeiras, capivaras, pacas, tatus. Inclusive corriam notícias na região de muitas onças pintadas vadiando atrás de bichos incautos. Um dos fazendeiros, dono da mata maior e mais fechada, contou a Itaubi, um moço nascido e criado no povoado de Frutal, sobre seus bezerros sendo dizimados pelas feras. Para certificar sobre a onça contou das muitas carcaças de animais encontradas sob folhas, exatamente como faziam as pintadas. Pelo jeito do assunto, tudo indicava serem onças eradas, muito grandes, pelo menos equivalente ao tamanho dos touros. Há dois anos pegavam apenas bezerros de ano, mas agora estavam atacando até garrotes no ponto de engorda. Devia ser uma pintada daquelas raras para dar conta do recado.
Precisava se livrar das feras, se quisesse continuar com a atividade pecuária. Naquele dia Itaubi estava em sua loja, escutando o fazendeiro contar seu drama. Interessou-se pelo assunto. Já o conhecia de vista, e sabia que ele não gostava de caçador andando em suas terras, mas agora acossado pelo prejuízo da onça, vinha exatamente falar do assunto perto dele, querendo ajuda. Aproximou do homem e perguntou-lhe como aconteciam os ataques e em quais pontos da fazenda. Ficou sabendo dos últimos detalhes do furdunço com o gado vacum. O fazendeiro estava mesmo disposto a amealhar aliados para a guerra contra as onças, durante a conversa desafiou a coragem do caçador, perguntando se era caçador de onças, ou apenas um passarinheiro de horas vagas? Ouviu falar dele, igual ouvira de muitos outros: eram apenas matadores de passarinhos e corriam até de rastros de jaguatirica. Aquela afirmação feita de forma insinuante mexeu com seus brios de caçador. Quem o conhecia sabiam-no um homem de coragem, caçador de cerrado, ao voltar contava proezas menores daquelas realmente ocorridas. Não era um faroleiro.
Não era um bufão de meia tigela. Onça mesmo não havia caçado nenhuma, mas sempre havia a primeira vez. É verdade que suas incursões de caçador eram sempre feitas nas partes mais ralas do mato, mas isto não podia colocar sua honra em cheque, assim de supetão, como queria o fazendeiro acuado de onça. Evitava entrar mais para o interior daquele deserto de sons civilizados, principalmente em razão do fazendeiro Washington não permitir caçador em sua propriedade. Agora com o aval na palavra dele, poderia ingressar na parte proibida da fazenda. Exatamente a mais extensa e virgem de botas profanadoras de matas. Só de pensar sua adrenalina fluía a mil. Havia lá uns enfurnados de mato fechado com muitas grotas formando grutas e tocas. Era o lugar perfeito para as feras procriarem. A parte onde nascia o riacho Massapé era umas serras sem fim, com muita pedra e mato fechado. Nunca andou naqueles ermos ou soube de alguém se aventurando por lá, a não ser dum tirador de mel perdido, esbarrando com os perigos do lugar. O apicultor conseguiu salvar-se e espalhou o quanto o lugar era feio.
O abelheiro falou em tom de “te esconjuro” que certa ocasião procurava um enxame e viajando á cavalo foi seguindo-o entretido na possibilidade de capturar quando acampasse e num dado momento perdeu o rumo de casa. Perdeu o azimute e subiu num elevado para assuntar o mundo e tirar um rumo para onde seguir, descortinou do alto o baixadão se perdendo de vista, até sumir num vale verde, encostando nas margens do rio Grande. Estava embrenhado no ermo e como o sol pendia no horizonte, precisava encontrar um meio para se localizar e fugir daquele inferno verde. De longe avistou bugios brincando nos galhos dum angicão dominando duma das muitas ravinas. Pelo visto existiam muitos outros animais de igual porte vadiando na mata virgem.
O apicultor explicava sua agonia para encontrar o caminho enquanto sua mente viajava ao passado recente. Itaubi também teve uma pitada de aventura com a mata da Biboca.Uma ocasião entrou por uma parte mais afastada do curral de Washington e se aventurou pouca coisa para o interior do mato, na direção da serra e encontrou uns lugares esquisitos, capazes de esconder qualquer onça. Diferentemente do homem do mel, estava ciente dos perigos enfrentados e foi marcando o caminho para voltar com segurança. As furnas da fazenda Biboca eram desconhecidas, mas suas notícias voavam naqueles gerais de Minas, com a velocidade do pensamento e o assombro de muitos causos. Talvez a dificuldade de explorar comercialmente a terra, cheia de morros e pedras, fosse a causa dos fazendeiros deixar aquilo ainda virgem. Washington, por exemplo, podia se passar por fazendeiro ecologicamente correto, evitando falatório de outros danos ambientais cometidos como a exploração até a extinção da última aroeira. Itaubi se interessou pela caçada. Entraria na parte vigiada da fazenda, com possibilidade de achar veado campeiro e pacas. Se fosse encontrado por algum dos moradores com uma destas caças, inventaria uma desculpa qualquer, como uma antecipação da autorização futura de caçador de onça. Afinal de contas tinha a autorização do dono das terras para caçar (onça). Se encontrasse a matadora aproveitaria para dar-lhe uns tiros. Quem sabe ainda ficaria famoso como caçador de pintada. Finalmente Itaubi voltou a prestar atenção no seu interlocutor e, foi providencial, porque ele estava terminando o assunto. Agradeceu-lhe o empenho em contar as passagens e se despediram. Agora viajava na história das abelhas, mas precisava dar créditos ao fazendeiro Washington.
Mal acabou o assunto com o fazendeiro foi se avistar com o parceiro de caçadas e falar das novidades. Juntos planejaram churrasco de paca, como se a caça já estivesse na capanga. O assunto da onça foi ficando de lado, como se fosse apenas um estorvo e, houvessem de passar por ele, desviariam o mais longe possível, é lógico. Esse negócio de caçar onça era muito perigoso. Marcou com o amigo de visitar a mata virgem da Biboca, prontos para caçar no próximo final de semana, nem tocaram no fato principal da autorização do fazendeiro, ou seja, a onça! Chegou o dia marcado e ainda não eram seis horas da manhã, Itaubi estava chegando ao terreiro do amigo e o encontrou pronto para a aventura. Tal qual ele, sua bicicleta estava do lado de fora da casa, com a carabina .44 dentro da capa amarrada na lateral. As outras capangas com munições de caça e matula estavam penduradas no guidão, esperando viagem.
Trocaram poucas palavras ali no terreiro e saíram pedalando com vigor na direção da mata da onça, chegando ao curral de Washington com sol mal e mal saído dos cueiros da natureza daquele dia. Encostaram as bicicletas no paiol e foram tomar leite quente do peito na ordenha matinal. A novidade de o patrão ter autorizado caçadores entrando na Biboca era conhecida de todos, apenas os dois haviam aceito a oferta dele. Os vaqueiros tiravam o leite, mas curiosos com os aventureiros. Os caçadores pareciam ansiosos para encontrar com a onça, querendo pegá-la ainda na cama, ou melhor, na toca, estavam com pressa, trocando poucas palavras sobre os últimos estragos da fera. Perguntaram qual direção foram vista as carcaças abandonadas. Trocaram olhares suspeitos e fizeram planos defensivos. Aquele papo foi providencial aos dois pretensos caçadores de onças: evitariam a região dada como lugar da onça vadiar. Não era bom para a saúde deles encontrar com a fera, mas desta prevenção não precisava ninguém saber. Falaram com o gerente da fazenda, questionando detalhes como quem estivesse interessado em saber pegadas da rainha da Biboca.
O rompante dos caçadores com o gerente era espetacular. Vendo os dois ciclistas/caçadores avaliou-lhes o porte físico imaginando aquele magrinho com peso compatível ao de um bezerro, certamente se encontrassem com a fera, seria um bom petisco. Os dois saíram apressados, descendo por uma estradinha curraleira, pelo meio do pasto. Sumiram da vista na baixada do córrego Massapé, onde a mata ciliar do córrego se encorpava e tomava forma de selva. A mata fechada começava no domínio da bacia do riacho desdobrando num lançante até encontrar-se com o córrego principal, o da Biboca. Itaubi estacou em sua bicicleta olhando para uma árvore de Farinha Seca no meio do pasto onde uma pomba do bando ariscava em sua copa. Fez pontaria e apertou o gatilho. Era uma distância considerável com mais de oitenta metros. Euripedes ficou olhando e galhofando do amigo dizendo assar no dedo se derrubasse. Incrível, o tiro espocou e o pássaro despencou do alto da copada. O colega em dúvidas saiu correndo para conferir a pontaria do amigo. Havia acertado no pescoço. Trouxe o pássaro, olharam e jogaram ali mesmo. Aquilo era puro esporte, coisa reprovável. Deixaram as bicicletas encostadas na cerca e entraram na mata. As dificuldades para progredir na sarobá eram muitas, o lugar escurecia nas sombras das centenárias árvores, como se o dia não vigesse ali.
O calor úmido fazia suar em bicas. Andar de corpo ereto era muito pouco. Caminharam, engatinharam uns quinhentos metros mata adentro. A tarde engolia o dia como se a noite antecipasse as trevas. Ambos cismavam: era perigoso até mesmo um atirar no outro. Para evitar esta possibilidade, andavam grudados. Andaram umas duas horas, uma parte do tempo com intenção de paquerar as paquinhas gordas e ariscas, outros pedaços da hora, se perdendo do rumo da civilização. Contornaram um monte envolto na capoeiraçu, saindo num conjunto de grutas. A água escorria pelas paredes de pedras dando um brilho fugidio naqueles salões escuros. Haviam subido um lançante pedregal descendo logo adiante e não tinham certeza se margeavam o córrego Biboca ou o Massapé. Passaram pelas primeiras cavernas, tentando ver o céu lá no alto, viam as grimpas das copas furadas por raios bruxuleantes e uns perdidos de azul celeste. Cada passo dado era como se mergulhassem mais e mais no breu e, o pior sem saber para que lado rompiam: se para o interior da mata ou a segurança do domínio da sede. Euripedes olhou de forma pusilânime para seu parceiro de aventura e insinuou: deviam entrar naquela primeira furna. Itaubi levantou a mão e apontou para o seu próprio nariz censurando o momento. O caçador mais velho parecia lembrar-se de seus instintos ancestrais farejando inimigo predador. Seu parceiro antenou os sentidos e percebeu um cheiro muito forte de cupinzeiro, embora não soubesse o que significasse, não precisava dizer mais nada, o conjunto de acontecimentos apontava para um único fato. O perfume de pintada invadia o ambiente. Nalguma daquelas grutas uma onça estava na madorna da volta do dia. Se estivesse de barriga cheia, certamente não oferecia perigo, mas esta garantia era vaga, incerta. Para enxergar no interior da gruta precisavam de uma lanterna, mas eles não dispunham deste equipamento.
Voltar pelo caminho por onde vieram lhes pareceu ser ainda mais perigoso. Optaram por passar ao largo das grutas, margeando um pequeno veio d’água correndo encostado num tabocal de taquara. Itaubi ia à frente e mal deu alguns passos sentiu o mato tremer com o rugido da fera. Os dois se olham abismados. Voltaram em cima dos rastros, mas um segundo rosnado vindo de direção diferente parecia balançar o pedregal. Um miado diferente, de filhote chamou a atenção das duas feras e ronronaram acalmando a cria. Onças de filhotes era a coisa mais desconhecida deles, porém com todos os perigos imaginados no mundo. Os dois aproveitaram o impasse dos bichos e voltaram voando pelo mesmo caminho dificultoso por onde vieram. A pressa na fuga, os fez tomar qualquer rumo diferente de onde partiu a ameaça. Naquela fugida sem rumo, um queria passar na frente do outro e assim embrenharam nuns túneis no meio da biboca, provavelmente caminhos de bichos hostis de grande porte. Poderiam topar com algum deles a qualquer momento.
A garantia era somente uma: todo animal têm medo de onça, tal qual eles. Seguindo o ditado popular que na descida todo santo ajuda, foram tomando as conformações do baixio do terreno. Tomaram fôlego somente na beira do riacho, talvez o Massapé. A camisa de Euripedes estava em tiras. O pano era de chita e não resistiu a unha de gato e pontas de taquara. Pararam na margem atentando para os sons da mata. Apenas o barulho de muitos passarinhos na farra vespertina moía o dia. Um barulho muito longe, á jusante indicava uma lambreta subindo o tope da serra, aquele era som de civilização. Finalmente, depois daquelas ultimas três horas escutaram algo capaz de orientar o lado de escapar. Enquanto cismavam com o barulho da selva ouviram o esturro dum bicho desconhecido. Não interessava o que era, significava perigo imediato. Nem falaram nada, pularam n’água e desceram aos trambolhos nadando, mergulhando, rastejando, rodando, andando onde dava pé, seguravam numa pedra aqui, noutra acolá até finalmente encontrar umas trilhas de capivaras ou pacas, margeando o córrego. Ingressaram numa delas. As espingardas eram um estorvo danado, mas não podiam abandoná-las. Tinham de devolver para o dono. Se as perdessem o preço era muitos dias de serviço.
Por azar deram de cara com uma carcaça de bezerro guardada sob umas folhas. Os restos do animal ainda não tinham entrando em decomposição, devia estar ali por um ou dois dias. Que indicação mais perigosa, sair sem querer na despensa das feras. A hora parecia-lhes propicia para a uma última refeição felina, do dia. Se uma das feras resolvesse fazer uma boquinha no final da tarde, poderia até topar com eles e resolver por uma sobremesa diferente. Carecia apertar o pé enquanto era dia. Que aperto dos diabos. Eurípedes sendo o mais católico da dupla fazia promessas a todos os santos que lhe veio na mente. Arranjava dívidas celestiais para um par de anos. O sol raspava as últimas ave-marias quando chegaram ao pontilhão da passagem do Massapé. Sentaram em baixo dum pé de sangra-d’água e retiraram suas matulas dos embornais. A comida na marmita estava revirada com os solavancos e o arroz com feijão se misturou com o ovo frito de forma irregular.
Comeram com pressa. Não tinham noção de qual direção deveria seguir para voltar ao ponto onde haviam deixado as bicicletas. Correr do rosnado da onça os desorientou de tal forma que não tinham idéia do rumo da sede da fazenda ou da cidade. Itaubi sentou-se num tronco retirado na margem onde era agora a ponte. Um bando de macacos veio assobiar numa árvore de sangra-d’água os códigos de sua tribo avisando aos demais de seu grupo, dos possíveis invasores do pedaço. Um dos indivíduos parecia mais atrevido, fazendo barulho, talvez querendo ganhar no grito a comida dos estranhos. Parecia faminto. O caçador pegou a espingarda e apontou para o animal a menos de vinte metros. Para o exímio atirador, treinado em ständers de parque de diversões em visita à Frutal, aquele era um tiro certeiro, sem medo de errar. O macaco olhava curioso para o endereço de sua morte, sem saber do mal que o estranho lhe faria por tão pouca provocação. Itaubi puxou o gatilho com vontade, uma, duas vezes. O macaco rodou guinchando no galho onde estava. Os dois aventureiros, corridos de onça, ficaram olhando para a agonia do bicho. O tal não caía. Parecia colado no pau. O caçador chateou-se com a demora da caça para morrer e resolveu apanhar a Winchester novamente e dar-lhe outro tiro, na cabeça.
O animal levou uma das mãos ao peito espremendo uma teta. O atirador esperou na pontaria, apreciando a agonia da caça. Talvez caísse agora. O animal ferido de morte estendeu a diminuta mão, tão igual á dos caçadores, apenas menor. Um líquido esbranquiçado apareceu rajado de sangue. Os dois entenderam que era uma macaca e se mostrava amamentando, fazia o esforço da procriação. As leis de sua espécie mandava ser poupada. As leis do homem são outras, cruéis, sádicas. A macaca como se portasse inteligência resolveu qualificar seu pedido de clemência ao verdugo. Num último esforço pegou uma folha bamboleando a seu lado e mascou. Pegou a moqueca de folha verde misturado com seu próprio leite e esfregou em um dos ferimentos, tentando estancar o sangramento. Com o movimento de massagear, o sangue escorreu pelo orifício de saída da bala. O machucado era intenso com perfuração de órgãos internos. A morte era uma questão de segundos. Seus olhos incrédulos fixavam nos inimigos como se os vigiasse prevendo outros ataques. Apesar da distância dos caçadores do calvário onde agonizava, eles podiam ver seus olhos vertendo lágrimas. Aquilo era muito estranho: animais não têm sentimento de choro. Num último esforço a macaca/mãe passou a patinha nas costas tentando retirar alguma coisa. Itaubi pensou que seria o outro ferimento por onde saiu a bala.
Apesar de gostar de matar bichos apenas para treinar sua pontaria, achando ser um esporte como direito natural do homem, foi tocado pelo sofrimento da macaca. Julgou ter passado da conta e resolveu dar um tiro de misericórdia para derrubar de vez, acertando-lhe o pescoço. Ela tombou lateralmente enrolando o rabo no galho prendendo o corpo, já nos estertores da morte. Não pode mais emitir nenhum guincho. Sua cabeça balouçou sem governo do corpo. Apenas o esforço instintivo para preservar alguma coisa do seu mundo animal a prendia no galho. O caçador não entendia esta linguagem, não tinha sentimento bastante para entender o lamento. Como seu carrasco gratuito, fez outros disparos e apontou o pau de fogo, desta feita afinando a pontaria para torar o rabo que sustenta a infeliz pendurada. Um movimento suspeito percorreu o fio do lombo da macaca. O caçador esperou para ver o que era. Seria um ritual de morte das macacas, arrepiar o pelo do rabo? Um pequeno ser, o filhotinho que ela queria tanto proteger ia subindo rabo acima. Seu instinto animal, ou talvez um último aviso materno o alertou dos perigos da morte.
Devia tentar escapar e levar consigo o dever de salvar sua espécie. Tinha o tamanho dum rato pequeno com poucos dias de vida. Itaubi pareceu transtornado pela cena e virou a mira na direção do pequeno filhote em movimento. A macaca finalmente desprendeu-se, sem mais força para suster seu peso. Caiu no riacho. Euripedes vendo a disposição de seu colega em atirar no descendente daquela infeliz, bateu a mão no braço do amigo, no momento justo dele apertar o gatilho. O tiro se perdeu na direção da selva. O eco do baque ecoou nas dobras da mata rebatendo na serra distante. Voltou com uma resposta da natureza num eco lamentoso chorando a morte covarde de sua filha. O caçador, dito civilizado, não conseguia entender a linguagem nos sons do sertão, mas certamente eram avisos da mãe Terra, não reclamando de imediato, mas dizendo se vingar de seus algozes. Finalmente o caçador de araque, valente contra seres inferiores, mas que ainda há pouco, até sujou as calças apenas com o rosnado dum casal de onças, caiu na real. Olhou o parceiro de forma silenciosa. Seus olhos estavam marejados de tristeza. Apontou a arma para o espelho d’água e apertou o gatilho seqüencialmente. O outro quantificou o número de tiros. Na décima segunda vez o cão bateu e não voltou para re-municiar a culatra. A rajada seqüencial não continuou, esgotara sua carga.
A comida dos caldeirões estava pela metade. Ambos se levantaram jogando o resto sobre umas pedras. Uma vez sobre o pontilhão divagaram qual lado seguir. Escolheram um a esmo, sem orientação nenhuma, queriam sair logo dali e subiram o estradão furando a mata. Caminharam o resto da tarde e chegaram numa posição muito diferente de onde desejavam. O escuro da noite se avizinhava trazendo os fantasmas do mato. O sol fugiu nas dobras do cerrado. A mata fechada dos domínios imediatos do córrego Sapé foi raleando e o porte da vegetação se torcendo, diminuindo, evidenciando o serrado. Estavam exaustos com a caminhada. O ronco dum caminhão os alcançou. Marchas pesadas eram engrenadas na subida do tope. Passado uns dez minutos, viram lampejos dos sealed-bean era um caminhão carregado de tijolos e parou ao lado deles. O motorista conhecia Itaubi e ofereceu-lhes carona. Eles subiram sobre a carga de tijolos. A aragem da boca da noite soprava da mata expulsando aqueles maus filhos. O vento os amaldiçoava esvoaçando nos tijolos com a velocidade do caminhão, levantando pó de mico. A coceira começou a incendiar seus corpos.
Aquele carregamento era de tijolinho pó de mico. Chegaram em casa com a noite alta. Foi a última caçada dos dois aventureiros. Nem as bicicletas quiseram buscar na fazenda Biboca. Teriam de assumir muitas histórias fantasiosas que corriam a respeito dos dois caçadores de onça. Uma destas dizia deles ter sujado as calças só de toparem com o rastro de uma jaguatirica. O assunto era vergonhoso e não queriam contar a versão oficial. Para quem conhecia mais ou menos a história tirava conclusões muito desfavoráveis aos moleirões. O prejuízo moral era menor ficando sem as bicicletas. O preço era baixo pelo mico que teriam de pagar. Foi a última caçada dos dois.
Frutal, 19 de janeiro de 2.004. Cinco dias após a morte de mamãe.
Delegado Euripedes III


