Aquela visita inesperada, para tratar de assuntos de trabalho, trouxe-me à lembrança fatos da distante adolescência.Vivendo numa cidade nova, de avenidas largas e sem o perigo de acidentes, pelo número limitado de carros nas ruas, passei parte da mocidade despreocupadamente, fazendo malabarismos com a minha bicicleta, o transporte da meninada daquela época. Éramos três, as amigas inseparáveis, e saíamos todas as tardes para passeios pela cidade em formação. Alegres, felizes, tínhamos outra companheira com quem trocávamos livros de histórias e de poesias. Nadyr, este o seu nome, e era ela o porto seguro, no final das corridas loucas de bicicleta. Em sua casa “ancorávamos”, para ouvir as ultimas novidades, contar o que víamos pela cidade, ouvir músicas selecionadas, pois a cultura e o bom gosto da amiga eram notórios.
 

Um detalhe: Nadyr nunca pôde nos acompanhar. Sofrera, quando criança, de paralisia infantil, e nos aguardava, sempre, em sua cadeira de rodas. Compartilhava dos nossos casos e aventuras juvenis. Mas, chegou o dia em que tive de deixar a cidade, acompanhando meus pais, que se mudaram para o Rio. Muitos anos se passaram sem notícias de Nadyr, pois a vida, como um rio que não interrompe seu curso, foi me levando para novos lugares, já casada e com filhos. Com a mudança da capital para Brasília, viemos do Paraná, onde morávamos, e fixamo-nos no Distrito Federal. Foi aí que a história de Nadyr pôde ser reatada. Aquele visitante inesperado (repetindo as palavras do início), ao declinar o seu sobrenome pouco comum, atiçou-me a curiosidade, pois era o mesmo da minha amiga.


Perguntei-lhe se a conhecia. Eram primos e, assim, pude obter todas as respostas às minhas perguntas. Soube, com tristeza, que ela já havia deixado este plano, mas, em vida, fora sempre alegre e otimista. Quando adulta, disse aos pais que gostaria de ter um salão com todos os recursos. Achava que as mulheres deveriam cultivar a beleza, em seus mínimos detalhes. Revelara, aí, a total ausência de inveja ou comparação. Nunca apresentara o mínimo complexo de inferioridade, que a aparência poderia suscitar. Apreciava o belo, queria ajudar as pessoas, e criou, assim, um ambiente requintado e feliz. Era tão querida, que não perdia festas; e como dançava, levada nos braços de seus amigos jovens!
 

Súbito, partiu, ainda na plenitude da vida, deixando um vazio no coração de todos que a conheciam. Ao arrumar seus papéis, na rotina dolorosa dos que ficam, sua mãe encontrou uma página escrita poucos dias antes de sua morte, onde, com palavras simples, dizia-se uma criatura feliz, e agradecia, calorosamente, a vida que tinha, os pais, os amigos... No final enviava orações ao criador das cadeiras de rodas, pois, graças a ele, não encontrou limites para as suas idas e vindas. Dizia que as rodas eram as suas pernas, e repetia: obrigada, mil vezes obrigada!