A linguagem de “Couto de Magalhães – O Último Desbravador do Império”, de Hélio Moreira metamorfoseia-se em várias facetas lítero-linguísticas. 

  Lítero, no seu assomo de ficção, linguística na sua duplicidade escritural. Deste modo, o cenário ficcionista é aquele em que o autor oferece um depoimento escandido em uma das mais sugestionadoras nuances do realismo fantástico ou mágico (também conhecido, paradoxalmente, como ficção real), plenamente cabível e aplicado como verniz estilístico nesta pletora de dicções estético-linguísticas que é “Couto de Magalhães - O Último Desbravador do Império”, pois o texto é um encenamento histórico para o qual podemos invocar, também aquela sagacíssima expressão de Linda Hutcheon ao classificar os romances de Umberto Eco como “metaficção histórica”. 

  Contudo, sabemos que o realismo mágico é sofismático, camaleônico, de flexíveis nuance: 

torna o real em ficção e vice-versa, funde o racional com o irracional, o natural com o sobrenatural.

  Pois, de passagem, lembremos que todas estas características e bizarrices, comparecem, pelo menos em única escala, principalmente na 1ª parte do livro de Hélio Moreira. Porém, o que se crava mais agudamente é a imantação do realismo fantástico à Jorge Luís Borges, de faiscação multicor, tendo sido, contudo, amplamente assimilado e implodido no Brasil, pelos nossos escritores, avidamente bebido  em Gabriel García Márquez , de apoteótico sucesso com “Cem Anos de Solidão” 

(que continua encantatório até hoje nas Américas e já contaminou o resto do mundo).

Hélio Moreira, daí, nesse item de fosforescente realismo fantástico, à entrada do 1º capítulo, respinga justamente este revestimento estético em uma cena na qual o leitor fica sob esfuziante cintilação verbo-ficcional (aliás esse mesmo recurso pode também ser já visto no resplendente e atordoante 1º capítulo de “Chatô, Rei do Brasil”(1994) de Fernando Morais.

Dissera-o, de início, que os primeiros caracteres destacados neste livro,eram duas das mais inusitadas, portanto, choque- impactantes facetas colocadas em contraponto: a ficcional de alegórico mágico, de que já tratamos e a linguística em que o discurso de Hélio Moreira se transmuta e postula uma sensacional dialética narrativa: na 1ª parte, em cenário de sertão bruto, ele discorre em dialeto caipira, contudo elaborado em nível de literatura confabulada, em fraseologia de configuração, plasmação  e dotação de arte (não aquele melífluo sertanejo por pobreza intelectual que muitos autores usam, depois de Guimarães Rosa – a metalinguagem insuplantável- por acharem que só aplicar o solecista vocabulário caipira já seja literatura. Na 2ª parte, há uma mutação estetizante de desassombro, pela surpresa estilístico – palatável que se apodera imediatamente  do leitor. Este passa a perceber em diante, como se fora outro livro, (e cá me relembrar que a 2ª parte das canções de Orestes Barbosa – a paleta multicor do urbanismo carioca – quase nada tem a ver com a 1ª – e João Guimarães Rosa, no mesmo “Grande Sertões: Veredas” – impacta-nos com três diferentes, arrebatadoras dicções estilísticas)

  Hélio Moreira opera uma sutilíssima metamorfose escritural: o seu facetamento estilístico na sua dicotomia lítero-estilizante transita de um jocoso caricaturista do onírico, do inconsciente macunaímico do cenário sertanista desbravado no Brasil imperial,para uma linearidade, e um diapasão de contenção coloquial, do aristocrático e centenial histórico hierárquico cenário de Londres. Entre muitos outros caracteres que se podem ainda apontar em “Couto de Magalhães – O Último Desbravador do Império” (por exemplo: o fluxo de consciência habilmente mesclado à moldagem criptográfica e outros elementos do seu estilo) conferem inúmeros méritos (história, Literatura, etc.) ao autor. A isso se somam ainda variadas gestões que ele implementa em sua bagagem intelectiva e profissional, as quais  fazem de Hélio Moreira uma prodigiosa referência na Cultura Brasileira. 


(Do livro “O Senso de Obra Aberta na Literatura e o Modelismo Conjuntivo da Atualidade”)