
“ A minha pátria é a língua portuguesa” .
transcrito do Livro do Desassossego- por Bernardo Soares, heterônimo de Fernando Pessoa.
Um acordo inconsequente.
São muitas as alterações? – Nem tanto e, sobretudo, artificiais. O pior, em grande parte, é que não se justificam. – A finalidade? – Unir a escrita dos países lusófonos Portugal, Brasil, Angola, Moçambique, São Tomé e Príncipe, Cabo Verde, Guiné- Bissau e Timor Leste.
Ora, o que é a escrita, senão a projeção da língua falada, o sistema que representa e oficializa a língua de um povo? O latim clássico era a escrita oficial do latim românico, instrumento de cultura e veículo das grandes obras que a projetaram pelos séculos e, o latim vulgar, instrumento de comunicação de seu povo.
Os povos neolatinos, no processo de evolução cultural e ambiental, permanente e irredutível a que é sujeita a sua história,foram agentes de uma transformação lenta e ambiental, e, através das milícias românicas que invadiram novos territórios disseminaram a sua semente.
Daí as línguas neolatinas que arregimentaram e oficializaram culturas emergentes e novos sistemas lingüísticos.
Uma língua , sabemos, é um organismo vivo: tem sua infância, sua adolescência, sua maturidade. Impossível segurar – lhe a evolução natural que, sem dúvida, acompanhará um ritmo temporal peculiar.
Diz - nos Gladstone Chaves de Melo, em seu livro A Língua do Brasil, 1971( 2 ed), que, “ na maioria dos casos, é verdadeira a equação: unidade de cultura, unidade de língua. A língua é o reflexo mais direto, é o termômetro mais sensível da vitalidade e das oscilações de uma cultura”.
Temos, Brasil e Portugal, a mesma cultura? Oficialmente, diríamos que sim. Nossa literatura se forjou à luz da literatura portuguesa, por exemplo, mas, desde o romantismo, os fatores culturais próprios do Brasil, com influência dos índios e negros, se manifestaram, de forma representativa de nosso povo. Fatores acrescidos, hoje, de influências estrangeiras, que, de certa forma, caracterizam uma cultura globalizada.
Temos ,pois, os países lusófonos , ainda, uma cultura portuguesa, o que não desmobiliza as forças nativas em marcha histórica.
Querer unificar a ortografia que rege a língua desses povos parece extemporâneo.
Vejamos: O acordo em questão, posto em prática agora – 2009- respeitou a morfologia e a sintaxe da língua portuguesa, partes, sem dúvida, vitais do referido sistema linguístico, mas e a fonologia e a semântica, que ajudam a individualizar as respectivas pronúncias e sentidos, foram para o ares. Vejamos a pronúncia.
O português de Portugal é consonantal, rígido e rápido. O do Brasil é vocálico, harmonioso, melódico como lhe inspiram os traços genéticos de uma raça, descendentes que são de negros e índios e ambientados num país tropical. O ritmo lhes é, por isso, peculiar. Os sinais gráficos- diacríticos, os acentos- , ajudam a transcrever as nuances dessa diferenças. Para nós, uma idéia, dificilmente, será uma ideia, a não ser com prejuízo, para nós, de seu viés representativo.
Haverá um período de acomodação? Pode ser; mas toda uma geração será afetada. E logo a nossa. E, grave, se isto acontecer, continuará infiel ao registro de nossa fala. Haverá direções divergentes, entre, escrita e fala, na condução da história do português.
Assim, o trema. É o registro de uma pronúncia. Como diferenciaremos a regra da pronúncia do “que” e “gue” em palavras como lingüística e preguiçoso, sem o trema para indicar a diferença? Pouca gente o usa? Pode ser. Mas a consciência da diferença está ali, ajudada pelo hábito que se formou e segurado pela regra que sabemos existir.
Como muito bem lembrou Isabela Boscovi, autora da matéria transcrita na revista Veja ( 31/12/2008), “ uma das raras concordâncias dos gramáticos, é que o aprendizado da ortografia está estreitamente ligado à memória visual e manual”. Assim ao escrever “vôo”, sem circunflexo no primeiro “o”- exigência da presente reforma- a estética da palavra estará prejudicada. Pela tradição da memória, algo está em desiquilíbrio.
Continuando com alguns exemplos. O acento diferencial cai em palavras homófonas. Ex: pára ( verbo parar) e para ( preposição), o que quer dizer que serão diferenciadas pelo contexto. Facilitou?
O hífen , este sim, um assunto caótico, tenta, agora, mais uma sistematização. Resolverá, se as exceções continuam? Alguns casos: I- sem hífen: prefixos terminados em vogal, + palavras iniciadas por r, ou s, que, então, serão dobradas: ex: antessala; Ob: em prefixos terminados por “r”, permanece o hífen se a palavra seguinte for iniciada pela mesma letra. Ex: super – realista.
2- Sem hífen, palavras terminadas em vogal, + palavras iniciadas por outra vogal : ex: autoafirmação. Ob: a regra não se encaixa quando a palavra seguinte iniciar por “ H “. Ex: anti-higiênico.
3-Com hífen. Prefixos terminados em vogal + palavra iniciada pela mesma vogal. Ex: anti – ibérico.
Etc, etc. E esta: Não usamos mais hífen, em compostos que, pelo uso, perderam a noção de composição. Ex: paraquedas, mandachuva, etc. Como se lembrar dela?
Regrinhas que serão pedra no caminho dos estudantes, em especial para os vestibulandos e concursandos, já no ano de 2009. Embora, oficialmente, dêem três anos para se efetivar a mudança, as escolas já a incorporarão no correr do presente ano, o que nos parece uma exorbitância.
Voltando a Isabela Boscovi , à realidade da memória visual e manual que impera no estudo da ortografia, constataremos que “ para os que aprenderam a escrever entre a reforma de 1943 e a de 1971, e ainda acham estranho escrever “ele” sem um bom circunflexo no “ e” tônico, os problemas se multiplicam. E para aqueles que estudaram em cartilhas antigas, com seus “ prohibidos” e “ collocar”, as esperanças de reformar a própria ortografia são mínimas.”
Assim poderemos entender a resistência que oferecemos, no momento, às modificações agora impostas, sobretudo pelo agravante de ver as realidades fonéticas- ortografia- e semântica-( significação)- das duas nações diferenciadas, para as quais se propala uma unificação pouco viável. . Não se trata de visão curta, mas, parece-nos de bom senso, de sentido de praticidade, portanto de visão aguda do problema.
Fatos da língua, ou fatos artificiais da ortografia? Para nós o bom senso foi arranhado, ainda que, ousando divergir do respeitado gramático Evanildo Bechara, da ABL- titular da área de lexicografia e lexicologia, decano dos gramáticos brasileiros e que atuou na fase final do fechamento do acordo. Com pouco entusiasmo, opina: “ A reforma é boa, depois de 100 anos tentando colocar o português nos trilhos do bom senso, já está de bom tamanho.”
Na semântica, o sentido muitas vezes diverge, sem, no entanto, dificultar a leitura do texto, como nos provam as novelas brasileiras de grande sucesso em Portugal, além de nos lembrarmos que sempre procederam sem impecilhos a leitura de clássicos brasileiros em Portugal e de clássicos portugueses no Brasil.. Nesta área, divergências curiosas se alistam, apontadas pelos que convivem com as respectivas línguas , como nos lembrou o escritor português João Pereira Coutinho ( Folha de São Paulo), dizendo que o português de Portugal diz fumador; o brasileiro ,“ fumante”. Outros casos interessantes: lá, fila é bicha,( provocando a expressão para nós maliciosa: estou atrás da bicha), celular é telemóvel, carona é boléia, banheiro é casa de banho, mamadeira é biberon, aeromoça é hospedeira, e muitos outros desencontros que, por vezes, dificultam o entendimento, mas não chegam a prejudicá-lo, graças ao contexto. Lembra até a blague do escritor Oscar Wilde, segundo a qual os americanos e ingleses eram povos separados pela mesma língua.
Parece, então, que a reforma atende a alguns superficiais pontos, dentro de uma preocupação, à primeira vista, mais acadêmica. Pesam, sem dúvida, a visão político- econômico- social. Político, em que imperam Portugal e Brasil, na já inconsciente questão colonizador- colonizado, uma vez que os países lusófonos africanos mal foram consultados. Portugal tomou a iniciativa, tendo sido o acordo assinado em Portugal ( Lisboa) em 16 de dezembro de 1990, após tempo de maturação, desde 1986, e, no Brasil, só oficialmente aassinado em 29/09/08. Foi capitaneado, em Portugal, pelo filólogo João Malaca Casteleiro (estando em estudo desde a década de 80-90), e, no Brasil pelo Presidente da ABL- Antônio Houaiss.
Se nos lembrarmos que dentre os 240 milhões de cidadãos lusófonos, abarcados pelo novo acordo ortográfico, 190,3 milhões são do Brasil, 10,6 milhões de Portugal, 435.000 mil de Cabo Verde; 157,000 mil de São Tomé e Príncipe. Guiné-Bissau tem 1,4 milhão , Angola :17,.5 milhões, Moçambique: 20,5 ,milhões,e Timor Leste: 1.1milhão. Portanto, existe um impacto de força, traduzindo o desejo, não confessável, de ser o implantador da reforma.
Acompanha a questão o aspecto econômico. No Brasil a atividade editorial é muito superior, obrigando-se , agora, as editoras, a um tremendo esforço- com recompensação pecuniária à vista, lógico- no processo da reedição das obras, sobretudo colegiais que, pela reforma se tornam ultrapassadas. E pensar que as instituições de ensino impuseram a obrigatoriedade da reforma, para este ano, ainda...
Assim, lamentável, o impacto que tudo isto provocará no campo social, dificultando e sangrando os orçamentos domésticos.
Finalmente, relembrando o pensamento de Fernando Pessoa, transcrito, aqui, como epígrafe, e retirado do Livro Desassossego, sentimos que a nossa língua, a língua portuguesa - falada no Brasil-( já com discutível e ainda imaturo estofo de língua brasileira: ver A Língua do Brasil, do filólogo e gramático Gladstone Chaves de Melo, Fundação Getúlio Vargas, 1971 (2 ed.) - é um dos símbolos de nossa Pátria. Escritores, professores, e demais usuários, sem opção, devem acatar a medida oficial? Tudo indica que sim, ainda que sob protesto, como o meu ao escrever este artigo, eliminando os tremas. Lastimável!!. Por outro lado, sem dúvida, a Língua pátria merece nosso respeito, amor e interesse em defendê-la.
O certo, é que não haveria perda, se prevalecesse a realidade que nos circunda. Não ameaçaria a unidade oficial de nossa língua, se registrássemos nosso traços peculiares, com os quais conviveríamos, sem problemas, demonstrando nossa personalidade cultural.


