Encontrava-me esmerilhando um soneto inspirado em Augusto dos Anjos, mas aplican-do-lhe o avesso da linguagem e da essência a ser revelada, quando alguém me chama ao “skype”, solicitando a aceitação do contato. Pensei um pouco e cliquei no aceite. A pes-soa imediatamente se identificou, repetindo alguns dados já revelados pelo instrumento de comunicação via computador:
Aqui está a falar Raul, estudante de literatura portuguesa e brasileira na Universida-de do Minho. Estou a fazer uma enquete com o fito de verificar a sintonia entre brasilei-ros e portugueses em relação aos conhecimentos do que cá se faz e do que aí se cria em arte literária. Gostaria que, se possível, o senhor respondesse a alguns quesitos para eu aquilatar a visão que possui de poetas, ficcionistas e dramaturgos lusos. Pois, não?
Coloquei-me à sua disposição e iniciou-se o bombardeio de perguntas, que se ativeram a escritores da contemporaneidade. Falamos muito sobre Lobo Antunes, um dos maio-res vultos da atualidade, notadamente de seu polêmico romance Os cus de Judas, não pelo conteúdo, pois mostra, com muita propriedade, as desgraças da guerra de Angola, de que o autor participara, mas pelo título, que assusta aos hipócritas de plantão, intei-ramente dominados por falsos pruridos.
Falamos da originalidade de Fernando Aguiar, um “performer” de índole experimental que infunde, com os gestos e com a imagem, um inconfundível sopro de vida às suas criações de poemas visuais. Conservando um pouco da estética grega, que via no corpo a mais legítima expressão do belo, ele consegue sintonizar a palavra, a imagem ao mo-vimento do corpo, como se ele fosse o poema por excelência. Para bem compreender seu processo de criação, basta dar uma olhada no “Soneto acerca do erotismo”, em que a arte e sua metafísica, imprescindíveis à comunicação, constituem um todo indivisível, de tamanha concretude que se pode tocar o poema com os olhos e com os dedos, como se a linguagem fosse um processo contínuo de desvelamento.
— Desculpe-me, mas desejo explorar-lhe um pouco mais, pois Aguiar intitula suas per-formances e suas exposições de “O contrário do tempo”. Existe alguma coisa que possa ser contrária a ele?
— Acredito, caro Raul, que um padre aí mesmo de Portugal, João Antônio, nos oferece o ponto de partida para esta reflexão, quando pergunta: “Somos nós que fazemos o tem-po ou é o tempo que nos (des)faz a nós?” Pensando em arte, parece-me que, se o tempo nos desfaz, nos carcome e, em decorrência, nos destrói, a partir do momento em que o artista cria um objeto estético que seja capaz de desfazer o tempo, de vencer o seu im-ponderável poder de destruição, este ser artístico está sendo contrário a ele. É neste sen-tido que o artista e a arte se lhe contrapõem. A arte é o contínuo ressuscitar do artista.
— Gostaria, pois, se me permite, de voltar um pouco mais na história literária, para de-safiar sua leitura de Sophya de Mello Breyner Andresen!
— Trata-se de uma escritora singular, que se ombreia com Fernanda Botelho e Ana Ha-therly, a quem muito admiro, que escreve contos de rara profundidade, mediante um processo de interculturalidade sutil, que requer do leitor uma verdadeira viagem pelos meandros das artes e da cultura ocidentais, notadamente a grega e a hebraica. O seu conto, “Homero” é um exemplo de seu engenho narrativo, pois, mediante a simples lembrança de uma personagem real da infância, o narrador consegue de forma extre-mamente delicada, que chega às margens da magia, recriar a personagem da Odisséia, o famoso Ulisses, ao mesmo tempo em que subliminarmente faz alusões a fatos por ele vividos. Mas, se o leitor não estiver senhor da obra épica do rapsodo grego, nada perce-berá dos mistérios e enigmas do texto. Mas, para resumir o tamanho da arte dessa múl-tipla escritora, gosto imenso de seu poema “Exílio”, em que observo a máxima conten-ção lingüística e, em decorrência, a máxima expressão da linguagem poética: “Quando a pátria que temos não a temos/Perdida por silêncios e por renúncia/Até a voz do mar se torna exílio/E a luz que nos rodeia é como grades.”
— Senhor José, devo revelar-lhe que sua entrevista reacendeu-me a esperança de fazer um bom trabalho, pois conversei já, mediante escolha aleatória, com quase uma centena de brasileiros e a maioria absoluta demonstrara-me qualquer sintonia com a literatura portuguesa atual. Pois?!
Despedimo-nos, e fiquei pensando: se o povo brasileiro conhecesse, pelo menos a litera-tura feita por aqui, além de uns parcos escritores canônicos, poderia comemorar, toman-do uma boa taça de vinho verde; mas... como nem jornal se lê, talvez melhor fosse um cálice de fel! Adjuva nos, Domine!


