Carlos Drummond de Andrade afirma que há um estigma comum na literatura. O autor é mais admirado pelos seus defeitos que pelas suas qualidades. Goiás não é diferente. Tenho tentado, neste espaço, traduzir as qualidades poéticas - literárias de nossos contemporâneos, fugindo desta tendência ao menosprezo das qualidades, como bem diz Drummond.

Falar ou escrever sobre um poeta é sempre menos do que sua poesia vislumbra. No fazer poético o poeta conduz a palavra além dela própria, buscando a expressão plena. A poesia no seu esplendor de luz se consome e escancara a vida e sua diversidade, aos olhos que conseguem ver. O fazer lírico possibilita o preenchimento do espaço intersticial entre a palavra e o silêncio, quando metáforas camuflam ou expõem mais do que a palavra que a representa.

O poeta Gabriel Nascente vai além de seu ser de defeitos e qualidades, (é da natureza humana!). Mas tem a virtude impar de transmutar vida, experiência, conhecimento e conteúdo imagético em autêntica poesia. Alexei Bueno (RJ, 1998) afirma: “A sua poesia é de uma riqueza léxicoimagística, de uma limpeza, de uma liberdade exata admiráveis. Há versos ou estrofes suas que valem mais e são mais prenhes de poesia do que livros inteiros que por aí se publicam.” Ele lida com palavras a traficar sonhos tocados pelo tempo, adversidades, alegrias e espantos. Para Assis Brasil, diferentemente de muitos, Nascente trabalha “no eu profundo da linguagem e da vida”. Assume perigosa missão de dar voz aos sentimentos e fazer aflorar novas almas, como em:

BULA PREVENTIVA

“Poesia é remédio que se ingere

com ardências de paixão. Beba.

(Quem consome, vicia; fica louco de pureza.

Ou volta a soltar pipas

nas primaveras da infância)...

...Quem bebe poesia

mundifica-se

                 com porres 

                 de INOCÊNCIA.”

O escritor, jornalista, historiador e crítico português, Joaquim de Montezuma de Carvalho, escreveu na apresentação do Tempestade na Proa: “Nem todos os poetas conseguem pegar fogo às palavras da tribo, essa comum  prostituição gerada pelo uso cotidiano e que vai desvalorizando o verbo[...] Agarra as palavras desamparadas no solo, caídas como bruto sílex abandonado no chão, e logo as consegue trabalhar aguçando-as, lapidando-as, manejando-as com penetrantes e operativas pederneiras, úteis para a luz da comunicação”...

 

Gabriel Nascente possui a qualidade de “Gênio” que Castro Alves atribui à palavra. Para ele gênio não se trata de um indivíduo de grande capacidade criadora ou alto quociente intelectual, mas uma pessoa, que possui uma qualidade especial: o dom da poesia, a capacidade de alcançar, através da força criadora do fazer poético, o infinito e habitá-lo com a palavra.

É este o universo habitado por Gabriel Nascente: o infinito. Espaço de ar rarefeito, constituído de abismos sem solos, vulcões ativos, nada e tudo, cuja existência de vida é improvável. De lá retorna ao convívio mundano, com narrativas poéticas que descrevem a trajetória lírica. Deixando-nos o legado de sua face oculta, transparente ou desfigurada, em que a linguagem é o meio e a palavra o instrumento. E aquela se completa, se expõe ou se guarda, no instante do poema. Como em:

O AUTODIDATA

...“E de onde eu venho, campeava estrelas,

namorando-as, todas, no espelhado

rio do seu fórnix, para não tê-las.”...

Gabriel dizendo verdades, diz as suas. Com voz autêntica, solitária (“Eu sou / uma solidão / que anda”) e combativa. Deflagra sua alma e sua arma: a linguagem e a palavra, respectivamente. Sem que a sociedade, muda, perceba, com ouvidos breves o eco de sua própria voz:

SÚPLICA (IM) PESSOAL

“E exausto

de tanto chegar

a lugar nenhum,

pedi as águas

que chorassem

nos meus olhos.”

Que o grande poeta Gabriel Nascente “o Castro Alves da poesia Goiana” (afirmativa da voz plural arquetípica Cora Coralina), continue a deixar gravada, cada vez mais na literatura brasileira, as pegadas que representam os anseios, sentimentos, aspirações, dores e dissabores de todos nós, andarilhos que somos nestes instantes de vida.

 

*Elizabeth Caldeira Brito é escritora.

Beth-abreu@hotmail.com