Chovia aos borbotões. Era janeiro. E a água jorrava impetuosamente. Lá fora, a aguaça engolia tudo, arrastando latões de lixo, galhos de árvores, pedaços de muro, e até concreto de meios-fios solapados. A cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro parecia entregue às gigantescas sucuções de um dilúvio. Relâmpagos dilaceravam a escuridão dos céus, naquelas tardas horas da madrugada, cuspindo a faísca irisada dos seus raios, e provocando apagões repentinos nas redes de iluminações públicas e domésticas, da exótica metrópole.
- Que fandango doido é esse aí na cozinha, Psi? Pô, tu não dormes nem com esse pampeiro de água desabando sobre nós, aqui nessas moradas de morros da Gávea? Tens o cão no corpo, caroço de lobisomem na alma, seu porra? Aquietes pois aí. Anda. Apagues esta luz e metas o focinho no travesseiro – falei, contundente.
Não adiantou. O infeliz continuou de pé, feito assombração, andando para lá e para cá, com os originais do seu novo livro de poemas, na mão. Insone. Carrancudo, o doutor Luís Sérgio dos Santos, formado em Psiquiatria, paradoxalmente era um candidato em potencial à esquizofrenia, com periódicas crises de ciclotimia. Um doido dentro de casa, médico e poeta.
Para cujo conteúdo dos seus poemas ele se inspirava nas teorias de Einstein, de Planck, de Bohr, misturadas com mecânica quântica, Budismo, Zen, Teologia, Ciência e William Blake. – O apóstolo Pedro foi mais conciso, dizia ele: Apokatastasis pantom. Traduzindo: “A renovação das coisas”.
Naquele ritual de noctâmbulo, entre paredes, o doutor Psi endoidou-se de vez e começou a sessão de quebra-copos. E quebrava e quebrava copos e mais copos, arremessando-os contra as paredes da cozinha, inteiramente revestidas de azulejos. Súbito silêncio instalou-se. E o amplo apartamento respirou ar de cemitério, e até as troadas da chuva com o louco assovio dos seus ventos tornaram-se mais lúdicas e poéticas de se ouvir, debaixo das cobertas.
O bardo, que também era um aficcionado amante da nudez, inexplicavelmente, e de repente, eu vi: aquela coisa esquisita, draconianamente plantada ali, bem defronte à minha frente; aquele homão branquelo e pelado, no meio da sala, no meio da madrugada, executando a um só tempo as tarefas de revisar os textos do seu livro Deus Não Joga Dados, coar café, dar risadas, telefonar e quebrar copos. O Psi, o grande Psi, dentro de suas faculdades mentais, não era um homem, era um fantasma, mistura de um bicho mitológico com a ficção de Frans Kafka. O Psi.
Não dormi, eu que tinha fedor de cerveja debaixo das axilas, perdi o jeito de me acomodar – sonolento, insone? – naquele leito do rústico quartinho de fundos. O céu desabava em água, chovia torrentes de chuvas, chovia. – O relógio não sai do lugar, meu Deus, o que faço com a presença desse doido? É já que resolvo essa cangaça, pensei. Eu vou me levantar ir até a cozinha, abrir a geladeira, e começar tudo de novo; encher o caco de cerveja até o dia clarear. Quero ver se ele me aguenta?
O Psi ao telefone falava: “Não, Não. Amanhã mesmo, eu me medico e me interno. Tem nada não... depois eu volto a atender os loucos da América Latina, que me procuram lá no Pinel, cumprindo os meus horários de plantão... Ah, não deixe de dar mudas de alface para a sua criação de sapos, aquela que você tem aí debaixo da sua cama. E a sua namorada, aquela boazuda-filha do prefeito, ainda sai com ela? Ah, legal! Tchau. Estou sobre o trono, tomando café e relendo a minha obra”. A ligação caiu e ele continuou a loqüela, sozinho, por mais de 50 minutos, soltando o barro.
(Publicada em 05/10/2004, Jornal O Popular)


