(imagem google)

                Não dava a mínima para o bom senso social e por isso mesmo aplaudia e incitava o mundo cão de violência, um redemoinho com o satanás dentro, que imperava nos últimos tempos, e contribuía para açoitá-lo ainda mais ao inferno e às forças do mal, sem medir consequências. Não adiantaram as pregações ouvidas todo dia, a toda hora, nas ruas, rádios e televisões, estas agora incorporadas ao labirinto financeiro e usurário das religiões cristãs, na tentativa de se imacular. Essas coisas infernizavam ainda mais sua vida, incitando a vontade de matar e nem por isso tentava se esconder, matando quem achava que devia e fazendo dessa trajetória um monumento social de alarde, indignação, preocupação e ranger de dentes.

Virou um matador, não totalmente confesso, porque indefeso diante de tanto desarranjo social. Parecia um contrassenso, mas matava para melhorar o mundo. E se safava muito bem da polícia e da justiça. Dizia aleatoriamente, para um e outro, quando aparecia ocasião de gente morta no rol daquela fantasia de viver:

“Acho até bom melhorar a história desse mundo, acabando com gente que atrapalha.”

E matava senão para mandar ao inferno aqueles que teimavam em prejudicar e não entendiam o mundo como ele, que nunca admitiu viver a liberdade incondicional, onde tudo podia, sem o menor pudor, dando satisfação apenas para as regalias da alegria. O descompromisso com essa versidade o levou ao crime e o transformou num matador emérito, que carregava um Deus lá do seu jeito, não no coração, mas no fígado, sem nada, sem nada mesmo que pudesse atrapalhar seu enredo, suas versões e diversões.

Por ter se transformado em uma pessoa muito má, procurou a reclusão, foi atrás de um computador e de um celular que pudessem lhe transportar para um mundo melhor, sem gente por perto. Não adiantou, ou melhor, piorou, pois aí mesmo é que a vontade de matar cresceu. Passou a usar artimanhas. As notícias atormentavam as pessoas, mas  tinha certeza de que estava limpando o mundo para melhor. Ele até se regozijava com isso, porque tinha categoria para tirar vidas e dizia que assim fazendo enchia o inferno de alegria. Foi aos livros e também de pouco adiantou. Melhorou ainda mais sua imaginação para o que imaginava ser a benfeitoria da morte.

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Subia os degraus que davam para a favela, quando ouviu gritos apavorantes de uma mulher pedindo socorro. Assustado de início, mas  resoluto depois, desceu os degraus e virou a primeira esquina, quando se deparou com uma cena indecorosa e violenta: uma mulher com a roupa toda rasgada, sendo sojigada por um sujeito com calças arriadas e uma faca na mão. Sem titubear, catou a primeira pedra que encontrou e, impulsionado por um instinto mais selvagem que o do agressor, se esgueirou e sem dó nem piedade bateu tanto que macetou a cabeça dele. Em seguida, sorrateiramente como chegou, sumiu pelas ruas sombrias do lugar.

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Para fugir da polícia, se valia de subterfúgios e sempre se desembaraçava nos escaninhos labirínticos que criava e recriava para se esconder bem e conseguia com esmero se safar de todos os organismos, aparatos e instituições que perseguiam os matadores, gente que como ele achava que limpava da vilania a história do mundo. Vez por outra, nem era mesmo essa a desculpa que encontrava para diminuir as gentes que tentavam cortar seu caminho, sua trajetória imagética do mundo que ele mesmo construía, com o auxílio da violência bem medida que vigora nos dias de hoje. Muitas vezes, matar para ele era uma forma de catarse e de limpar o contexto.

 

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Ricardo gostava das coisas simples e era sempre direto. Foi assim com a mulher do coronel Efigênio Praxedes. E levou consigo o último discurso que ouviu:

- Ninguém vive assim porque quer, se mexe com a muié do coroné.

 

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Tanto que matar virou rotina, assim como a necessidade de fugir, de encontrar a adequada guarida. Matou Ricardo e perdeu a conta, porque nem conta fazia mais. Aquilo não o incomodava e nem mesmo o preocupava a indiferença com a vida. Achava que assim fazendo contribuía coerentemente com a mudança da história. Fugia para dentro de si e não adiantava, atormentavam-no caminhos que podiam ser diversos daqueles que simplesmente acabava com as histórias de vida das pessoas, para satisfazer seus enredos de assassino.

 

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Desejava a mulher do próximo, a Cláudia, que era encantadora, nova e tirava-lhe o fôlego, sendo o próximo o seu primo querido, Rosivaldo, com o qual conviveu vendo crescer desde os cueiros. Apesar da diferença de idade, apaixonou-se por ela e viu-se correspondido com todos os frêmitos de uma avassaladora história de paixão. Até onde esconderia aquilo do primo ele não sabia, nem mesmo onde daria aquela enrascada, porque ambos eram comprometidíssimos, com filhos, família e toda a parentalha que moralizava e sustentava a relação e a convivência. Foi por isso que resolveu, da forma mais insuspeita possível, matar sua própria esposa e também Rosivaldo para que, desimpedido, pudesse ficar com Carla. No começo, aparentou tristeza, apenas para disfarçar, mas depois sentiu uma felicidade imensa, por ter descoberto os prazeres da doce mistura de amor e morte.

 

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Matou também para ver florescer a paixão e o amor, e assim, mesmo sem levar em conta a consciência, a polícia e talvez a justiça, trazer a vida para dentro da arte. Dessa forma, podia contar e recontar, sem sustos, todas as histórias possíveis e impossíveis, reais e fantásticas, muitas vezes matando também o pudor e a decência. Matava para enfeitar suas histórias, apropriando de relatos policiais, de enredos contados por ancestrais, de situações vividas e de outras inventadas.