A arte literária, além de ser um cadinho de mistérios e enigmas, é também uma arte de surpresas, sempre agradáveis. Surpresas pelo prazer da leitura, sempre nos revelando o desconhecido, recriado pela palavra e cristalizado em linguagem; surpresas, às vezes, pelo fato de o texto, em ótimo nível estético, vir de quem professa outra fé, como ocorre à historiadora Lena Castelo Branco. Ela que entende de História e registra os fatos em sua concretude, de repente também faz história, ficção, escreve contos e encanta pela disposição dos acontecimentos do imaginário e pela tessitura do enredo, surpreendente. Sua fé de historiadora se alia ao ofício e ao rito da arte literária, e temos como resultado o encanto das narrativas de Novilha de raça e outros contos.
O conto que empresta nome ao livro se reveste de uma densidade metafísica inusitada, ao dissociar e ao fundir simbolicamente a figura de Alice à de uma novilha de raça. A dissociação se dá na dimensão da matéria, e a fusão, na analogia possível no discurso poético de que o poema de Ronsard funciona como espelho, a fim de Alice se revelar e, principalmente, de o professor valer-se de sua experiência para não se deixar dominar pelos instintos. Não é sem razão que o conto termina com a notícia em torno da vaca Preciosa, como se o nascimento de seu bezerro correspondesse à morte da novilha Alice; pelo menos no sentimento do professor. A escolha dos versos de Ronsard para proceder à insinuação perpetrada por Alice e ao contraponto entre a jovem e o maduro mestre, demonstra rara inteligência da narradora, uma vez que o poeta francês prima pelo pessimismo maneirista. A arquitetura da narrativa mostra que a fé literária convivia, há muito tempo, com a histórica, pois materializa sobriedade, condensação do conteúdo e um sábio jogo simbólico, responsável pela estética e pela dinâmica do discurso pautado sobre a estética especular do maneirismo que se reflete nos bons escritores da modernidade.
A maioria dos contos apresenta um forte tônus realista em que se destaca a frieza do ser humano, notadamente quando provinda do desmando, como se vê em Domingo de agosto, ou na necessidade de sobrevivência, em que se pode eliminar o outro a fim de garantir-se na existência, como ocorre em História da seca. A arquitetura da narrati-va torna o ato intempestivo mais desumano, à medida que ele ocorre de forma abrupta e sem maiores explicações, típico deste gênero literário na modernidade. Em decorrência, o desfecho, a despeito de se desprender da sequência lógica dos acontecimentos, ocorre de forma inesperada, normalmente obrigando o leitor a refletir e, em decorrência, a ope-rar uma espécie de anacefaleose, recapitulação de toda história.
A ironia, quase imperceptível, que percorre as narrativas, confere-lhes uma qualidade estética singular, pois é percebida somente no desfecho do discurso e, mesmo assim, mediante uma leitura desenvolvida nas entrelinhas. Mais que ironia, às vezes dá-se conta de um refinado humor, como ocorre no conto que nomina o livro, pois o nas-cimento do bezerro, ao final, fecha a narrativa, ao mesmo tempo, com a sintonia do a-nimal dominado, em parte, e do amor experiente que se transfere para o filho, ante um pedido irrecusável. Leituras várias se podem fazer a partir dos símbolos e do humor neste conto. Do mesmo modo, o humor negro impresso ao fecho do conto História da seca transforma a ação de eliminar o semelhante para matar a fome em um ato impregnado de um riso cruel, chocante, mas imprescindível à consumação da narrativa aos moldes do que se faz contemporaneamente face à banalização do absurdo.
Singular o humor negro de Cabeças contra cabeças, pelo inesperado da solução e, sobretudo, pela naturalidade com que o feitor procedeu à explicação ao cumprimento da ordem dada pelo coronel. Uma técnica que nos leva a perguntar por que Lena Castelo Branco não nos contemplou com suas narrativas há mais tempo? Este riso nascido da crueldade nos leva a compará-la com o Machado de Assis do conto Pai contra mãe, em que a desgraça de um é necessária para a felicidade do outro. Este tipo de humor leva-nos, inclusive, à piada a que se chama de humor negro, pois o leitor ri da desgraça, da capacidade única do homem de ser cruel.
Se urdir o discurso da História requer uma perfeita sintonia com os fatos tecidos pelos homens, urdir o texto estético requer técnicas narrativas sofisticadas que a contista Lena também domina com maestria. A criação do imaginário faz desta cronista uma contista que só enriquece a literatura goiana, porque utiliza o ethos, a physys, a wentan-chaund e os leitmotivs deste Estado que deve ser a morada das musas, tamanha a inspi-ração que aqui se sente. Parabéns, Professora Lena!


