O livro: Minha vida de casada (Rio de Janeiro: Edições Galo Branco, 2006), por seu notável substrato humano, interessa a qualquer um. Mas, de modo particular, às mulheres. As memórias de Dona Celuta Mendonça Teles oferecem uma janela para o passado das mulheres, no interior do país ou, mais precisamente, no interior de Goiás. Na prática, salvo raras particularizações, a sua história, cujo início recua mais de cem anos, é a história de todas as mulheres de seu tempo, em qualquer parte deste país. Este livro, por se tratar de memória, é o olhar da autora sobre si mesma, sobre o seu passado, sua vida de casada. Não há qualquer intenção crítica nesta obra, no entanto ela se converte num espelho que reflete a vida de todas as mulheres, no início e transcurso do século XX. Pela autenticidade da voz que fala, a mulher poderá aí se contemplar e sem disfarces.
Como afirma Virginia Woolf, em Um teto todo seu (Rio de janeiro: Nova Fronteira, 1985), nada se sabe da mulher, por meio da literatura, até o século XVIII. Quando dela se teve alguma notícia, foi através de um punhado de cartas e alguns diários. As biografias tardariam muito a aparecer. Como gênero, começa a mulher se expressar por meio da poesia, por razões que não nos cabe aqui discutir. O romance feito por um punho feminino é filho do século XVIII. No Brasil, é consabido que foi a paulista D.Tereza Margarida da Silva e Orta (1711), irmã do moralista Matias Aires, que publicou, em 1752, sob o pseudônimo de Dorotea Engrássia Tavareda Dalmira, o primeiro romance brasileiro (na verdade um épico nos moldes tradicionais), denominado Máximas de virtude e formosura, hoje conhecido por Aventuras de Diófanes. De idéias liberais e antiabsolutistas, causou sérios problemas à sua autora em Portugal, onde foi publicado. Detalhes preciosos sobre o assunto, consultar Rubens Borba de Moraes (São Paulo: Instituto de Estudos Brasileiros – USP, 1969).
No século XIX, ainda segundo Virginia Woolf, os homens começaram a se interessar por escrever suas biografias e não será difícil imaginar as razões por que o fizeram. Em Goiás, o livro de D. Celuta, sendo uma autobiografia, é uma manifestação pioneira, mesmo que ela o tenha escrito, quando já era uma anciã. E a razão do exercício de puxar esse delicado fio do casulo da memória: apenas o pedido de seu filho José Mendonça Teles. Não importa a forma absolutamente singela com que teceu esse livro de memórias. A mulher inculta, que freqüentou apenas dois anos de escola primária (caso muito semelhante ao de Cora Coralina) e que adorava ler M. Delly na adolescência, lega-nos um documento imperdível. Foi a única, entre nós (existiria outra além fonteiras?), que expôs a sua vida de casada sem meias-verdades. Assim sendo, sua palavra assume valor histórico.
Conheci Dona Celuta, mulher-menina, ou, se quiserem, anciã-menina, na década de oitenta. Era de uma pureza tal que não parecia mulher que houvesse passado pelas experiências do casamento. Parecia uma dessas virgens que se submetiam a uma antiga “Lei familiar em Goiás”, de que nos dá notícias Cora Coralina em sua obra poética: aquela que renunciava ao casamento, a fim de “oferecer a sua virgindade à Santa mãe de Jesus,/ ter garantido o seu lugar no céu [...] cuidar dos pais na velhice e reger a casa”. Essa era, ainda, a encarregada de cuidar da capela, e de ornar de flores os seus santos. Profundamente religiosa, não me esqueço de que a autora-amiga tinha também, em sua casinha, a imagem de São José e a de Nossa Senhora Aparecida, as quais ela cumulava de flores. “Esta noite eu não dormi: rezei o tempo todo, porque meu filho Berto está atravessando, de avião, o oceano”.
D. Celuta era de uma docilidade tal que ninguém poderia imaginar atos de reação ou de revide provenientes de sua parte. No início da década de noventa, quando eu fazia meu último ensaio sobre a obra de seu ilustre filho Gilberto Mendonça Teles, descobrindo aproximações entre sua vida e obra e a de Cassiano Ricardo, descobrindo até mesmo extremas coincidências em fatos biográficos desses dois autores, desfrutei de uma convivência muito próxima com dona Celuta, ouvindo seus depoimentos. Ia à sua casa, construída ao lado da residência de seu outro também ilustre filho, José Mendonça Teles, que a edificou, e onde ela viveu quase todo o tempo de sua viuvez, até a sua morte, em 1995. Outras vezes eu a buscava para um lanche. Cheguei a dizer, em Lavra dos goiases: Gilberto & Miguel, referindo-me a esses encontros, que “ D. Celuta era a mais velha de minhas amigas e que, no entanto, tinha a doçura e a pureza de uma menina. Por isso jamais desconfiou de que estivesse sendo entrevistada. O clima sempre foi de confiança e de amizade”. E essa, cultivada enquanto ela viveu, e consolidada por inúmeros gestos mútuos de carinho, ao longo desse tempo.
Esta era a Celuta que eu primeiro conheci. A face da Lua esplendente, o plenilúnio e sua luz filtrada. Essa imagem não mudou depois que li seu primeiro livro de memórias, História da menina de Pirenópolis, lançado a 17 de agosto de 1991, para comemorar os seus 80 anos. Esse livro registra momentos da história pessoal da autora, a começar por sua infância e parte de sua adolescência em Pirenópolis, alcança o outro segmento de sua adolescência em Bela Vista, até o seu noivado e a data de seu casamento, encerrando-se com sua partida para Hidrolândia.
A atmosfera desse primeiro livro às vezes fica nublada e a luz se dilui, porque ele, além de belos momentos de sua infância, registra a maior, se não uma das maiores tragédias da vida da menina de Pirenópolis. Não propriamente pelo fato de ela haver sobrevivido à gripe espanhola em 1919, epidemia que dizimou muita gente do lugar a partir de 1918, ou de haver sofrido tuberculose em primeiro grau, ainda menina, mas, sobretudo, por ela haver passado pela perda de sua mãe aos sete anos de idade, com a mesma enfermidade (a gripe espanhola), apenas dois meses depois de ela própria havê-la contraído.
A menina de Pirenópolis, que tinha mãe zelosa, que lhe fazia cachos aos cabelos e lhe prendia laços de fitas para as missas de domingo; que exibia para os outros os dons vocais e a memória prodigiosa dessa filha que cantava longas modinhas de cor, morre, deixando cinco filhas: com 13, 9, 7 e 3 anos, além daquela de três meses, portanto em pleno período de lactação. É dramático o registro dessa morte e, principalmente, o da despedida da mãe, ainda “quentinha”, “às três horas da madrugada”. Adelaidinha, de três anos, é quem diz: “Acorda, mamãe, não dorme mais não!”. Celuta, de um tamborete no vão da janela, ao ver enterro passar, fala para si mesma: “Mamãe, fique com a gente, não nos abandone”.
O pai, visivelmente abatido, se ausenta em viagens intermináveis, até não mais aparecer, numa fuga propiciada pela profissão de condutor de tropas. Ele somente reaparecerá depois do casamento de Celuta. Cabe, então, à guerreira e exemplar avô materna, Adelaide, o leme da casa e a educação das netas. Essa mulher, Adelaide Cristina de Amorim, descendente próxima de Veiga Valle (sua mãe, Belisária Pereira da Veiga, era sobrinha desse que foi o mais importante escultor goiano século XIX), surpreendentemente para seu tempo, tinha, se não uma profissão, um trabalho: era agente do correio de Pirenópolis. Não fica claro se essa atividade era exercida em sua própria casa. Fazia e vendia também doces para suportar os muitos gastos com as netas órfãs.
Adelaide, segundo Celuta, sua segunda mãe, era “muito boa, mas também muito brava”. Era a educação à antiga, com os duros olhos da interdição sobre as netas. Este é o relato da menina de Pirenópolis: “Ela não deixava brincar com as nossas primas no quintal, e nem com porta fechada, tinha que ser tudo debaixo das vistas dela. Os primos iam em casa com as primas, eles não entravam, ficavam na porta até as primas irem embora”. Entretanto, feitas as obrigações, as órfãs tinham o direito de brincar na casa de bonecas. Menos Menina, a mais velha, que, com treze anos, assumiu responsabilidades de dona de casa. Começou, com a mãe recém-sepultada, aprendendo a costurar, para fazer as roupas do luto para si própria e para as irmãs. Isto lhe renderia, mais tarde, o sustento da casa, quando assume a responsabilidade das irmãs, em Bela Vista. A costura dará, mais tarde, também à Celuta a dignidade de não ter de pedir dinheiro ao marido, coisa que sempre detestou. É esta profissão que lhe dará meios de, nas dificuldades, suprir carências na casa e alimentar seus filhos. Encarna o arquétipo da mãe provedora.
Duas figuras femininas se avultam em História da menina de Pirenópolis. Na verdade, uma se destaca no início da narrativa: avó Adelaide. Sozinha assume as netas, órfãs de sua filha Adélia, embora conte, é bem verdade, com a ajuda financeira de seu filho Antenor, que lhe envia, de algum lugar (Celuta não esclarece), dinheiro para complementar as despesas, pagas ao fim de cada mês. Mas a figura de Menina, a irmã mais velha de Celuta, vai crescendo aos poucos e ganha contornos próprios, chegando a alcançar o início da narrativa da segunda obra de Celuta, Minha vida de casada. Menina ajuda a administrar a casa de Pirenópolis, olha pelas irmãs e inicia-se na profissão de costureira. Dessa, digamos, profissão de costureira, tira o sustento para si e para as quatro irmãs, quando se mudam para Bela Vista, com a ajuda de seu tio Antenor que lhes compra uma casa próxima à sua.
Até o casamento de Celuta, as duas figuras humanas mais fortes são Adelaide e Menina. Da mesma têmpera, são duas guerreiras. Já, em Minha vida de casada, nada é maior, em termos humanos, do que a própria Celuta. Ela é a grande heroína, embora singela, como sempre foi, apenas relate de forma isenta os fatos, sem jamais desejar se enaltecer. Mas foi tão guerreira quanto os seus modelos anteriores. É comovente ver o que essa mulher foi capaz de passar, em nome dos filhos. Conheci outra Celuta: o outro lado que o olhar não alcança; a face oculta dessa Lua-mulher.
A menina frágil, de saúde delicada, teve, aos doze anos, um noivo arranjado em Pirenópolis. Não podia sair de casa porque estava noiva. Era noiva, lhe asseguravam isto, o pedido fora aceito por sua avó. De um homem que lhe passava à janela ruidosamente a cavalo, e era visto através das vidraças, todas descidas, ele perdido em sua barba escura e bigodão preto, “que lhe consumia o rosto”. Dele, ficava o aceno de mão. E a constrição social, a proibição da avó ao mais ingênuo passeio: “Você é noiva. Não pode ir”. Um homem que apenas a viu de perto, quando ela tinha seus nove anos, que a assentou ao colo e com ela se encantou: “A senhora já viu, Mãe, menina mais bonita que esta?”. Abraçava-a e a chamava de “noivinha”.
Depois da mudança para Bela Vista em 1924, Celuta decide pôr fim ao esdrúxulo noivado, ao “noivo para inglês ver”. Não lhe responde o cartão vindo pelo correio e se apaixona por outro moço, talvez mais por suas serestas. A família impede o namoro. É moço sem emprego, dado às serenatas. Desfaz-se o namoro. Refaz-se com o emprego de telegrafista em Piracanjuba. Celuta guarda fidelidade e a pureza de seu coração. Todavia, a cunhada de seu tio Antenor, irmã de sua tia Nayá, que era agente do correio em Bela Vista, numa armação familiar, oculta as cartas daquele que lhe havia jurado amealhar dinheiro e voltar para se casar com ela. Sem uma única resposta, ao longo do tempo, o amor do jovem se esvai. Casa-se com outra e Celuta fica, a princípio, sabendo apenas desta parte da história. A outra lhe chega, depois, com a dor de quem contabiliza a primeira perda amorosa: a de um lírico amor, só entrevisto de longe, e alimentado ao som das modinhas ao luar.
Aquele que seria o seu marido lhe aparece, logo depois dessa perda. A irmã Graciema e seu cunhado Nhozinho facilitam e até promovem o encontro entre Nêgo Teles e Celuta. Casamento sem que o par se conhecesse ou se gostasse era muito comum naquela época dos casamentos arranjados. Embora fossem felizes depois, segundo depoimento de Celuta, esse foi o caso de Graciema e Nhozinho. Graciema, que já namorava um primo, chora ao saber que seu tio Antenor lhe arranjara casamento em Bela Vista, com Nhozinho. Ele, por sua vez, namorava outra moça. Depoimento de Celuta: “Graciema foi chorando para não se casar. Ela tinha 15 anos. Mas, assim mesmo casaram-se e viveram felizes”. Isto lembra o meu avô, nascido no século XIX (minha mãe é de 1918) e que dizia: “A mulher casa e depois aprende a gostar do marido”. Ele, um dia, pegou seu cavalo e foi à fazenda vizinha combinar o casamento de minha mãe com o filho de outro fazendeiro, seu compadre”. Ao vê-lo afastar-se, minha mãe indagou aonde iria o pai. Minha avô, na maior naturalidade: “Vou lhe dar uma boa notícia. Seu pai foi tratar seu casamento com o filho do compadre”. Minha mãe, em prantos, disse que não se casaria com aquele rapaz de nenhum modo. Minha avó: “Menina sem graça, ele é um moço muito bom e você não pode fazer desfeita!”. A sorte de minha mãe foi que, muitíssimo pesaroso, o compadre disse ao meu avô que havia acabado de tratar o casamento do filho com outra moça.
Nego diz a Graciema que desejava muito conhecer Celuta. Sempre ouvira dizer que era moça muito bonita. Sonhava com ela antes de conhecê-la. Depois de um namoro à antiga e um noivado de dois meses, Celuta e Nêgo casam-se às cinco horas da manhã: “como ele era apressado”, escolheu a primeira missa. Não sem antes haver passado a noite toda daquela véspera de casamento dançando e namorando uma certa Genoveva. E a noiva se debulhado em lágrimas, confidenciando à irmã Menina, às duas horas da manhã (portanto, três horas antes do casamento) que não queria se casar, que o seu coração não lhe pedia que fizesse aquilo. Embora liberada pela irmã, resolve casar-se mesmo assim, porque percebe que já causara despesas que resultariam inúteis, e também para se livrar do jugo dos tios, Antenor e Nayá, que lhe faziam fechado cerco. Não sabia ela que apenas trocaria um jugo por outro.
Minha vida de casada é o relato pungente de uma mulher que viveu, como mulher casada, o absoluto domínio patriarcal no interior de Goiás, no início do século XX. É o único relato específico sobre o assunto e de próprio punho, dessa época, que conheço em nossa literatura. Por meio de Celuta, podemos alcançar todas as outras mulheres desse tempo recuado, suas agruras, suas lutas e, no caso, sua comovente dignidade preservada, enfim, sua história de vida.
Esse é um duro tempo. O homem vai para o casamento com todas as experiências sexuais e a mulher, na mais absoluta pureza. Ele, via de regra, já freqüentou bordéis, conheceu “damas” altamente experientes e a noiva é pura fragrância de flor-de-laranjeira. Não é de se espantar que, oito dias depois de casado, Nêgo trate tão rudemente sua jovem mulher por causa de uma lamparina sem pavio e dela tome raiva aos dois meses de casado. A raiva passa, mas os desencontros ficam. São duas experiências em extremo descompasso.
É compreensível que Nêgo, acostumado ao terno e gravata, mesmo vivendo no interior, deseje ver Celuta sempre muito bem vestida, de ruge e batom, ainda que tenha de fazer todo o serviço da casa. Estranha à sua mulher, no entanto, o fato de que jamais ela consiga agradá-lo, por mais que se esmere: “As outras mulheres para ele eram bonitas e andavam bem arrumadas; eu podia me arrumar e ficar como ele gostava, mas nunca estava do gosto dele”. Celuta diz ainda: “Menina, minha irmã, fazia os meus vestidos e eu tinha o corpo bonitinho, mas nunca estava bom, os vestidos estavam feios e tudo em mim ficava feio”. Lembrando seus 18 anos e assumindo a culpa que vem desde o Paraíso, Celuta se indaga: “Por que eu era assim? Eu ficava triste pois, por mais que eu me arrumasse, não lhe agradava”. O problema não era ela. Aqui caberiam com grande justeza as palavras de Schopenhauer (São Paulo: Nova Cultural, 1988), exatamente em Dores do mundo: “O amor do homem declina de um modo sensível, desde o momento em que foi satisfeito: dir-se-ia que todas as outras mulheres lhe oferecem mais atrativos do que a que possui; aspira à mudança. O amor da mulher, pelo contrário, aumenta a partir deste momento”.
Celuta e Nêgo pertenciam a “vocações” sociais distintas. Ela nasceu e viveu em Pirenópolis, centro cultural do interior de Goiás e berço da imprensa goiana, até os seus doze anos. Sua terra viu nascer o nosso primeiro jornal, A Matutina Meiapontense, onde se ouviu entre nós, por meio de uma carta, o primeiro grito feminino por direito ao trabalho. Se a menina de Pirenópolis freqüentou apenas dois anos de escola, por tantas circunstâncias que a impediram de continuar seus estudos, pelo menos fazia parte de uma sociedade que freqüentava teatro, lia romances, e chegou a aprender (com Ladislau Siqueira, segundo familiares) a tocar um pouco de bandolim, instrumento que executava mesmo depois de idosa. É impressionante a quantidade de modinhas que deixou registrada em cadernos para seus filhos Gilberto e José. Além de dois livros de memórias, só de “Canções de meu tempo” deixou seis cadernos. Um de orações e outro de histórias que ouvia de sua avó Adelaide. Essa teve um filho que galgou altos postos políticos (chegou a senador estadual) e viajava pelos grandes centros do país. Digamos que Celuta era mais citadina.
Nêgo era filho de fazendeiros, tinha uma tradição mais rural, embora tivesse forte vocação para o comércio. Tanto que o espantava, e mesmo o impacientava, o fato de sua mulher não saber montar a cavalo. Quando se casou, aos 22 anos, ofereceu casa própria à jovem esposa, de 18 anos, possuía uma loja e até mesmo um automóvel, o que era raro à época. Se não prosperou, embora tivesse tido mais de uma loja, foi por causa da inconstância nos negócios, das “gambiras” e, mais tarde, por causa do hábito de beber e de jogar. Sua loja foi ficando, cada vez mais, sob a responsabilidade de Celuta e do filho Gilberto que, praticamente, não teve infância. Como eu já disse em Lavra dos goiases: Gilberto & Miguel, “Gilberto, sem direito à liberdade de criança, ajudava o pai na loja de Brazabrantes ou dela tomava conta nas freqüentes saídas do pai pela cidade”. Mas isto parece agora um eufemismo. Celuta, que teve, algumas vezes, a comovente solidariedade desse filho em criança, confessa que o menino não tinha direito de sair da loja nem para tomar água. Era repreendido pelo pai, se o flagrasse fora dela. Se o pai era, às vezes, violento no seu absoluto poder de pater familias, a mãe era toda doçura para os filhos que concebeu.
Celuta era o anjo tutelar, a mãe provedora, a serva da casa. Raramente contava com ajudante para, pelo menos, lavar as roupas. Fazia todo o serviço da casa, tendo às vezes de limpar arroz ao pilão, coisa comum àquela época. Isto era tarefa de escravas, que foi legada às mulheres. Ajudava também na loja, mas jamais lhe faltava tempo para fazer “quitandas” para os filhos. Costurava, muitas vezes até a meia-noite, para filhas de famílias de posse, recebendo dinheiro; ou para mulheres das fazendas, praticando escambo: em troca, recebia polvilho, ovos, frangos e queijos. E se gaba de que, assim, seus filhos não passavam fome.
Teve uma vida duríssima, porque seu marido, forjado no mais autêntico modelo patriarcal-rural, achava que a ela cabia todos os deveres e a ele todos os direitos. Celuta era obrigada a realizar árduas tarefas, até mesmo enquanto sofria as dores do parto. Mas não foi a mulher inteiramente passiva de seu tempo. Preservando sempre a sua dignidade, respeitando-se a si mesma, apresenta algumas iniciativas próprias e inesperadas, mesmo na relação com o marido. Chegou a surpreendê-lo alguma vez. Também não lhe faltaram gestos de grandeza humana e de solidariedade ao marido. Este, que ela dizia, sempre muito correto nos negócios e implacável, quando flagrava um dos filhos em ação que considerasse reprovável.
Não é em "Minha Vida de Casada" que Celuta resume, ao fim da narrativa, a sua vida de casada. Ela o faz em História da menina de Pirenópolis. Sintetiza sua vida inteira com três expressões de dilacerante carga semântica e com uma quarta, de redenção: “Bem, na minha vida de casada, sofri, chorei, tive desilusões e também tive algumas alegrias, só de ter meus filhos, que são tudo para mim”. Logo abaixo, num visível processo de reiteração, deixa claro o que foi para ela o seu verdadeiro oásis neste mundo: “Meus filhos são a alegria da minha vida. É que o Gilberto, o Lourival, o José, o Ideraldo, a Laíla, são a alegria que eu tenho”.
Barbara Black Koltuv, autora da obra A tecelã (São Paulo: Cultrix, 1990), começa o primeiro capítulo de seu livro com as palavras de uma mulher nobre da Abissínia, cujo pensamento intrigante me lembra Celuta, se não todas as mulheres. Dele, tomo pequena parte:
O homem é o mesmo [...]. Ele é sempre o mesmo, antes ou depois de se unir a uma mulher pela primeira vez. Mas o dia em que a mulher experimenta o primeiro amor, ela se parte em duas. Nesse dia, torna-se outra mulher.O homem permanece o mesmo depois do primeiro amor. A mulher é outra depois do primeiro amor. Isso continua acontecendo a vida toda. O homem passa a noite com uma mulher e vai-se embora. Sua vida e seu corpo permanecem os mesmos. A mulher concebe. Como mãe, ela é uma mulher diferente da mulher que não tem filhos. Ela carrega o fruto da noite por nove meses em seu corpo. Alguma coisa cresce. Em sua vida, cresce algo que nunca mais a deixará.
Apesar de sua vida massacrada, Celuta pode dizer, com o seu coração de mulher: “Só sei que vivi quarenta e oito anos com o Nêgo. [...] Mas uma coisa eu digo: eu fui para ele esposa e mãe. Também gostava dele, até não precisava gostar tanto. Mas, enfim, termino a minha vida aqui. Meus filhos são a alegria de minha vida”. Coube a esta mulher, como a tantas de seu e de nosso tempo, amar unilateralmente o marido e carregar a glória de ter os filhos que teve. Não a glória de ter filhos ilustres, uma vez que os teve (e muito mais ilustres se tornam depois desse pungente relato), mas a glória de ter todos os filhos que cresceram à sombra de seu coração e que nunca mais a deixaram. Essa, a sua verdadeira felicidade.
Resta uma palavra de louvor a José Mendonça Teles, o filho que Celuta dizia jamais lhe haver dado trabalho, a iniciativa de haver pedido à mãe que registrasse em caderno a sua vida, as suas memórias. E também a Gilberto Mendonça Teles, “menino levado demais, que não parava”, enfim a ambos muito amados e protegidos por sua mãe, que não deixaram este livro se perder no ineditismo. Por ele, a mulher contemporânea poderá se ver num outro tempo e espaço. Ou simplesmente rever a sua história, olhando-se nesta fresta entreaberta por Celuta, onde pulsa a sua vida que é, também, a de todas as suas companheiras de espécie.


