Para espichar os lucros, quem planejou o condomínio fechado reformou a natureza. Alisou morros, arrancou árvores. Ficou a paisagem regular conforme o design dos esconderijos murados. Geométrico, asséptico. Ao lado, moitas de florestas, incômodos legais do meio ambiente. O comprador paga a terra, o ar, a urbanização, o céu, o sol, a chuva, a visão caolha do sobejo de mata. Incluído no preço do lote, o vento, o silêncio, até o vôo e eventual canto de um pássaro, além do gradil prisional circundante. Não vou aborrecer o leitor com história de presídios de luxo. Falo da teimosia de um casal de pássaros. Bichos, para alguns, incômodos. Outro dia, o jardineiro me falou que uma moradora queria contratá-lo para dar fim a uns quero-queros que catam insetos pelos gramados. A delicada senhora não suportava os vizinhos emplumados, anoréxicos, soltando grasnidos agudos a cada revoada. O jardineiro não aceitou a sugestão e as avezinhas continuam nos gramados, passinhos aéreos sobre as pernas finas, vôo macio no vento e grasnidos de alerta. Tenho tentado fazer amizade com algum pássaro. Nada fácil. Como derrubaram todas as árvores e removeram a camada fértil do terreno, as novas plantas demoram a crescer. Apenas vegetais de jardim conseguem sobreviver. Plantadas na pedra ou na piçarra, outras apenas resistem. Em casa há um cantinho onde cultivo pequena horta. Ervas: chás e temperos. Um dia desses, ao expurgar as daninhas, descobri um casal de coleirinha. Passarinho humilde que freqüenta as espigas de capim e os matos baixos. A dupla fez o ninho exatamente nos ramos mais altos de meu pé de alecrim. Lá estavam dois ovos minúsculos. Poucos dias depois eclodiram em filhotes desnudos. Os pimpolhos tinham uma única expressão: abrir os bicos desproporcionais em contínua demanda de comida. As revoluções feministas ainda não haviam chegado à sociedade dos pássaros. O pai apenas supervisionara a construção do ninho, nem se aproximava da prole. A mãe multiplicava-se em idas e vindas para alimentar os gulosos. Como pequeno adjutório, coloquei à sua disposição uma vasilha com alpiste, colza, níger, painço e outras sementes surrupiadas do canário belga. Foi providencial. A avezinha já não precisava ir longe. Abastecia-se a poucos metros do ninho e assim provia, a gordas bicadas, a fome dos filhotes. Em poucos dias, começaram a sair do ninho, pousar nos arbustos da horta, aos pios, ainda aos cuidados da mãe. Num desses dias, vi que iam mais longe, atravessaram o muro, a avenida e ganhavam o pedaço de mata próxima. Em fim, desapareceram. A mãe também não voltou. Abandonou a vasilha de provisões abarrotada de preciosas sementes. Preferiram outros espaços, talvez a aventura do vôo, talvez a distância da suspeita proximidade humana. Quem sabe, um mistério que só a inocência conhece, os prazeres e os riscos, que imemorialmente, sustentam as almas e os passarinhos.


