Meu nome é Doctor Robert. Mas, podem me chamar de Doutor Roberto mesmo. Sou dentista aposentado em Manchester, Inglaterra. Dentre trocas de jaquetas, extrações de sisos, reparos de buracos e peripécias científicas off label com gás hilariante, fui eu quem apresentou Lucy aos Beatles, em meados dos anos 1960. Naquela época, toda experimentação com sexo, drogas e rock and roll era vista com muita empolgação e curiosidade pela juventude que vivia “O Poder da Flor”. No caso dos artistas, o uso de entorpecentes visava manter-se acordado a maior parte do tempo, a busca pelo autoconhecimento e o aguçamento da criatividade. É claro que muitos entravam na onda por puro divertimento, a hora do recreio, se é que me entendem.

Como eu já disse, eu não era um artista, embora tivesse entrado na décima-primeira faixa, lado B, do disco “Revolver” e arriscasse uns acordes no ukelele, por influência de George Harrison, que era um dos meus clientes vip. Fui dentista. Hoje, sou aposentado. Moro em Manchester, Inglaterra, aquele lugar onde, há poucos dias, um maluco explodiu uma bomba durante o show da cantora Ariana Grande. Grande coisa. Não gosto das músicas de Ariana Grande. Não ao ponto de explodir pessoas, é claro. Apesar de forte tendência suicida, não gosto do ideal desses homens-bombas. Aliás, sou ateu, velho, não sonho com mulheres virgens faz tempo e estou me lixando em entrar no paraíso. Tornei-me um cadeirante, um homem fisicamente inválido e, mais do que tudo, espero pela morte e odeio as cuidadoras contratadas pelos meus herdeiros para limparem o meu rabo, socarem comida moída na minha boca e empurrarem a maldita cadeira-de-rodas até um parque ensolarado. Maldito sol! Pombos, seus miseráveis, vão cagar no inferno!

Por conta de uma doença degenerativa de causa desconhecida (como a fé, por exemplo), eu só penso. E como eu penso. É de cansar o silêncio. Não sou capaz de me levantar para bradar, xingar, muito menos, para meter uma azeitona de prata nos miolos. Miojos. Lá vem elas, de novo, com mais macarrão instantâneo. Não há uma só noite em que eu não sonhe em matá-las. Nem todos os meus neurônios estão em má forma. Há um punhado de sinapses teimosas a insistirem que eu me conecte à realidade. Não queria mais me conectar com porra-nenhuma, com ninguém, nem aqui, nem em Connecticut. Quem foi que disse à equipe médica que eu me interessava em saber se estava ou se não estava cagado.

Portanto, eu simplesmente sigo a minha sina, persisto a pensar, a lucubrar, a odiar grande parte da humanidade. Ariana Grande, por exemplo, ela nem me conhece, é uma fofa, mesmo assim, é uma das pessoas que mais odeio nesse mundo. Foda-se se ela é bonita, afinada e dança bem. O repertório musical é frívolo, é um escândalo descartável. Boa mesmo era “A Banda dos Corações Solitários do Sargento Pimenta”. Faz tempo que as minhas mãos estão mortas. Mesmo incapacitado para tocar punheta, preencher um cheque ou escrever a própria história, vou lhes contar, pelas patinhas imundas de um ghost writer, como é que, há cinquenta anos, fui parar na capa do mais importante álbum de rock de todos os tempos: o famoso “Sgt Pepper’s Lonely Hearts Club Band, dos Beatles”.

Mister Kite era um cliente cativo no meu consultório em Manchester. Adorava tomar o chá-das-cinco batizado com ácido lisérgico. Ficou meio angustiado desde que a filha saiu de casa para morar na América, mais especificamente, na Califórnia. Até onde sei, Lovely Rita virou hippie. Eu prefiro os hippies aos yuppies, mas isso aí já é outra história. Com uma pequena ajuda dos amigos, as coisas começaram a melhorar e ele acabou comprando um circo em Londres. Um dia na vida, a sorte nos sorri, é o que dizem. Na primavera de 1967, Brian Epstein, empresário do Beatles, promoveu um show dos “Garotos de Liverpool” num palco armado sob a tenda. Brian fora namorado do senhor Kite. Foi um espetáculo de pequeno porte, reservado aos amigos e convidados especiais. Eu fornecia para os Beatles, portanto, meu nome estava na lista.

Depois do show, enquanto compartilhávamos um baseado, Paul McCartney me contou que tivera uma ideia inovadora, algo grande, um projeto incrível para o próximo álbum, cujo tema principal seria uma banda fictícia com o nome “A Banda dos Corações Solitários do Sargento Pimenta”. Achei o título péssimo, mas, quem era eu, senão um dentista medíocre, um maldito fornecedor de LSD, anfetaminas, anestésicos e outros veneninhos, para discordar de sir Paul McCartney. Eu adorava os Beatles. Estavam no auge da fama. À certa altura da noite, um tanto inebriado e melancólico, perguntei ao Paul se ele ainda me alimentaria, se ele ainda precisaria de mim quando eu tivesse 64. Belo e sensível, Paul sorriu e me deu um abraço. Até onde sei, este episódio particular lhe serviu de inspiração para uma nova canção, a qual foi incluída no novo disco. Chama-se “When I’m sixty-four”. Deve ser por isso que fui parar na foto da icônica da capa de “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band”. Estou ao lado de Johnny Weissmuller, bem atrás de Paul McCartney. Notem que é para mim que o Tarzan olha e sorri.

 

Fonte: www.revistabula.com/9774-a-incrivel-historia-de-como-fui-parar-na-iconica-capa-do-disco-sgt-peppers-lonely-hearts-club-band-dos-beatles/