Estava naquele bar com uns amigos. Mas, como houvesse agendado com o diretor do departamento de pessoal comprovar que ainda estava vivo, retirei-me. Não sei as razões, mas ia a pé. Minha mulher me acompanhava. Não conversávamos, porque estava com pressa. Horário para mim tem de ser cumprido à risca. De repente, encontrei-me com outros escritores, sentados à calçada, em uma reunião de trabalho. Conversamos um pouco; mas estava pressuroso para chegar ao meu destino, porque o funcionário que me ligara havia me dito que era urgente. Se eu não lhe apresentasse o comprovante de recadastramento, não receberia o salário, pelo menos, por uns três meses. Quando cheguei à universidade não era mais a universidade, mas um prédio estranho, todo pintado de preto. Os funcionários possuíam barbas tão espessas que não me permitiam ver-lhes o rosto. Falavam por gestos. Aquele que me ligara, porém, trazia um crachá em que se podia ler que era o chefe do departamento de pessoal. Com sinais, ele me disse para trocar de roupas. Quanto mais eu insistia que aquilo era absurdo, mais ele se irritava e me asseverava que eu não tinha saída! Como não houvesse como rebelar-me, desfiz-me da indumentária. Não podia ficar sem os meus proventos. Lembro-me que as roupas ficaram estiradas sobre uma cama, juntamente com meus pertences. Esqueci-me inteiramente dos documentos, face ao inusitado daquelas dependências que mais pareciam um hospital, a despeito de todos portarem roupas pretas.

De repente, dei-me conta de que minha esposa desaparecera pelo caminho. E agora, o que seria dela, se eu era a sua memória, se ela não articulava frase alguma? Aliviava-me a tensão saber que não a vira desde o momento em que encontrara os amigos reunidos na calçada. Certamente, eles a guiariam até o bar, se a vissem perdida ali por perto. Esperava, também, que ela tivesse um momento de lucidez e retornasse ao bar, pois os amigos de Baco continuavam lá, como era costume, às sextas-feiras.

            Mesmo sem solucionar o problema do recadastramento, já que a universidade não era universidade, saí imediatamente, daquele lugar sinistro, a fim de encontrá-la, porque me sentia culpado pelo seu desaparecimento. Sabia que, nessas circunstâncias, ela estava à minha espera. Procurei seguir o mesmo trajeto, na esperança de vê-la à frente de alguma loja, mas, não sei por que, as ruas não eram mais as mesmas. Dentro de mim, sentia que o bar ficava cada vez mais distante, apesar dos meus passos ligeiros. Resolvi pegar um táxi, quando me lembrei de que o dinheiro e o cartão de crédito ficaram no bolso da calça. Eu estava com a roupa que me obrigaram a vestir. Creio que apenas calção e camiseta. Também, nenhum táxi passava por aquelas vias escuras. De repente, porém, surgiu um, só que em forma de uma casa ambulante. Fiz sinal, e ele parou. Uma mulher era o taxista. Entrei, e o carro se pôs em movimento, sem que ela o dirigisse. Fiquei com medo e sentei na poltrona do motorista, já que ela se sentara em outra e fazia as unhas, mesmo com o carro se movimentando. Ocorre que não encontrava o acelerador e nem o freio. Apesar disso, pus-me à direção, pois não confiava naquele veículo a andar sem condutor.

            De repente, uma grande subida que nada me lembrava do acesso ao bar. Tinha a impressão, no entanto, de que ele se encontrava do outro lado, à esquerda. Ao chegar ao cimo, aqueles amigos que eu encontrara à calçada daquela casa ainda estavam lá. Disseram-me que minha mulher retornara e que se encontrava lá com os amigos, no bar. Aliviou-me um pouco a tensão, pois, pelo menos, tinha certeza de que ela não se embrenhara por outras ruas, dificultando-me o seu encontro.

            Felizmente, logo que cheguei, conduzido por aquela casa ambulante, com luminoso de táxi, eu a vi, juntamente com a esposa do amigo que, certamente, viera após minha saída. Estavam sentados na calçada, mas o bar não era mais o mesmo. Estranhamente, minha mulher também trocara de roupas. Encontrava-se toda de preto. Um preto brilhante, incomum na moda feminina da época. Desci, mas ela não demonstrou reação alguma. Tudo parecia normal. O problema, agora, era pagar o táxi. Solicitei aos amigos que me emprestassem, pois teria de voltar àquele lugar, onde ficaram os meus pertences para pegá-los. Todos enfiaram as mãos nos bolsos, mas nenhum deles encontrou dinheiro algum. Inexplicavelmente, ele desaparecera. Acalmei-os. Iria, com aquele mesmo táxi, buscar o meu cartão de crédito e, quando retornasse, pagaria toda a conta, e, depois, eles me devolveriam a parte que lhes tocasse.

            Pus-me novamente a caminho. A taxista continuava a lixar as unhas, e o carro seguia, sozinho, o percurso. Ela, agora, não me deixou ficar ao volante. O trânsito, intenso, por causa do horário, me amedrontava. Ainda mais que aquela coisa ambulante, sem direção, me parecia mais larga que os outros veículos. Quando cheguei ao local, em que deixara as roupas, o prédio não era mais o mesmo, apesar de as pessoas continuarem vestidas de preto. Não me deixaram entrar, porque terminara o expediente. Que fazer, agora? Pensei em pegar um talão de cheque e resolver o problema; mas não me lembrava de onde ficava a minha casa.

 

                                                                                              Refúgio do Poeta, 28-4-2013