A região do vale do Paraíba é uma das mais antigas do Brasil. Os pesquisadores querendo fuçar os antanhos dos comportamentos nas mais arraigadas e autenticas tradições, não é preciso ir a outros lugares.

Dali o grande Monteiro Lobato criou o seu imortal Jeca Tatu, copia a carbono dos habitantes do vale. É um dos escritores preferidos quando desperta a minha memória olfativa e visual do capim gordura, na sua floração roxa, comum no vale e nos contrafortes da Serra da Mantiqueira.O grande escritor, ele mesmo um quadradão, sabe-se o quanto era refratário às inovações, foi o arauto das inúmeras comunidades, ordens e irmandades – colégios e educandários da região. Parece que um gene da mesmice subiu pelo Rio Paraíba, vindo de além-mar.
 
Naturalmente que estamos falando da década de 1940 muitos anos antes dos desenvolvimentos do vale, quando se tornaria pólo de industrias pesadas e de alta tecnologia.
 
São José dos Campos nessa época era uma cidade pacata e não se destinguiria das outras se não fosse uma estância de tratamento para tuberculosos. Não era bem vista pelos passantes que escondiam os sensíveis narizes com seus lenços embebidos em álcool; proteção do ar empestado.
 
Essa conduta ineficaz e absolutamente falsa dos mal informados, não impedia que a cidade fosse conhecida em outros meios, como guardiã dos preceitos da mais sadia moral.
 
As igrejas fossem de qualquer rito ou doutrinas; Católicas, Evangélicas, Espiritistas ou Afro-brasileiras viviam abarrotadas de fieis. É claro, a religião é sempre companheira da morte: esse misterioso evento nunca solucionado e assustador.Deste modo a cidade e seus departamentos especiais; cartórios, cemitérios, delegacias; igrejas, templos e tendas funcionavam 24 horas.
 
Como a tísica ainda ceifava milhares de vidas jovens todos os anos, seguia-se o único método de cura desenvolvido até então: Frio, ar puro, alimentação rica, repouso, vida casta e o resto eram com o sujeito, com sua fé, ou com a sorte. Conheci muitos e outros tantos foram meus amigos que conseguiram se curar e fixavam residência permanente na cidade. Assisti a morte de muitos nos hospitais ou nas pensões. Estive conversando com um amigo e 40 minutos depois estava morto, vitimado por uma hemoptise violenta. Segurei a mão de um poeta, nos últimos suspiros, enquanto ele me pedia para cuidar da sua obra que consistia em um único soneto, profundamente religioso, com mensagens de fé e esperança. Ainda tenho o pequeno cartão impresso.
E.S.T.& Telêmaco S.A.,era um conceituado estabelecimento de ensino. Eu estudei lá um semestre de desenho técnico e acabei descobrindo o que era as misteriosas iniciais do nome de fantasia do colégio. E. S. T. que eu julgava as iniciais de um sócio ou vários deles, era nada menos do que isso: Estudo. Santidade. Trabalho.  O dono; Telêmaco de Almeida: professor, diretor, supervisor e mais alguma coisa, chegando às vezes ao cargo de faxineiro.
 
Mas, sobretudo era defensor intransigente da moral. Ora, a moral atada à ética nos estudos superiores da filosofia se refere aos comportamentos dentro da sociedade ou de uma comunidade. Um ato moral carrega no bojo visões amplas e belas de justiça e respeito e a ética se encarrega da aplicação na comunidade. As lucubrações filosóficas já de muito esqueceu a verdadeira origem da moral que se refere à instalação de uma sociedade provinda do caos da pré-história onde, não se marcava ainda os limites da sexualidade.Não temos espaço para aprofundar nesse tema o que faremos em outra ocasião.
O certo era que o Prof.Telêmaco alem da eficiência nas matérias em que era especialista: geografia, historia, matemática e a menina dos olhos; moral e cívica - nessa matéria, era ajudada por Manuelina, a secretaria , uma mulher que de beleza só tinha o intelecto. Os dois eram carne e unha. O professor fazia grandes discursos sobre a cívica e quanto à moral eram – diretor e secretaria, verdadeiros cães de caça a procura do menor deslize ou abuso de confiança.
 
Os alunos – eu inclusive – colocava mais a atenção no seu esquisito bigode que encobria um lábio chupado, e que de um lado era mais alto que o outro. Aquele defeito levava os alunos a fazerem apostas e passando bilhetinhos faziam os lances. Quanto a sua aula , cinco minutos depois ninguém se lembrava mais.
Houve um tempo que os alunos eram divididos na mesma sala de aula em ; direita, sentavam os rapazes e na esquerda, as moças. E agora – final dos tempos segundo o prof. Telêmaco, se misturavam nas carteiras e era uma tarefa árdua para Manuelina ficar atenta à rela-rela, ao roçar de coxas, as mãos bobas e demais praticas tão queridas dos jovens. É divertido ver como os velhos puritanos tentam impedir essas manobras dos jovens no exercício do amor sem nunca vencê-los.
 
Corria a boca pequena na cidade que a tuberculose aumenta a libido e que os doentes apesar de proibidos pelos médicos praticavam o sexo livremente. Não ocorria naturalmente nos hospitais e pensões mas nos escondidos. Eu mesmo descobri uma espécie de motel arborizado num bosque de eucaliptos perto de dois hospitais. Eu ia por ali no meu exercício de desenho ao ar livre, quando divisei vários ninhos de amor e onde sobre as folhas das arvores, uma quantidade considerável de preservativos usados.
 
Certa vez de tocaia, na boquinha da noite, vi os jovens chegando, adentrando o bosque e só retornando de quarenta minutos à uma hora depois. Alguns conhecidos. Muitos deles já no estado avançado da doença. Durante todos estes anos guardei segredo. Que direito eu tinha de revelá-lo? (Uma pesquisa realizada na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto não comprovou a exacerbação do sexo em tuberculosos.)
 
Na sala de aula a única aluna que sentava separada era Espana, uma garota alta, bonita, cheia de formas, sendo que aquilo que se diz ser a segunda bandeira brasileira era bem desenvolvida, de modos que, os olhares da rapaziada estavam sempre fixados na sua bandeira. Extremamente orgulhosa, usava saia curta, num tempo que um joelho de mulher a mostra era um escândalo, ela cruzava as pernas, a saia subindo pelas coxas deixando-as ver brancas, sugerindo todas as delicias do pecado.
 
Telêmaco não podia fazer nada. O pai dela era o maior benfeitor do colégio. O gesto de desaprovação era apenas alisar o bigode rebelde. E assim a moça, no seu trono, mantinha o seu olhar sempre por cima como se procurasse no horizonte algo que valesse a pena e não aquele povinho, seus colegas. Quanto a mim é possível que nunca me tivesse visto, já que eu estava sempre abaixo do seu olhar.
 
Durante quinze dias o Diretor Telêmaco anunciou uma ida da classe à cidade litorânea de Caraguatatuba. Seria uma pequena viagem recreativa alem da possibilidade de conhecimento diretos de geografia, botânica e marítima só possível por esse meio.
A preparação ocorreu entusiasmada. Cada um elaborou o seu programa e chegou o dia.
No pátio do colégio o caminhão estacionado esperava a caravana com seus bancos de tabua. Era o transporte coletivo da época. O diretor fez um pronunciamento sobre os comportamentos morais na praia, referindo-se as roupas de banho, chamando a atenção para a decência dos mesmos, os perigos do mar e etc.,etc.
Às quatro horas da madrugada o tempo estava frio o suficiente para se esconder debaixo das cobertas. Imprudentemente eu estava sem uma blusa de frio.Os outros, idem. Só as mulheres, mais praticas, carregavam colchas e cobertores. Todos embarcados. Fiquei exatamente frente a frente com a orgulhosa Espana. Ela me olhou com indiferença. Telêmaco na ponta de outro banco tinha a sua frente à indefectível secretaria Manuelina.
 
Eu observei com certa malicia que os rapazes se ajeitaram de modo a ficar de frente com uma colega. Isso com uma manobra tão eficiente que o diretor e a secretaria nem perceberam. O caminhão começou a rodar e logo que saiu da cidade a sensação térmica desceu a quase zero. Era insuportável o vento e o frio. E nós tínhamos quase duas horas de estrada poeirenta e esburacada pela frente. Eu ouvia gemidos. Palavrões. Alguém amaldiçoava o diretor.
 
Eu pensei estar no inferno. De acordo com a nossa tradição o inferno é quente. Os árabes dizem que é gelado. Nesse caso eu estava do lado dos árabes.  Encolhido igual a um pinto molhado olhei para a minha companheira à frente. Espana cobria-se com a sua colcha e olhava-me por uma fresta.
 
- “Quem conhece o coração de uma mulher?”
 
Ela levantou os braços, segurando a coberta e, parecendo um imenso morcego, jogou sobre mim e puxou-me para ela.  Enterrou-me a cabeça por entre as suas coxas e com o resto do pano cobriu-me todo.O seu corpo debruçou sobre as minhas costas e os fartos, macios e prometedores seios esparramaram pelas minhas espáduas como se fosse mais uma manta. Não deixei por menos; rodeei a sua bunda com meus braços e procurava me encaixar. Quando senti que esse pacote anatômico estava arrumado, nos entregamos ao calor da vida que exalava dos dois. 
 
É uma delicia. Não precisa ser um romântico ou qualquer outro epíteto literário; basta ser um homem e uma mulher. É o “soma” dos deuses e que importa beber até a ultima gota. É o calor do cosmos que na medida certa manifesta a vida. A minha estrutura de pensamentos parou de funcionar. Só o coração pulsava. Eu o ouvia a principio tumultuoso, depois mais devagar, quase inaudível, como a criança de colo adormece após a mamada.  Comunicávamos com toques leves aqui e ali; um puxão em alguma parte desajustada e ela fazia cafuné nas minhas costas. Eu retribuía com contatos ousados.
 
Em dado momento olhei por uma fresta e la estava o Diretor embrulhado com a secretaria e cada casal de alunos nos seus pacotes.
 
O caminhão parou.
 
- O que foi ? 
 
- Estamos no topo da serra !
 
Imediatamente o clima mudou. O calor que vem do oceano chega até ali na borda do planalto. Todos se arrumavam. Cabelos eram penteados. Vestidos descidos nos lugares. As salvadoras cobertas dobradas.
 
Alguém falou: 
 
- Mas que viagem curta foi essa?
 
- Vamos descer na clareira e rezar- comandou Telêmaco.
 
Mas, todos riam dele. Estava descoberto o mistério do bigode. Não se sabe como ele se enrolou com a secretaria, o certo que a parte direita do bigode se descolou e torto estava quase entrando pelas fuças do diretor. Havia uma cicatriz no lábio direito que eliminou os naturais cabelos e ele deixando o lado esquerdo crescer até um comprimento adequado repartia pela metade e forçava uma parte cobrir onde faltava. Como não era natural ele colava com clara de ovo e vivia alisando tentando fazer a metade rebelde do bigode ficar no lugar.
 
- Vamos orar ! Vamos orar. Insistia.
 
A razão dessa insistência era que ali existia uma pequena clareira que os viajantes costumavam usar para as suas orações antes de descer a serra. Não havia nada de mais na clareira. Era terra batida. O lugar mais democrático do Brasil. Qualquer deus, santo, orixás, caboclos e divindades as mais diversas podia ser cultuada e pedida à proteção.
 
É que a descida da serra era de arrepiar. Estrada de terra encascalhada, perigosa, com abismos profundos. Metia medo em qualquer um. Após as orações a viagem continuou e descemos sem nenhum incidente. Passamos o dia na praia, a maioria no banho.  Ninguém prestou atenção nas lições do Diretor. Entregamos-nos a brisa morna tropical. Almoçamos e lanchamos como bons brasileiros.
 
Telêmaco não deixou de observar o maiô de Espana nos limites da decência.
 
Ainda existia por dentro do meu ser o perfume e o sabor daquele corpo escultural.
 
Quanto à moça ela não me viu mais. O seu olhar passava sempre por cima. Ignorou-me completamente como um desconhecido que sempre fui.
 
A volta ocorreu sem incidentes. No pátio do colégio ao nos despedirmos e comentarmos o produtivo dia Espana displicentemente falou comigo:
 
- Podíamos convencer Telêmaco a realizar outro passeio. O que acha?
 
 
* Juca de Lima é escritor e artista plástico.