Pois vejam só, que sorte a minha. Nascer mulher, brasileira e, melhor que isto: nascer em Goiás. Terra da verve de Ana Braga, Augusta Faro, Cora Coralina, Darcy Denófrio, Heloisa Helena, Lêda Selma, Malú Ribeiro, Yêda Shumaltz e  Rosarita Fleury. Quanta honra para Goiás pertencer a estas que, nesta crônica, representam as goianas literatas. Mulheres cuja beleza interior transborda em ânsia poética e  delírios cognitivos. Perdoe-me leitor querido e permita-me só por hoje, neste oito de março, quedar-me em reverência a mulher goiana e a sua verve literária.
 

Antes, eu gostaria de convidá-lo ir comigo á Inglaterra e aprontar seriais travessuras com Agatha Christie. Depois à Ucrânia nos emocionarmos com a literatura gritante em defesa da mulher de Clarice Lispector. Em seguida voltar ao Brasil e encontrar-nos com Nélida Piñon numa praia do Rio de Janeiro e viajamos em seu romance “Madeira Feita Cruz” que não é outra coisa senão a irradiação do espírito feminino, rompendo os limites do mundo. Num repente entrarmos na “Ciranda de Pedra” de Lígia Fagundes Teles em São Paulo e constatar que Lígia transcendeu a frieza daquela cidade. Tanto faz, a luz de São Paulo é a verve de Lídia. 
 

Após essas viagens, começaremos a admirar e compreender a importancia da literatura feminina, pois vimos a obra superlativa de Raquel de Queiroz traduzida em vários idiomas, levando ao mundo seu estilo denso de uma mulher à frente, muito à frente de seu tempo. Então, leitor, voltaremos à Goiás e nos veremos presos aos “Elos da Mesma Corrente” de Rosarita Fleury e nos sentiremos grandes, fortes e inoxidáveis. Flutuaremos na bolha de sabão de Yêda, contaremos causos  cômicos com Lêda; embarcaremos nas aventuras infantis de Augusta; mergulharemos nos versos liricos e saudosos  de Heloisa e seremos cativos com gosto á prosa poética de Malu. Mais tarde, compraremos bilhetes, só de ida, ao Universo incomparável de Darcy e nos poemas de Ana Braga seremos voluntários a mercê de suas quimeras.
 

Então seremos capazes de existir e sairemos da confabulação para a reflexão. A uma reflexão que me perdoe a ressalva leitor: mas, Portugal deu-nos Virgínia Woolf, a Inglaterra deu ao mundo Agatha Christie, a Ucrânia deu-nos Clarisse Lispector. O Ceará deu-nos Raquel de Queiroz, São Paulo deu-nos “A Muralha” de Dinah Silveira e Lígia Fagundes Teles. Mas Goiás, reicidente leitor, deu-nos dezenas de escritoras, cujo talento poético e narrativo tramscede o que eu posso descrever em 3.500 caracteres. Por isso, incondicionalmente encerro esta crônica com a singela descrição de um ser mulher: “A gleba está dentro de mim. Eu sou a terra/(...) A gleba me transfigura, sou semente, sou pedra./Em mim a planta renasce e floresce, sementeia e sobrevive./Sou a espiga e o grão fecundo que retornam à terra./Eu sou a terra milenária, eu venho de milênios./Eu sou a mulher mais antiga do mundo, plantada e fecundada/No ventre escuro da terra”.(CORALINA, 1985, p. 107-109)