A vingança


Vem tristeza por aí. Aquele eficiente lavador de ônibus, Aniceto (nome fictício, que em grego significa invencível) ganhou confiança da empresa para a qual prestava serviços, mesmo não sendo seu funcionário. Aniceto surgira por acaso, doido por qualquer tipo de trabalho, conseguindo virar lavador de ônibus, e dos bons!, de manhã à noite, durante semanas e semanas.

O gerente, quando foi acertar pela primeira vez, estranhou que o lavador não quisesse receber, ponderando que receberia depois de acumular certa quantia. O gerente gostou, passando a admirá-lo, imaginando existir algumas pessoas economizando para adquirir patrimônio.

O lavador de ônibus conseguia se virar com outros bicos, bem disposto com a sua batalha pela sobrevivência, na ânsia de juntar dinheiro.

Depois de certa jornada de muitos veículos caprichosamente lavados, Aniceto puxou do bolso as somas do seu trabalho. O gerente providenciou o pagamento, com elogios: “Muito bem, você merece. Aqui está seu dinheiro. É uma boa grana. Que que você vai fazer com ela?”

A resposta foi imediata: “Vou comprar um revólver.”

O gerente não queria acreditar: “Você está louco?! Depois de tanto trabalho!... A gente até pensava em assinar carteira pra você...”

Aniceto, sério e triste, não deixou por menos: “Agradeço, mas não posso ficar. Eu vou matar o homem que matou meu pai e sumir daqui.”

No momento, passava na rua uma caminhonete bacana, dirigida por seu imponente proprietário, conhecido no lugar. O gerente da firma de ônibus notou o olhar do seu ex-lavador em direção ao chofer da caminhonete, e ouviu o desabafo de Aniceto: “Há muito tempo esse sujeito vem passando em frente onde moro. Foi ele que assassinou meu pai, há muitos anos. Nunca esqueci. A gente era pobre, mas meu pai sustentava a família. No dia, ele capinava uma roça (eu, perto), quando aquele elemento chegou dizendo não sei o quê, discutiu um pouco, e logo puxou sua arma... Eu implorei: Não, não, não!... Nada adiantou, não teve jeito, o elemento puxou o gatilho. Meu pai caiu ali mesmo, morrendo, perto de mim e da enxada, e eu chorando abraçado nele...”

Poucos dias depois de receber seu dinheiro, Aniceto, por vingança, matou a tiros o dono da caminhonete bacana. E sumiu do lugar. Ninguém dá notícia dele, alguns achando que fugiu para Santa Catarina, outros achando que teria partido para Alagoas.

Com aquela vingança, não se ficou sabendo se o triste Aniceto resgatou sua consciência em honra de seu pai, ou se o revólver que comprou lhe trouxe uma preocupação, a preocupação de viver fugindo.