Tenho a impressão de que foi no começo da década de 50 que assisti ao filme Por quem os sinos dobram, extraído de um romance escrito em 1940 por Ernest Hemingway, estrelado pelos monstros sagrados do cinema Gary Cooper e Ingrid Bergman. O romance era uma referência a um poema, e trata dos horrores da guerra civil entre irmãos, “quando morre um homem, morremos todos, pois todos somos partes da humanidade”. Portanto, os sinos dobram no extremo de nossas vidas para todos nós. Ernest Hemingway (1899-1961), jornalista, romancista, contista, novelista, participante da Primeira Guerra Mundial, onde foi gravemente ferido, pertenceu a denominada Geração Perdida, fase em que os autores americanos buscavam a liberdade, uma vez que se achavam desorientados e desiludidos com as limitações culturais da sociedade americana do após guerra. Hemingway, considerado prodígio no modernismo americano, chamado de papa desde os vinte anos de idade, já aos cinquenta e um assemelhava-se a uma pessoa idosa, mergulhado num oceano de bebidas, doenças (hipertensão, cirrose, lesões físicas provenientes da guerra, queimaduras resultantes da queda de dois aviões), levou uma vida cheia de aventuras. Não importou com tudo isso. Era fascinado pela vida ao ar livre, pelas emoções perigosas, por atividades físicas vigorosas, como, por exemplo, as touradas, as caçadas de animais selvagens e pescarias. Recebeu os prêmios Pulitzer e Nobel de Literatura. Produziu textos onde os personagens eram indivíduos viris, que viviam as asperezas da guerra. Suas obras – Adeus às armas, O sol também se levanta, As neves do Kilimanjaro, e principalmente, O velho e o mar, tornaram-no o ícone, dentre outros escritores, como um dos representantes da Geração Perdida. Vou narrar, nesta crônica, dois episódios curiosos de sua vida: a história dele com Cuba durou vinte e um anos, tempo em que viveu na cidade de San Francisco de Paula, a doze quilômetros de Havana. Lá se acha o barco em que costumava pescar e que o inspirou no clássico O velho e o mar. Com uma imagem tão presente como a de Che Guevara, os locais por onde o escritor esteve transformaram-se em pontos de atração turística. Em Havana, o bar La Bodeguita del Medio e o restaurante El Floridita eram os seus preferidos. Neles, passava muitas horas bebendo daiquiri, e outros destilados. A casa dele se tornou um museu, que abriga sua máquina de escrever e objetos pessoais. Casou-se quatro vezes. Em 1944, documentando a luta entre os aliados e os alemães, na fronteira entre a Alemanha e a Bélgica, matou um soldado nazista, fato que quase ninguém sabe ou deixa de divulgar. Documentos oficiais do FBI obtidos pelo jornal The Sunday Times revelaram que ele trabalhou como espião para o EUA quando viveu em Cuba no início da Segunda Guerra Mundial, na época governada por Fulgêncio Baptista, derrubado por Fidel Castro em 1959, de quem se tornou, depois, muy amigo até seus últimos dias. Não há registro de que ele tenha passado informações estratégicas para o governo americano. Suicidou-se em 1961, e é dele esta afirmação: um escritor realiza sua obra na solidão. E se for suficientemente bom, deve cada dia enfrentar a eternidade ou a ausência dela.