Eu sou antes da culpa. Minha jornada começa antes do tempo edênico. Caminho na retaguarda da carne criada para todas as delícias. Sem pecado original e isenta de maldição.


Eu, nu... incomoda você? O hábito já fez o monge. Os padres deixaram suas batinas; os militares, seus uniformes; as freiras, seu hábitos; os magistrados, suas togas; os professores, seus jalecos; os andarilhos, seus trapos e os pós do caminho. E, mesmo que eu me cubra ou me vista, estarei nu na voz, nos gestos, no rosto, nas mãos, no olhar.


Sou único, individual. Não está vendo? Ninguém há igual a mim. Ora me sinto nas alturas, em benefício das causas intelectuais; ora nos declínios da queda para servir à sensualidade e à lascívia. Quase uma fantasia de tema livre.


Use pelo menos uma sunga... Não, tudo está e estará às claras. E as portas abertas... Qual seu verdadeiro estado? Há um espírito quente agitado de guerreiro inquieto dentro de mim contra um deus ou um demônio. E há um despojamento de dançarino, voltado para a luz e para o nascimento, diante do palco do amor bafejando de liberdade, com muita alegria. Quero receber diretamente as energias do espaço e do mundo. Isto é um conhecimento da verdade e uma vergonha para mim. É... pois é... para você. Não é? É! Mas eu quero ser inteiro nesta sonata em dó sustenido menor.


Inocência? Ou exibição? Toda nudez será castigada. E deveria ser castigada por sua ambivalência. Sou um atleta em forma. Não, ando meio fora de forma... Discordo. Você acabou de ganhar uma olimpíada-de-abraçar-me agorinha mesmo... Ah! Minha nudez é de alma. Não só física, no teclado deste piano Estou por inteiro. Retiro o corpo das amarras. Renego qualquer prisão que o ameace envolver. Quero estar completamente nu diante de mim mesmo e diante do espelho, no concerto interior que farei neste quarto e no mundo.


Agora estou completamente nu, em meu estado primordial e manifesto. De bem comigo mesmo e com Deus. Por quê? Minhas ideias, com a aquisição de novo chapéu-Golem, invisível, tornaram-se raios de luz beethovenianas. Eu sou apenas meu corpo. Não vale o corpo mais que as vestes e adereços? Bato firme no adágio lento sustentado, até que um allegretto attacca num andamento mais rápido. Rapidinho: allegretto de Sonata de luar.


Abertos os olhos... Mais uma vozinha sustenida se arrasta na viração da noite. Cosa uma tanguinha. Pernilongo vai te comer! Tem importância não. Minha vida íntima já foi violada. Laio bebeu meu sangue e não sei ainda como suplantar o Rei. Ah! Secarei os pântanos de meu inconsciente, abrirei canais de expressão dentro de mim mesmo. Sonharei os sonhos mais ousados. Sonharei para trás com Freud. Sonharei com Jung para adiante. Direi as palavras mais delirantes. Palavras secas, divinas. Palavras úmidas, masculinas e penetrantes nas orelhas da terra. Femininas. Escreverei um poema-cererê, na luta contra o pirata. Contemplarei uma tela nua, vestida de espaço surrealista. Ouvirei a música de maior amplidão universal, uma ode à alegria e à nudez total. Libertarei, evacuarei todos os monstros de meu pântano interior e catarei, reunirei os pedacinhos de minha própria integridade, se é que ela algum dia se espatifou.


Veja! O último monstro do pântano acaba de morrer. Dó menor. Mas você poderia usar pelo menos uma tanguinha-sonata... quase uma fantasia.Não, encontro-me agora em meu verdadeiro estado. Primitivo, primordial, divino. Sou único, individual. Como lhe disse no começo. Ninguém há igual a mim. Presto agitato. Agitadinho nessa travessia.


Eu, nu? Se você não fala... eu nem me lembraria. Faz tanto tempo que me libertei, que me salvei por mim mesmo!