Ao volver o pensamento para um passado que já vai distante, agradeço a Deus a proteção que me concedeu nas minhas peregrinações por este nosso Brasil continental. Residi tanto em metrópoles, como em municípios de porte médio e em lugarejos. Foram muitos anos de experiência, sem¬pre tendo de me adaptar ao modo de vida dessas diferentes comunidades, e me orgulho de haver merecido a amizade de pessoas íntegras e hospitaleiras.
 
Com isso, pude acumular, como se num baú mental, várias e curiosas lembranças. Uma delas, por envolver um assunto sempre polêmico, pare¬ce-me digna de ser contada:
 
Ha mais de meio século e por um ano estive trabalhando em uma cidade do interior de Minas Gerais. O lugar tinha uma praça bem arborizada e ajardinada, onde ficavam o cinema, de razoável padrão, o Clube Social, com um amplo salão de dança, a igreja matriz, majestosa no seu estilo barroco, e as mais importantes ca¬sas comerciais. Tudo, ali, levava-me a lembrar de minha própria cidade, a não ser numa particularidade que, no desenvolvimento do texto, ficará escla¬recida, mas ela em nada afeta o caráter de seus moradores - um povo sério e trabalhador.
 
Nos domingos e feriados, pelas manhãs e às tardes, para esse logradouro afluíam as famílias do lugar e, com isso, buliçosas crianças eram vistas brincando por entre os canteiros do grande jardim. Já às noites, era o local de encontro dos homens, que formavam grupos no interior da praça ou às portas dos bares, para falar em brigas de galos, em religião, em política e, com absoluta predominância, no futebol. Já entre os jovens, normalmente os assuntos eram outros; porém um deles, justamente o futebol, também fazia parte dos seus comentários. E nas conversações em que exteriorizavam seus sonhos e planos para o futuro, sempre vibrando otimismo, tanto os rapazes como as moças também falavam nesse esporte. Aliás, um assunto para o qual toda a população atribuia uma importância muito especial.
 
A cidade contava com apenas dois times - o Esparta e o "Galo" -, e o curioso, no caso, e talvez por existirem somente estas duas equipes, em boa parte dos lares os membros das famílias se dividiam em torcedores rivais. Essa paixão futebolística ia muito, mas muito além do que seria o razoável. Era de tal forma inflamado o interesse de todos pelo resultado de uma partida entre os dois clubes, que uns dias antes e outros após a sua realização, um marido chegava a não conversar com a esposa, irmãos evitavam se falar ou, até, entravam em ásperas discussões.
 
Na minha terra, que eu me lembrasse, mulheres nunca demonstravam um maior entusiasmo pelo futebol, a não ser se houvesse algum jogador considerado bonito. No caso, seria por ele e não pelos times a presença delas no Estádio.
 
Mas, ali, era realmente diferente: as mulheres tinham uma fixação futebolística tão grande quanto a dos homens. E tanto eles como elas consideravam os resultados dos certames, como um ponto de honra, quase um caso de vida ou morte.
 
Certa feita, à véspera de uma partida em que se iria decidir o campeonato do ano, à noite eu estava conversando com um grupo de amigos à frente do cinema. Alguém me perguntou qual dos times eu achava que seria o vencedor. Desavisadamente e em voz alta, respondi que seria o Esparta. No mesmo instante um rapaz, que estava passando, pertencente a uma das famílias mais influentes do lugar, voltou-se e me fitando, com postura e modo acintoso, indagou:
 
__ Quer repetir o nome do time que você diz que vai ganhar?
 
Ora, eu não era da cidade, e pouco me importava qual fosse o resultado do jogo... Olhei bem para o moço, analisei a situação... Valeria a pena entrar em briga, com a possibilidade de levar a pior – o caboclo era um verdadeiro armário -, por um assunto tão bobo? Depois, eu falara apenas para participar dos comentários na rodinha de amigos. No entanto, não me era nada agradável proceder de maneira covarde, deixando-me intimidar. Assim, tive de me encher de coragem para dar uma resposta destemida, esclarecedora e com entonação semelhante a que eu fora abordado:
 
__ Olha aqui, ô moço, eu não sou desta cidade, e você deve saber disto. Na verdade, não conheço os times e nem os jogadores, falei por falar!
 
__ É, mas eu ouvi muito bem você dizendo que o Esparta irá ganhar!
 
__ Ora, Já lhe disse, falei por falar e acho que não é caso para desentendimentos. Gosto desta cidade e não desejo fazer inimizades por razões que não me dizem respeito.
 
__ É ... Tá bom! Mas, daqui para frente, procure ter mais cuidado com o que diz. – Virou as costas e se foi.
 Respirei aliviado, mas sem deixar de, “intimamente”, gritar:
 
__ Seu ignorantão! Besta! Vá para o inferno!
 Acabara de escapar de um possível conflito, que teria sido causado  por algo que não teria o menor propósito.
 
Na pensão em que morava, o proprietário, a exemplo do que ocorria em outras residências, não estava falando com a esposa. E merece registro o que se passava na casa dos sogros dele. Dois de seus cunhados – caminhoneiros – eram considerados os melhores jogadores da cidade. Acontece que um era titular do Esparta e, o outro, do “Galo”. Pode-se imaginar o ambiente nessa casa, nos dias de certame...
 
Ante o entusiasmo de tanta gente pelo resultado do campeonato, acabei deixando-me influenciar e decidi que iria assistir o jogo. No dia seguinte, na companhia de dois colegas de Banco, segui para o Estádio. Chegando, fiquei realmente admirado ao ver tão grande número de espectadores, diferentemente do que acontecia na minha cidade. O local contava apenas com modestas arquibancadas em alvenaria e, assim, a maior parte dos frequentadores tinha de ficar em pé. E de um modo natural, eles se posicionavam em lados opostos do campo, acotovelando-se junto do alambrado, feito de grades de madeira e com aproximadamente um metro e trinta de altura. Tal proteção não me pareceu nada segura.
 
Algo ali me causou nova surpresa: antes mesmo do início do jogo, podia-se ouvir a troca de pesados insultos entre as platéias e, numa atitude ainda mais inédita, o Juiz, antes que tivesse entrado em campo, já estava sendo xingado, e também a sua progenitora.
 
Eu me mostrava hesitante, com relação ao lado do Estádio em que deveria ficar. Porém, um dos colegas de trabalho, foi logo dizendo:
 
__ Vamos conseguir uma boa posição lá do outro lado, junto aos torcedores do “Galo” que é o nosso time. E, depois, queremos que o nosso colega nos veja torcendo por ele!
 
Ah! Pois é: um dos jogadores do “Galo” era também nosso companheiro de trabalho e diziam que se tratava de um temível artilheiro. Pouco após nos posicionarmos em trecho próximo á pequena área, bem junto do alambrado, constatei que ficara ao lado do rapaz que, na véspera, arrogantemente se dirigira a mim. Ao me ver, abriu um largo sorriso e me deu amistoso tapa nas costas, pronunciando-se:
 
__ Ora, ora! Se eu soubesse que você estava é brincando e que é torcedor do “Galo”, não teria lhe falado daquela maneira. Agora sim, estou contente – você soube escolher o seu time. Vamos torcer juntos.
 
__ É... Bem... Está certo!
 
No entanto, é provável que o moço nem tenha ouvido ou prestado atenção na minha guaguejante resposta, pois ele, cheio de agitação, estava ocupado em espinafrar a outra torcida.
 
E debaixo de uma gritaria infernal, o jogo teve início. A disputa de pronto mostrou-se a mais “quente” e se desenvolveu com absoluto empenho de ambos os times. Faltas e mais faltas eram cometidas, deixando o Juiz meio desnorteado. E os espectadores, a cada instante mais febris, empurravam os jogadores para um embate que vinha se tornando demasiadamente violento. Fazia-se em meio a um xingatório verdadeiramente insano. Se bem que, felizmente, ficava só no palavrório, não vi ninguém atirando qualquer objeto em campo. Veio o intervalo, com o marcador assinalando 3 x 3. O descanso estava sendo somente para os jogadores, pois as torcidas, enfesadas e agressivas, em alto e bom som, continuavam trocando “gentilezas” de toda ordem.
 
Nos últimos minutos do final do segundo tempo, com a partida empatada por cinco a cinco, eis que o Juiz deixa de marcar um evidente penalte contra o Esparta. Jogadores do “Galo” cercaram o Juiz e lhe faziam ameaças, as torcidas berravam enlouquecidamente, ao tempo em que forçavam o alambrado, até que ele cedeu a tamanho ímpeto e tombou sobre o gramado. Então, quais estouros de boiadas, de um e de outro lado do Estádio, espectadores enfurecidos invadiram o campo. As mulheres segurando sombrinhas com os cabos para servirem de tacape. Já os torcedores se encontraram no meio do campo e se agrediram, com murros, tapas e pontapés. O valentão da véspera, que ao meu lado já estava rouco de tanto gritar, engalfinhou-se com um outro tipo tão forte quanto ele. Eu procurei sair e cheguei a levar alguns sopapos e uma pancada de cabo de sombrinha.
 
O tumulto duraria por poucos minutos, pois depressa alguns homens, bastante fortes – certamente contratados para tal finalidade -, ajudando os poucos policiais presentes, conseguiram que a ordem fosse restabelecida. Felizmente ninguém usou de armas, e todos puderam sair dali, apenas com escoriações. E uma nova partida foi acertada para que o campeonato viesse a ser decidido.