Em contrapartida aos profetas apocalípticos que pregam o esgotamento do romance, sobretudo em virtude das monstruosas realizações do senhor James Joyce, surgiram recentemente os evangelistas da Boa Nova de que o romance é o gênero literário pós-moderno por definição. Enquanto os primeiros acreditam que o romance está morto, ou no mínimo moribundo, estando fadado a desaparecer, o segundo grupo alardeia que o “defunto” foi enterrado vivo, que goza de excelente saúde. Os primeiros defendem que o conto atende melhor aos interesses dos leitores do século XXI. Em tempos em que tudo acontece de forma veloz, somente narrativas curtas e descarnadas podem sobreviver. O segundo grupo crê que apenas a voz polifônica típica do romance pode ao menos almejar dar conta da complexidade do mundo contemporâneo.

            Acredito que os evangelistas da Boa Nova estão certos. Talvez os limites estéticos do gênero tenham mesmo sido alcançados com a esfinge Finnegans Wake, mas não tenho dúvidas de que a história do romance ainda é um work in progress. Não há como negar que, de tempos em tempos, ainda surgem volumes que impressionam. Às vezes pela forma, às vezes pelo conteúdo. Nem todos são obras-primas acima de qualquer suspeita ou donos de grande fôlego, mas o fato é que o romance (para citar um conto) não é um Quincas Berro D’água. 

            O romance A Centopéia de Néon, de Edival Lourenço, é um bom exemplo. Em meio à tradição goiana de romances calcados em troncos, chãos vermelhos e pequis, é um livro que se destaca pelo inusitado. Com narrativa não linear, farta ironia intertextual, dialoguismo citacionista misturando referências eruditas e pop, em cenário predominantemente urbano, A Centopéia de Néon é pós-moderno da primeira até a última página. Composto no final dos anos 80, bem poderia estar à frente de seu tempo. Não estava. Foi uma obra premiada e tornou-se um best-seller local.

            Infelizmente, depois deste inicio consagrador, com o passar do tempo, A Centopéia de Néon caiu em uma espécie de limbo cultural: não foi esquecido, ganhou alguns estudos acadêmicos, mas não se converteu em um clássico. Merece ser resgatado. Ser colocado em destaque no rol da literatura brasileira contemporânea. Salvo alguns problemas periféricos de verossimilhança, por sua inventividade e fluência, é um livro muito acima da média da produção das últimas décadas. 

            Acima de tudo, A Centopéia de Néon prima pela originalidade. São quatro capítulos, narrados em primeira pessoa, por diferentes personagens, com diversos pontos de intersecção. A rigor são quatro protagonistas. Edival Lourenço não foi pioneiro em sua proposta. Vide a experiência menos radical de O Colecionador, de John Fowles. Mas isto importa pouco diante da excelência do resultado. Mas se, atualmente, tal estrutura rocambolesca não impressiona mais, na época não era das mais comuns. A “síndrome de Rashomon” ainda não era febre.

            Edival Lourenço, um autor conhecido pelo humor ácido e criatividade, estava no auge da forma. Apresenta algumas idéias escabrosas de tão alucinadas. Muitas são hilárias, outras primam pela sagacidade. Contudo, para além dos vôos delirantes de imaginação, a verdadeira pedra angular da obra é um de seus protagonistas. É ele, o lobby-man Sidrake de Thorteval Gahy, Sidrake, o Sinistro. O narrador do primeiro capítulo. É ele quem fica. É dele que nos lembramos quando terminamos o livro e o guardamos na estante.

            É um personagem instigante e mal compreendido. No prefácio para a 3º edição, o professor do Departamento de Letras da Universidade Federal de Goiás, Eris Antônio Oliveira escreveu que “Sidrake, o protagonista, é desprovido de qualquer valor ético ou moral que possa enobrecer suas ações, por isto encontra-se situado no centro de um conjunto de relações extremamente maléfico e desfavorável a qualquer impulso construtivo dentro da sociedade”. Não concordo. Tal descrição transforma Sidrake em um tipo bidimensional. Faz de um personagem profundo e complexo um recorte de papel, frio e superficial. Longe disto, Sidrake não é uma encarnação do anticristo, é apenas bom no que faz. Não existe lobby-man bonzinho. Neste ramo, muitas vezes, ser competente implica em ser canalha. Se ele inventou sob encomenda a indústria do aborto clandestino, não foi nada pessoal, apenas negócios.

            É sintomático o fato de que o livro abre com Sidrake enfrentando um problema cotidiano dos mais comuns. Seu carro não pegou em uma manhã fria, provavelmente devido ao excesso de álcool misturado à gasolina. Diante do imprevisto, Sidrake, como qualquer cidadão, descente ou indecente, xinga: “governo fedaputa que não fiscaliza esses postos ladrões”. Nada menos condizente com um vilão temível ao estilo James Bond. Sidrake não quer conquista o mundo, nem nada parecido, só têm consciência de que precisa ser implacável para ser bem-sucedido. Sabe que “até o nome de minha função, que antigamente era trambiqueiro, trapaceiro, atravessador contravencional, vigarista, ganhou nome requintado com adornos nobiliárquicos: lobby-man”. Mas, repito, são apenas negócios.

            Sidrake, “apesar de durão e temido tinha alma de poeta”. Era o único menino da família que tinha paciência para escutar até o fim as histórias intermináveis de sua mãe “carcomida e esclerosada”. Adulto, tornou-se um homem que se comove com As Quatro Estações, de Vivaldi. Um ávido leitor de bulas de remédio, sem ser hipocondríaco (se fosse estaria esbarrando no estereótipo). Um filantropo que vive um casamento de fachada. Um milionário que compra o amor das mais belas mulheres, mas que não é um exemplo de virilidade, sendo “portador de semi-flacidez e tinha um orgasmo frouxo”. Admitindo limites estreitos à interpretação do personagem, ele pode ser caracterizado como um vilão. Contudo, um vilão falível e humano.

            Por outro lado, Eris Antônio Oliveira acertou em apontar Sidrake não como “um protagonista”, mas como “o protagonista”. Está correto na medida em que os outros três narradores, pretensos protagonistas de seus respectivos capítulos, são como satélites orbitando a seu redor. Ele é o fio condutor do romance. Tudo passa por ele.

            Danton Mumbeka, o segundo narrador, é quem faz o trabalho sujo para o lobby-man. O que inclui matar. Apesar do currículo, ou em virtude dele, é forçoso notar que talvez seja baixo demais para o que o enredo lhe atribui ser: um ex-sargento da elite das Forças Armadas, de 1,50 m. de altura. É o menos interessante.

            O terceiro é um jovem parrudo e covarde chamado Jerônimo. Tornou-se, a pedido de uma amiga da família, aprendiz de capanga de Sidrake. Tratado pela avó como um débil mental e por todos os outros personagens como um simulacro de Rambo, Jerônimo revela-se para o leitor como um verdadeiro intelectual. É desmedidamente, culto, irônico, sagaz e articulado. E tem sorte: sendo um menino de fazenda, é um dos poucos brasileiros a conhecer o mais bem guardado segredo da indústria fonográfica internacional. Um segredo envolvendo nada menos do que os Beatles.

            Trata-se do maior achado criativo de Edival Lourenço. John Lennon não morreu e está na ativa usando a identidade de seu filho, Julian (George Harrison ainda não tinha “fingido” sua morte quanto o livro foi escrito). Compõe e ensaia com os três companheiros em uma chácara alugada, se preparando para o retorno triunfal da banda em 2010, evento que “vai ofuscar a segunda vinda de Cristo”. Considerando que os Rolling Stones ainda tocam Satisfaction até hoje, imagino que não seja problema a idade que os quatro anciões de Liverpool terão em 2010. Os ressuscitados John e George terão respectivamente 70 e 67. Paul, 68, e Ringo, 70 anos. Provavelmente o terceiro capítulo, intitulado Diabo é o que Habitava a Guitarra de George Harrison, é o menos coeso do romance. Mas é também o mais charmoso. E o mais independente, o mais desligado da trama geral. Não precisa tanto das outras partes para se sustentar.

            Uma amante de Sidrake, escolhida por alienígenas para ser a mãe do novo messias, é a protagonista do quarto capítulo. Não se trata de uma camponesa virgem, e sim de uma prostituta de luxo que estuda comunicação nas horas vagas; ou melhor, de uma estudante de comunicação que é prostituta de luxo nas horas vagas. Seu nome é Romilda Nardini, mais conhecida como Romã. Como é comum entre estudantes de comunicação que são prostitutas de luxo nas horas vagas, apresenta-se como sendo jornalista e modelo. Protegida pelo amante, tornou-se a estrela maior do telejornalismo nacional. Qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência. Sua história é a mais aloprada dentre as quatro.

            Uma bela noite Romã viveu um Contato Imediato do Terceiro Grau. O furo do século. Entrevistou um extraterrestre, vindo do planeta Gran (!?), de quem recebe uma boas apalpadelas. A estranhíssima (e safada) criatura, em um português telepático dos mais coloquiais, revela para a carnuda jornalista que os terrestres são fruto de um experimento biológico levado a cabo pelos cientistas da civilização intergaláctica When (!!??), no melhor estilo O Guia do Mochileiro das Galáxias. Segundo o ET, a humanidade se encontra a beira da autodestruição e Romã recebe a missão de gerar um híbrido humano / alienígena para salvá-la. Antes de desaparecer, perseguido por agentes do governo norte-americano (Homens de Preto?), o alien deixa com ela um aparelho contendo detalhes do plano.

            Sem medo da polêmica, Romã coloca estas informações no ar e cai em desgraça. É seqüestrada a mando de Sidrake, tem seu aparelho alienígena roubado, é despedida da rede de TV e dada como louca. É bem provável que tenha mesmo enlouquecido.

            É quase certo que tais pequenezas pragmáticas pouco interessavam Edival Lourenço. Não deve ser descartada a possibilidade de ele haver criado em Romã um personagem esquizofrênico. Abalada psicologicamente pela morte violenta dos pais. Talvez, na condição de estrela televisiva, fomentadora de uma histeria coletiva. Somente uma alucinação pode explicar a terminologia usada pelo emissário de When. Afinal, com certa condescendência é até possível admitir que um extraterrestre diga “ET... phone... home...”, mas é difícil engolir que comparassem uma viagem de milhões de anos-luz com “um trabalho semelhante a subir de canoa em cachoeiras”. 

            Seja como for, esquizofrênica ou não, Romã acredita piamente em sua história e a narra com a convicção dos inocentes. Conta que tempos depois, enquanto trabalhava em reportagens pouco importantes, teve um encontro erótico com um alienígena. Depois de fecundá-la, o Anjo Gabriel pós-moderno parte para nunca mais voltar em “um conjunto de naves aparentemente germinadas, de contorno fluido e brilho azul-fluorescente feito uma incrível centopéia de néon”. O romance fecha com sua espera: “a descomunal expectativa: o nascimento do Anunciado Miscigênito e toda a História em recomeço”.

            Além dos nomes excêntricos (forma delicada de dizer feios) os “protagonistas” de A Centopéia de Néon compartilham uma outra característica bastante curiosa: são quadrigêmeos narrativos. Neste aspecto, A Centopéia de Néon lembra Drácula, de Bram Stoker, um romance epistolar em que todos os personagens escrevem com um único estilo, o estilo do autor. Por sorte, no presente caso, como afirmou Rubem Fonseca sobre Edival Lourenço, “seu texto é ótimo”.

            Como explicar tão assombrosa semelhança? Quádrupla personalidade de um sujeito oculto? Será um lobby de Sidrake junto a Edival? Em princípio, o estilo copiado é o dele, já que foi o primeiro a apresentá-lo. Não podemos esquecer que o lobby-man ficou de posse do aparelho de When. O cheiro de conspiração está no ar. Visando o que? Talvez despistar a humanidade quanto a eminente chegada do Anunciado Miscigênito. Transformar aos olhos do público uma realidade em ficção. Será Sidrake uma versão pós-moderna do Grande Inquisidor dostoievskiano? Não sei. Se for, mais uma vez, que se saiba que não é nada pessoal contra o salvador da humanidade, mas apenas negócios.

 

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Ademir Luiz é professor da UEG e escritor.