Acabo de ler “Ela é carioca”, de Ruy Castro. Pensei que o livro tivesse sido lançado neste ano. Não o foi, pois já está na sua 3ª edição. Não importa. Trata-se de uma divertida enciclopédia com a história e personagens do badalado bairro carioca de Ipanema. São 231 verbetes que retratam as fascinantes figuras e pontos de encontro que, naquela faixa de terra à beira-mar, influíram na formação cultural brasileira. Nesse livro, o leitor se deliciará com fragmentos biográficos de Tom Jobim, Leila Diniz, Rubem Braga, Tônia Carrero, Millôr Fernandes, Vinícius de Moraes, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Paulo Francis, Fernando Gabeira, Roniquito de Chevalier, irmão de minha querida Bárbara, inventor da palavra aspone, e de muitos outros que fizeram daquele bairro o centro das atenções dos que só viam Copacabana como um sonho a ser realizado. Lançado em 1999, e agora reeditado, merece ser lido por todos os que se deslumbram com os fetiches da cidade maravilhosa. Ruy Castro, conta, por exemplo, que o hoje comportado deputado federal Fernando Gabeira, no final dos anos 70, tinha acabado de chegar do exílio, década em que no Brasil a liberação dos costumes ainda engatinhava e ele comemorava sua volta ao país. Então, resolveu armar um circo na praia de Ipanema. Cobriu seu esquelético corpo, uma verdadeira ossada ambulante, com uma minúscula tanga de crochê que se tornou o símbolo definitivo da abertura política. Mas, o que pouca gente sabe (ou sabia na época) é que tão comentada tanguinha lilás verde, na verdade, não passava de uma calcinha emprestada de sua prima, a apresentadora de televisão Leda Nagre. E não é só a história envolvendo Gabeira que nos motiva a ler o livro. Outras passagens interessantes e saborosas como esta já valem a leitura de mais esta obra de Ruy Castro, que já nos brindou com “Chega de Saudades”, alentados retratos da bossa nova, “Estrela solitária”, vida do polêmico Garrincha, e, ainda, o “Anjo Pornográfico”, que talvez seja o melhor perfil escrito sobre a vida do dramaturgo, escritor e jornalista Nelson Rodrigues. Aquele que ler “Ela é carioca”, vê que Ipanema, aquele estreito pedaço de terra situado entre o oceano Atlântico e a Lagoa Rodrigo de Freitas, foi e continua sendo um laboratório que exprime o comportamento moderno do Brasil, um território do sexo sem culpa, das mulheres liberadas e dos homens que tiveram de se reeducar para conviver com elas. É só o leitor debruçar um pouquinho que seja sobre esses verbetes, tão bem escritos pelo Ruy, que verá por que Ipanema nasceu marcada para ser o que foi e o que é.