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Em dezembro de 2011, a cidade e o estado de Goiás festejou os dez anos do título de Patrimônio Histórico e Cultural da Humanidade concedido pela UNESCO à nossa Vila Boa, no ano de 2001. Desde o dia 13 passado, aconteceram na cidade de Goiás eventos culturais, exposições e shows, bem como apresentações nos últimos dias 30 e 31, incluindo no último dia do ano um show da virada e outro pirotécnico.
É com imensa alegria que comemoramos o altíssimo galardão de Patrimônio Mundial, que exige rigorosos e complexos requisitos para sua concessão e de cujo recebimento só foram dignos 18 lugares no Brasil todo, montante esse alcançado por nosso país só em julho de 2010, com a inclusão da praça de São Francisco na cidade de São Cristovão, em Sergipe, sendo desse total apenas dois sítios laureados no estado de Goiás, vez que à antiga capital goiana assomam-se as zonas protegidas do Cerrado: parques nacionais da Chapada dos Veadeiros e das Emas. É uma honraria que deveras muito enaltece e distingue a terra de Hugo de Carvalho Ramos e de tantos outros nomes insignes das Letras e das Artes Goianas. Não obstante, ao mesmo passo em que nos deixa orgulhosos, esse título deixa-nos, igualmente, muito preocupados pela forma como vem sendo vivido no cotidiano da população vilaboense e, principalmente, pelo modo como sempre foi tratado pelo Poder Público Municipal, o qual ora se sublinha.
É indiscutível, a despeito de posicionamentos resistentes, que o reconhecimento de patrimônio mundial conferido à nossa cidade trouxe e traz a ela melhoramentos e benefícios significativos. Indubitavelmente, cresceram os investimentos dos governos estadual e federal, mormente em obras de restauro e revitalização de monumentos e espaços de interesse histórico-cultural. Aliás, faz-se oportuno asseverar que se não houvéssemos recebido o título, muito provavelmente não lograríamos as pesadas verbas para reconstruir a cidade e reparar as sérias avarias causadas pela devastadora enchente no mesmo ano de 2001, quando acabávamos de arrebatar a excelsa distinção. Assim, há na cidade de Goiás uma atividade constante de reforma de igrejas, ruas, demais monumentos e obras quejandas, além de imóveis privados, o que se faz com altos numerários e à base de exímio apuro técnico levado a cabo por excelentes profissionais especializados, no caso das restaurações. Além do mais, é-nos lícito reportar que, embora pudesse ser bem maior, agigantou-se a visibilidade da cidade de Goiás em face do Brasil e do mundo, o que, por conseguinte, valorizou nosso turismo e majorou nossa atividade turística, enquanto fonte de postos de trabalho e renda.
Um título tal qual o ora refletido é dado em prol de uma coletividade, em razão de sua própria natureza, que, a princípio, não comporta a fruição de suas benesses por grupos privilegiados e tampouco se coaduna com segregações e individualizações de certas parcelas e pessoas da comunidade em detrimento da vontade geral e do bem comum. Desafortunadamente, é o que se deu e ainda se passa com a cidade de Goiás. Desde que auferido, o gozo do título, por assim dizer, via de influências sociais e políticas, foi tomado para si por alguns auto-eleitos, que passaram também a governar as diretrizes e quaisquer temas afetos ao patrimônio da humanidade. Destarte, pode-se consignar que o título mesmo que indireta e não-intencionalmente acabou delegando poderes e prerrogativas a um seleto grupo de pessoas, que passou a determinar unilateralmente tudo quanto lhe dissesse respeito.
Desse turno, desde quando outorgado pela UNESCO e até hoje ao longo desse decênio, o recebimento da referida distinção não se fez acompanhar dum processo de construção e pujança dos sentimentos de pertencimento e de identidade com o título de patrimônio da humanidade, de modo que grande parte da população vilaboense sequer teve conhecimento do que se tratava o título e nem ficou cônscia de sua importância, relegada à margem do momento histórico cardeal por que passava a cidade, como se não fizesse jus de dele participar.
Sabe-se que a aludida honra foi concedida em virtude do centro histórico da cidade de Goiás, que possui cerca de 90% de seu conjunto arquitetônico preservado nos moldes coloniais, no qual se incluem o casario, as igrejas, monumentos, becos, praças e largos, além do acervo imaterial, que reside nas festas religiosas, nas tradições culturais, sacras e artísticas bem como nas manifestações de cultura popular. Ainda que os investimentos especificamente relacionados ao patrimônio material sejam destinados ao centro histórico de nossa cidade, não é demais frisar que a cidade inteira, inclusive o centro histórico, pertence ao seu povo na totalidade, e nada impede que, através de políticas públicas, façam-se estender à periferia da cidade, senão as verbas e obras – que de per si só poderiam mesmo ser empregadas no centro tombado – pelo menos os benefícios delas provenientes. Tais benefícios poderiam ser ampliados à população periférica de Goiás por meio de investimentos no mercado de trabalho vinculado à Cultura e ao Turismo, por meio da criação e implementação de projetos eficazes de educação e conscientização patrimonial na rede pública de ensino, mostrando aos estudantes e à toda a comunidade vilaboense qual a importância do nosso patrimônio e de sua preservação, apresentando a nossa história e a dos nossos monumentos e expressões culturais, oportunizando a eles o acesso livre aos museus e aos eventos artísticos sem qualquer obstáculo ou discriminação, estimulando a sua própria produção cultural, por meio do incentivo às artes em geral, precipuamente à literatura com vistas ao aprimoramento intelectual através da leitura e da produção textual nos seus mais variados gêneros, além de dar-lhes a conhecer proficuamente sobre o nosso título de patrimônio mundial, sua relevância, implicações e efeitos.
Mister repisar que malgrado o conjunto arquitetônico que nos rendeu a láurea concentre-se numa reduzida porção da cidade, igualmente limitado não pode ser o seu deleite, posto que, conforme já se assentou, mesmo a restrita porção territorial compreendida pelo centro histórico tombado é também da titularidade do povo vilaboense na íntegra, não havendo que se falar em exclusão de cidadãos vilaboenses da convivência e uso de bens que coletivamente lhes pertencem.
Dessa feita, – não que estejamos isentando os governos estadual e federal, mas apenas destacando a inércia maior e absurda do âmbito municipal – o governo municipal nunca investiu em necessários instrumentos públicos hábeis a fazerem incutir na mente de seu povo, primordialmente na do povo mais marginalizado, a idéia de que essa honraria tem repercussão sobre todos os cidadãos vilaboenses e a todos nós pertence. O município não instiga sua gente a sentir-se parte deste patrimônio. Esse: o primeiro e fatal motivo de o título não ter vingado por aqui. E como não instiga? Não instiga não dando a mínima para os eventos artísticos e culturais da cidade, nem mesmo para os eventos centenários como a Semana Santa, que inclusive coadjuvou na consecução do nosso laurel, de modo que, por trás dos bastidores, houve anos em que as instituições que realmente se importam com a cultura da cidade de Goiás, tais como OVAT e Coral Solo, quase tiveram que mendigar apoio e patrocínio para que a cidade não ficasse sem realizar manifestações da magnitude da procissão do Fogaréu, que atrai dezenas de milhares de turistas para cá e expõe-nos às retinas do mundo inteiro.
E como não instiga? Não instiga não incentivando os talentos artísticos da cidade, e diga-se de passagem, não são poucos, e só persistem mesmo por obstinação e amor à arte. O governo municipal não estimula e não prestigia a vinda de atrações culturais, que sempre vêm bater às nossas portas em função do vulto histórico que representa nossa cidade, mas que raramente não acabam por guardar o picadeiro na mala e dar meia volta rumo a outro lugar mais interessado no que os artistas têm a mostrar, como, muitas vezes, faz Pirenópolis, recebendo os rejeitos culturais que Goiás não valorizou, não porque não fossem bons, mas porque o sono e o descaso têm-se acostumado em dominar nossas últimas administrações, máxime no que toca à cultura, infelizmente.
É de se apavorar e de se indignar – quiçá por ironia do destino – que a antiga capital do estado e cidade com dez anos de patrimônio cultural da humanidade não receba a merecida atenção política de seus governantes nas áreas de Cultura, de Artes, de patrimônio, História e tradições. Parece mesmo que o governo municipal ainda não se deu conta ou, no mínimo, ignora o galardão singular que coroa nossa Vila Boa. Ademais, colocamo-nos inquietos e estupefatos: será que um local considerado importante para o mundo inteiro não seria digno de importância por parte de seus próprios administradores?! O berço da cultura goiana não se importa com a sua própria cultura?! A bem da verdade, parece-nos que os governos de outras localidades dão muito mais valor e atenção à cidade de Goiás do que o nosso próprio. Isso se vê facilmente nos eventos culturais de Vila Boa, que malgrado sejam alguns incontestavelmente importantíssimos como o Fogaréu e o FICA não recebem o tratamento condizente com seu porte e tampouco divulgação na mídia nacional. Ajunte-se a isso o fato de as autoridades municipais sequer comparecerem em muitos eventos também de realce, como nos envergonhou na edição de 2011 do Encontro de Corais da cidade de Goiás, em cujas atrações se faziam presentes autoridades de diversas municipalidades vizinhas, menos da nossa. Nem se fale dos lançamentos de livros, que não são prestigiados como seria de se esperar.
Aqui em Goiás é comum muita gente até desdenhar o título ou vê-lo como retrocesso para a urbe. Tais concepções não surgem gratuitamente na população e nem é de se admirar que ocorram, haja vista o menoscabo que parte dos próprios governos. É aquela velhusca crônica brasileira: se nem os políticos dão valor, porque eu é que vou dar? Essa idéia deveras não tem que causar espanto, porque desde que a cidade obteve a honraria, e fique claro que isto não foi um seu desdobramento, mas nada prospera nos setores de saúde, educação, lazer para a juventude, erradicação da pobreza, geração de empregos, desenvolvimento social, muito pelo contrário, não sei se pela praga do padre Perestrelo – lendas e superstições à parte – mas nada em Goiás vai pra frente, e tudo fazia crer que fosse exatamente o oposto.
Deixei claro acima que Pirenópolis, outro centro fundamental da cultura goiana, sói ter acatamento bem mais acurado e diligente quanto às matérias respeitantes à cultura e às artes. Lanço à baila meu próprio exemplo, que sou escritor vilaboense e não tive sequer a honra mínima de ver a secretária de cultura de minha cidade aceitar um exemplar de um livro meu, pois ela estava muito ocupada batendo papo em evento público e preferiu me ignorar quando lha ofertei o livro – mas é lógico que a culpa foi minha: atrapalhar a douta secretária em sua conversa para inconvenientemente presentear um livro? Veja lá se isso é coisa que se faça a uma secretária de cultura, e ainda mais numa cidade patrimônio cultural mundial? Diferente foi o secretário de cultura de Pirenópolis, que, só de me ver declamando um poema meu na inauguração das obras de revitalização do Colégio Sant’Ana neste ano, entregou-me um seu cartão de visita da Secretaria de Cultura Pirenopolina, a fim de que eu entre em contato para tratar algum assunto pertinente. Essas pequenas ações, por primeiro, evidenciam que gente evoluída e culta não dá crédito às supostas rixas entre Vila Boa e Pirenópolis, e, ao depois, são esses pequenos gestos que nos motivam e não nos deixam desacreditar da cultura, que, fatidicamente nos países subdesenvolvidos, não dá voto, o que até explica em parte a qualidade de nossos políticos, mas não entremos nessa vereda, que esse tema ainda dá muito pano pra manga.
A administração pública municipal vilaboense não exorta e muito menos cria mecanismos para que se engendre entre toda a comunidade local (centro e periferias) uma comunhão dos benefícios vindos e passíveis de vir por força da nossa láurea maior, fragilizando, assim, a idéia de pertencimento aos nossos bens culturais. Deveríamos nos ver, nos sentir em nosso patrimônio, o que não acontece Paranaíba pra cá. Tive venturosas oportunidades de apreciar outros sítios reconhecidos como patrimônios mundiais na América do Sul. Conheci, na Bolívia, o magnífico complexo arqueológico pré-colombiano de Tiwanaku e a cidade de Potosí; no Peru, as cidades de Cuzco e Arequipa, o Canyon del Colca, o mais alto do mundo e de uma vista inebriante, além da extraordinária cidade perdida dos incas Machu Picchu; bem como no Chile, pude conhecer a graciosa cidade de Valparaíso, que sobe ladeiras cortejando o Oceano Pacífico e foi terra de morada do emocionante e telúrico bardo Pablo Neruda.
Por meio de minhas viagens e do conhecimento desses lugares, percebi que não tratamos com o afinco e a paixão que merecem os nossos bens culturais e históricos. Se isso não é veraz, imperioso admitir que, pelo menos, não tratamos tão bem e tão apaixonadamente quanto nossos irmãos e vizinhos sul-americanos têm cuidado dos seus. Encantou-me a recepção dos guias bolivianos e peruanos, sempre amigos e profissionais ao mesmo tempo, questão essa que deve ser aprendida por aqueles que trabalham com turismo em Goiás: hospitalidade e gentileza não excluem profissionalismo e capacitação, ao inverso, são fatores necessariamente conviventes e complementares. Os habitantes de Cuzco, por exemplo, no geral conhecem sua história, sabem recepcionar os visitantes e traçar-lhes direcionamentos, os comerciantes sabem atender e servir com qualidade e presteza, além do quê, os peruanos, em sítios turísticos ou não, dispensam especial carinho e simpatia aos “amigos brasileños”. Insta assinalar o amor e zelo que tem o povo peruano com seu bem maior Machu Picchu, cuidam-no melhor que de suas casas e repelem energicamente quaisquer desmazelos tal qual uma onça os repele da cria recém-nascida.
Nesse diapasão, após essa década de patrimônio mundial, impõem-se-nos graves e intrincados desafios para que efetivamente façamos jus ao título e para que ele nos surta efeitos concretos, não passando em alvas nuvens para a maioria da população vilaboense, qual vem se sucedendo. Imperativo que todos: pobres, ricos, brancos e pretos, de famílias tradicionais ou não, com sobrenome pomposo ou não, com status ou não, com classe ou sem classe, com elite ou sem... Ressalte-se, imperativo que TODOS partilhem dos bons auspícios dessa distinção e que todos se sintam não só donos desse patrimônio, como parte dele. Urge, outrossim, laborar pela valorização do patrimônio humano da cidade de Goiás, além do material. Nosso povo precisa de atenção, de educação e saúde que valham à pena, de segurança, de lazer, e, principalmente, de empregos, porque – dantesca realidade – Vila Boa tem perdido seus filhos para cidades vizinhas, tem-se tornado uma terra de retirantes, sem nada que priorize e atraia os jovens, e não só tem perdido seus filhos, como tem deixado de pari-los, porquanto nossos hospitais não possuem condições adequadas para efetuarem partos seguros e sadios, de forma que os novos vilaboenses não nascem mais em Vila Boa. A vitória diante de todos esses desafios só será possível se a administração pública, em seus três níveis, municipal, estadual e federal, investir nos setores básicos da sociedade e, especialmente, de modo sensível – poxa: somos patrimônio da humanidade e berço goiano – na nossa Cultura, essa: uma coitada, vilipendiada, cuspida, ultrajada, e quando menos esquecida. Nossa cultura está enferma, tem úlceras na cabeça, chagas nas mãos e nos pés, e tem tumores no pobre coração, que, tão amoroso, não merecia tamanhas vilezas e abjeções.
Somente através do robustecimento da identidade entre edifícios e gente, museus e população humana, entre monumentos, história e pessoas é que se pode encontrar indivíduos que são apaixonados por seu patrimônio, que nele se reconhecem, e que, sobretudo, sabem do valor de amá-lo, como vi com o povo peruano em relação a Machu Picchu. Forçoso salientar que só amando é que se tem vontade de cuidar de alguma coisa e preservá-la, senão essa coisa faz-se indiferente ou mesmo menosprezada ou até odiada.
Na verdade, falta a determinadas pessoas a aceitação e efetivação desta idéia de que o patrimônio histórico da cidade de Goiás não é de poucos nem para poucos, muito pelo contrário, é de todo o povo vilaboense, e não só isso: é de toda a humanidade.


