O passado era isturdia. O anteontem com medo do esquecimento transmutou-se para o ontem e este, lépido, pulou para o hoje que, de tão rápido, já antevê o amanhã. Vertiginosamente, o tempo histórico tem escorrido como água ligeira debaixo da ponte, sem tempo ao menos para a contemplação do que passa. Águas revoltas que vão rápidas lambendo a tabatinga dos barrancos na busca de outros horizontes. Temos, nesses dias escorregadios, saudades profundas do futuro. 

E ao lembrar os versos de Nars Chaul e Fernando Perillo: “Te vejo inteira em metade das coisas”, assim é possível conceber a vida, os fatos, os acontecimentos, tecidos sob a égide do que fomos; nossas raízes latejantes, quebrando o frio concreto do hoje, ao trincar o negrume do asfalto. É necessário que a existência seja vista inteira, embora a fragmentação que se impõe cada dia, na tessitura de nossos passos.
 
O signo atual tem sido a pressa, o automatismo, a fluidez, a acessibilidade. Palavras novas se incorporaram ao velho idioma em que “Camões chorou no lento exílio, a última flor do Lácio”, como, um dia, cantou o vate Olavo Bilac. Palavras impulsionadas pela pressa ligaram-se ao cotidiano das pessoas nesse século XXI e por elas somos plugados à rapidez sem significado em que nos vemos assolados pela angústia do tempo.
 
Não mais a lembrança dos versos de Danilo Caymmi e Paulinho Tapajós: “Olha a lua mansa a se derramar/ ao luar descansa meu caminhar”. Onde o descanso nos dias hodiernos? Tantas conquistas, tanto conforto e tão pouco repouso, na suavidade de uma noite que começa em ternuras de silêncios diluídos! Onde a quietude?
As ruas, hoje, são palco de atores enlouquecidos, apressados, de olhos arregalados, fixados nos relógios ou nos aparelhos celulares, em meio aos carros enfurecidos e sem tempo para esperar o outro. 
 
Todos correm e o dia ficou pequeno para tanta coisa. Já há cidades que não dormem, com horário comercial “normal”, a partir das vinte e quatro horas! Cidades de homens de olhos secos. Cidade sem a paz do sono. Descansar é coisa pretérita. Cidades que não têm nem mais assombração, pois onde está o escuro para elas? O medo agora é do próprio ser humano, não do sobrenatural.
 
Vivemos a Geografia da pressa imensurável no itinerário dos homens!
 
Sobram, hoje, os meios eletrônicos de comunicação e de informação, enquanto desaparecem os gestos e as amabilidades que d’antes amenizavam a vida e emprestavam significado às relações humanas. Não há mais tempo para o olhar, para uma visita, para a escuta. Quem hoje visita um doente, um amigo, um parente? Televisão e computador acabaram por sepultar o diálogo no recinto doméstico. Onde as horas cálidas de se ouvir um pai e uma mãe, um amigo a nos recordar tempos ditosos?  Onde ouvir “bença pai/bença mãe” para dormir? Saudade existe?
 
O passado era lento, suave, viscoso, “amassando barro”, patinando na lama sem sair do lugar, em dias pachorrentos e intermináveis, com a contagem das horas no pinga pinga do sol, com medo de se esconder atrás da serra. Depois, vinha um grande guarda sol preto que cobria o infinito, salpicado de diamantes, que eram estrelas. A lua vagava lenta e preguiçosa no céu, como uma camélia branca e perfumada, que se arrastava com medo de um novo dia.
 
Divagações poéticas...
 
E nessas elucubrações, aliamos ao pensamento de Foucault: “O legado da antiguidade é, como a própria natureza, um vasto espaço a interpretar; aqui e ali é preciso recolher sinais e pouco a pouco interpretá-los”. Esse é, deveras, nosso papel histórico, na Geografia de todas as sensações ante o mundo que nos rodeia, pois tudo que existe vem carregado de infinitas significações.
 
Andar sempre foi o fadário humano. Caminhar, seguir. Muitos caminhos não têm volta, como nos exorta o Evangelho de Reis 13:19: “ Porque assim me ordenou o Senhor pela sua palavra, dizendo: Não comas pão, nem bebas água, nem voltes pelo caminho por onde vieste.” A vida humana se assemelha a uma longa estrada, com tropeços e pedras, que deve ser seguida a qualquer custo. 
 
Assim caminhou a humanidade nas contradições e desacertos próprios de cada tempo. É atribuição da Geografia o desvendamento dos percalços ou não dessa caminhada e as modificações que se processaram no espaço, ao longo do tempo.
 
“Não há na profundidade dos mares, nada há nas alturas do firmamento que o ser humano não seja capaz de descobrir” escreveu Foucault. Mas, como descobrir a si mesmo e as possibilidades de gratidão e acolhimento? Por que o ser humano anda tanto em busca do quê? 
 
Andar é nossa sina, nosso castigo. Flanar, deambular, “bater perna”, “comer pé de cachorro”, “estar como galinha do pé queimado”, são expressões das mais técnicas às mais populares, os diversos axiomas para o nosso gosto pelo vagar, vagabundear, ou mesmo bestar. Até o grandioso Mahatma Gandhi (1869-1948), no alto de sua sabedoria destacou: “Não há caminhos para a paz. A paz é o caminho”. Caminhamos todos nós, na vida a nos levar.
 
Em 1895, o imortal Machado de Assis, em sua coletânea de escritos publicados em A Semana, já destacava o quanto o andar é comprometido pelo aprofundamento: “Quem põe o nariz fora da porta, vê que este mundo não vai bem”.  Há grande verdade nas palavras do autor de Dom Casmurro. Estar no caminho significa ser participante dos embates de todas as estradas. Não existe um andar distanciado dos espaços que seguimos nas diferentes paisagens que o horizonte nos descortina.
 
Todas as categorias geográficas nos evidenciam que a mobilidade sobre o mundo constitui o fadário humano na modificação compulsória que nos urge realizar. Modificamos o espaço e este também nos modifica, sobremaneira. Tudo se move com o significado da evolução, mesmo que esta seja questionável no sentido dos valores perecíveis como fraternidade e igualdade entre todos os homens.
 
Não há um caminhar solitário; não há um único caminho certo, mas possibilidades de caminhos e, a única saída ao infindável mistério da jornada humana é o caminhar. Seguindo leis maiores, todo o universo se move em sentido e significado. O mundo é um caminho.
 
Renato Teixeira e Almir Satter conseguiram, em forma de versos, destacar com sensibilidade, o ato de seguir: “Ando devagar porque já tive pressa. E levo esse sorriso porque já chorei demais. Cada um de nós compõe a sua história. Cada ser em si carrega o dom de ser capaz. De ser feliz”. Os dons da transformação estão presentes em cada ser humano no seu espaço, nas suas relações, no seu ideário histórico.
 
Há uma Geografia da pressa, da instantaneidade. Mas urge parar, no sentido de que o homem descubra, nesse hiato do tempo, a perdida paz que não tem preço.
 
 
*Bento Fleury (Bento Alves Araújo Jayme Fleury Curado). Mestre em Literatura pela UFG. Mestre em Geografia pela UFG. Doutorando em Geografia pela UFG. Escritor. Pesquisador. Poeta. Professor. bentofleury@hotmail.com