Quando uma mãe cisma com algo, ela nunca se engana e tem sempre razão; o certo é seguir à risca os seus sábios conselhos, usufruindo da sua sofrida experiência de vida, para suavizar, sobremaneira, as aflições do dia a dia, bem como prevenindo e evitando-se os aborrecimentos futuros.
Não se olvide que coração de mãe nunca se engana, em razão de que nele está a esperança, a força, e a vida, conforme a parêmia latina assinalada por Horácio:
In corde,spes, vis et vita.
(No coração mora a esperança,
a força e a vida)
Registra-se aqui, um penhor de gratidão à Rainha dos Lares a mãe de todos nós:
Minha mãe era mui bela,
- Eu me lembro tanto dela,
De tudo quanto era seu!
Minha mãe era bonita,
Era toda minha dita,
Era tudo e tudo meu.
(Junqueira Freire, 1832-1855, ‘Inspirações do Claustro’).
Se minha mãe chegasse nesta hora
Como havia de ser o seu sorriso?
Sorriso? Não. Diria como outrora:
É tão tarde, menino sem juízo!
(Ribeiro do Couto, 1898-1963, ‘Longe’).
Mãe, eu era inda criança,
Já não te vi; morta eras!
Buscou-te amor e esperança,
E o coração que me deras.
(Camilo C. Branco, 1825-1890, ‘Um Livro’).
Para alguém sou o lírio entre os abrolhos
e tenho as formas ideais do Cristo,
para alguém sou a vida e a luz dos olhos
e se na terra existe, é porque existo.
Esse alguém que prefere ao namorado
cantar das aves minha rude voz,
não és tu, anjo meu idolatrado,
nem, meus amigos, é nenhum de vós.
Quando alta noite me reclino e deito,
melancólico triste e fatigado,
esse alguém abre asas no meu leito
e o meu sono desliza perfumado...
Chovam bênçãos de Deus sobre a que chora
por mim além dos mares! Esse alguém
é de meus dias a esplêndida aurora:
és tu, doce velhinha, ó minha mãe!
(G. Crespo, ‘Perspectivas de A. Comte’, Ivan Lins, p. 240, São José, 1965).
O poeta Luiz de Guimarães Jr., numa verdadeira sinfonia literária, recorda nossa mãe:
Visita à Casa Paterna
Como a ave que volta ao ninho antigo
Depois de um longo e tenebroso inverno,
Eu quis também rever o lar paterno,
O meu primeiro e virginal abrigo.
Entrei. Um gênio carinhoso e amigo,
O fantasma talvez do amor materno,
Tomou-me as mãos, - olhou-me, grave e terno,
E passo a passo caminhou comigo.
Era esta a sala... (Oh! Se me lembro! E quanto!)
Em que da luz noturna a claridade
Minhas irmãs e minha mãe... O pranto
Jorrou-me em ondas...
Resistir quem há de?
Uma ilusão gemia em cada canto,
Chorava em cada canto uma saudade.
(Marques Rebelo, ‘Antologia Escolar Brasileira’, p. 201, MEC, 1967).
Fernando Pessoa, 1888-1935, no seu Mar Português, remembra o sofrimento das mães de tôdolos navegadores lusitanos:
Mar Português
Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas MÃES choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.
(Rui Assis Santos, ‘Fernando Pessoa’, p. 4, Editora Grafi-kor, São Paulo, 1986).
Há mais de 400 anos passados, Luis Vaz de Camões em sua imortal obra Os Lusíadas, em pranteados versos evoca uma das mais belas mães, a eternamente injustiçada dona Inês de Castro -, uma nobre nascida na Galícia em 1325, amada pelo futuro rei Pedro I de Portugal, de quem teve quatro filhos (Afonso, Beatriz, João e Dinis). Ela foi executada em Coimbra, às ordens do pai deste, Afonso IV, mais ou menos em 7 de janeiro de 1355:
Canto III
118. Passada esta tão próspera vitória,
Tornado Afonso à Lusitana Terra,
A se lograr da paz com tanta glória
Quanta soube ganhar na dura guerra,
O caso triste e dino da memória,
Que do sepulcro os homens desenterra,
Aconteceu da mísera e mesquinha
Que despois de ser morta foi Rainha.
...
C. 120. Estavas, linda Inês, posta em sossego,
De teus anos colhendo doce fruito,
Naquele engano da alma, ledo e cego,
Que a fortuna não deixa durar muito,
Nos saudosos campos do Mondego,
De teus fermosos olhos nunca enxuito,
Aos montes insinuando e às ervilhas
O nome que no peito escrito tinhas.
C. 121. Do teu Príncipe ali te respondiam
As lembranças que na alma lhe moravam,
Que sempre ante seus olhos te traziam,
Quando dos teus fermosos se apartavam;
De noite, em doces sonhos que mentiam,
De dia, em pensamentos que voavam;
E quanto, enfim, cuidavam e quanto via
Eram tudo memórias de alegria.
C. 122. De outras belas senhoras e Princesas
Os desejados tálamos enjeita,
Que tudo, enfim, tu, puro amor, desprezas,
Quando um gesto suave te sujeita.
Vendo estas namoradas estranhezas,
O velho pai sesudo, que respeita
O murmurar do povo e a fantasia
Do filho, que casar-se não queria.
C. 123. Tirar Inês ao mundo determina,
Por lhe tirar o filho que tem preso,
Crendo co sangue só da morte indina
Matar do firme amor o fogo aceso.
Que furor consentiu que a espada fina,
Que pôde sustentar o grande peso
Do furor Mauro, fosse alevantada
Contra hua fraca dama delicada?
C. 124. Traziam-na os horríficos algozes
Ante o Rei, já movido a piedade;
Mas o povo, com falsas e ferozes
Razões, à morte crua o persuade.
Ela, com tristes e piedosas vozes,
Saídas só de mágoas e saudade
Do seu Príncipe e filhos, que deixava,
Que mais que a própria morte a magoava,
C. 125. Pera o céu cristalino alevantando,
Com lágrimas, os olhos piedosos
(Os olhos, porque as mãos lhe estava atando
Um dos duros ministros rigorosos),
E despois, nos mininos atentando,
Que tão queridos tinha e tão mimosos,
Cuja orfindade como MÃE temia,
Pera o avô cruel assi dizia:
C. 126. “Se já nas brutas feras, cuja mente
Natura fez cruel de nascimento,
E nas aves agrestes, que somente
Nas rapinas aéreas tem o intento,
Com pequenas crianças viu a gente
Terem tão piadoso sentimento
Como co a MÃE de Nino já mostraram,
E cos irmãos que Roma edificaram:
C.127. Ó tu, que tens de humano o gesto e peito
(Se de humano é matar hua donzela,
Fraca e sem força, só por ter sujeito
O coração a quem soube vencê-la),
A estas criancinhas tem respeito,
Pois o não tens à morte escura dela;
Mova-te a piedade sua e minha,
Pois te não move a culpa que não tinha.
...
C. 129. Põe-me onde se use toda a feridade,
Entre leões e tigres, e verei
Se neles achar posso a piedade
Que entre peitos humanos não achei.
Ali, co amor intrínseco e vontade
Naquele por quem mouro, criarei
Estas relíquias suas que aqui viste,
Que refrigério sejam da MÂE triste.”
C.130. Queria perdoar-lhe o Rei benino,
Movido das palavras que o magoam;
Mas o pertinaz povo e seu destino
(Que desta sorte o quis) lhe não perdoam.
Arrancam das espadas de aço fino
Os que por bom tal feito ali apregoam;
Contra ua dama, ó peitos carniceiros,
Feros vos amostrais e cavaleiros?
...
C. 132. Tais contra Inês os brutos matadores,
No colo de alabastro, que sustinha
As obras com que amor matou de amores
Aquele que despois a fez Rainha,
As espadas banhando e as brancas flores,
Que ela dos olhos seus regadas tinha,
Se encarniçavam, férvidos e irosos,
No futuro castigo não cuidosos.
...
C. 134. Assi como a bonina, que cortada
Antes do tempo foi, cândida e bela,
Sendo das mãos lacivas maltratada
Da minina que a trouxe na capela,
O cheiro traz perdido e a cor murchada:
Tal está, morta, a pálida donzela,
Secas do rosto as rosas e perdida
A branca e viva cor, co a doce vida.
C. 135. As filhas do Mondego a morte escura
Longo tempo chorando memoraram,
E, por memória eterna, em fonte pura
As lágrimas choradas transformaram.
O nome lhe puseram, que inda dura,
Dos amores de Inês, que ali passaram.
Vede que fresca fonte rega as flores,
Que lágrimas são a água e o nome Amores.
(Os Lusíadas, Canto III, v. 118, 120, 121, 122, 123, 124, 125, 126, 127, 129, 130, 132, 134, 135, p. 140-144, Editora Porto, Portugal).
Por isso que aquela mãe autêntica, imaculada, e protetora dos filhos, ela sim, encanta a todos com a doçura do seu amor e pelo completo devotamento à sua família.
Enfim, é preciso sorrir ao ler-se a frase de Diderot:
Quando quiserdes escrever acerca da mulher,
Molhai a pena no arco-do-céu e espalhai sobre o papel
Poeira de asas de borboleta.


