Três vozes libertárias no universo poético feminino: Hilda Hilst,Yêda Schmaltz, Adélia Prado

 Hilda Hist   Yêda Schmaltz    Adélia Prado

 - “ Porque, criança, aprendi / na feira: ave e mulher/
   Cantam melhor na cegueira”.  ( Hilst Hilda, 2002, p. 60)

 -  “ Sempre me recusei a ser anjo/ eu amo a rebeldia”/.( Schmaltz, Yèda, 1996, p. 133).
 -  “Qualquer coisa é a casa da poesia” /.( Prado, Adélia, 1978, p. 151).

  

                    
Buscar o elo que prende, ou libera, que iguala ou diferencia, mas que, inevitavelmente, ilumina os “ cantares” de três de nossas melhores poetas: Hilda Hilst, Yêda Schmaltz, Adélia Prado, eis o nosso propósito.      
  
Motivada pelos versos em epígrafe, pensamos que a angústia existencial que preside a todo canto poético toma, aqui, feições personalizadas, trilhas que impelem a caminhada crítica pelos labirintos de três processos de criação distintos nas cores , mas afins  no seu propósito.
  
E, para isto, buscamos um veio que nos permita roteiro de questionamentos e descobertas, num universo múltiplo, mas acionado pela mesma propulsão poética: vozes libertárias, veículos de propostas ousadas, ainda que visceralmente humanas.
  
E, parece-nos, encontramo -lo  no misticismo, essa força transcendental que aciona, com diferentes feições, o grito poético de nossas   musas.
  
Assim, para Hilda Hilst,( 1930- 2004), proporíamos o filão de um misticismo paranóico, alucinado, corpo divino e humano em amálgama, num repto de visões, numa  provocação dessacralizadora,  paradoxal,  sacrílega, mas de indubitáveis questionamentos existenciais e poéticos.
  
Não foi à-toa que o poeta e crítico Mário Chamie  assim se manifestou  a seu respeito: “ Hilda Hilst foi uma escritora liberta e corajosa, que fez da solidão a fonte fecunda de sua incomum obra literária. Deixa-nos uma prosa pulsante ao lado de sua bela poesia visceral.”
                    
Para Yêda Schmaltz,(1941-2003) o de um misticismo mítico, que assenta suas bases na práxis das referências mitológicas que ela recria de maneira ousada, pós-moderna. Busca, pois, de maneira sistemática, na Mitologia clássica, as raízes de seu fazer literário. E, como pudemos  afirmar em “ Yêda  Schmaltz e a esteira luminosa de sua poesia”  in GEN: Um sopro de renovação em Goiás.( 2002, p. 75), “Yêda Schmaltz foi uma das grandes expressões poéticas do GEN ( Grupo de Escritores Novos),  movimento que abriu fronteiras para a criatividade estética e para as perspectivas dos estudos literários em Goiás, tendo duração, como grupo, de 1963 a 1969, sendo lembrado, depois, pela atuação dos seus participantes que souberam dar continuidade aos seus princípios criadores.”
        
Por que, seu lugar, ao lado de Hilda Hilst e de Adélia Prado?
                  
Como pudemos afirmar na continuidade da citação acima, e como constataremos na seqüência  deste ensaio: “ Na verdade, toda a obra de Yêda nos oferece campo precioso para averiguações sobre seu inigualável poder de, apontando para os mitos clássicos, recriá-los dentro de sua visão feminina-feminista - sempre revolucionária -  miticamente anárquica. Para ela, seria fundamental, tanto para o ser humano, em geral, como, especificamente, para a mulher, que se abandone a falsa aparência,  e,  interpretando o psicólogo suíço Jung,  que se abandone a “ persona”, mediante a qual assumimos uma máscara que nos leva a uma vida de pouca autenticidade.   

• Aqui, para efeito de publicação em Revista, exporemos, sinteticamente,  uma síntese crítica    do longo e substancioso ensaio de nossa autoria; na  verdade, uma resenha que vai  permitir  a  referida  visão crítica sobre a matéria.  


Então, Yêda refuga assumir esta máscara; quer ser ela mesma ; assim, através de sua recriação, encontraremos figuras míticas da Antiguidade clássica, renovadas, como Penélope, a  heroína submissa de Homero, em Ulisses - fazendo e desfazendo seu manto, para nunca terminá-lo, uma vez que, só então, se sentiria disponível para os outros pretendentes -  transfigurada, em Ecos-A jóia de Pandora, heroína de  Yêda, numa versão pós-moderna da postura amorosa da mulher guerreira - novas Atalantas; versão especular que, na  verdade, recobre a própria Yêda, numa extensão de Ecos, quando afirma: “ Amar é uma anarquia e somos parte de uma minoria” ( Schmaltz, 1996 p. 84 ).
         
Sua estranha consciência feminista, a agudeza sarcástica e insubmissa de sua verve poética, sua irreverência e coragem , fazem de sua heroína uma guerreira liberta dos entraves convencionais e cujo símbolo é a borboleta—metáfora da mulher desenvolta, a que não vê no  seu  Ulisses um herói, mas o machista prenhe das falhas que a sociedade mascara, cultua e aceita. É o que veremos, na seqüência desta pesquisa, num estudo centrado nos seus livros,  Alquimia dos nós ( 1979); Ecos- A jóia de Pandora - (prêmio da Bolsa de Publicações Hugo de Carvalho Ramos, 1995 e publicado em 96 ); e Rayon ( Prêmio da Bolsa Cora Coralina, 1997, publicado no mesmo ano).
 
E, finalmente, Adélia Prado, outra voz libertária que nos desvela as sendas de  um  misticismo religioso, sensual,  mas dessacralizado, na simplicidade das coisas imediatas, das coisas triviais, dos impulsos primários, numa visão eclética das forças viscerais psíquicas e físicas. Na coletânea de seus livros poéticos: Poesia reunida (1991), veremos como se processa a interação entre sagrado e profano, a partir de sua afirmação  feita, em palestra aqui em Goiânia, ( maio de 2006): “  Quando falo do sagrado, estou falando necessariamente de um campo onde acontece a experiência poética”. E completa: “ A linguagem religiosa real é poética e o poeta é necessariamente religioso”. Adélia  prima pelo frescor de seus versos, no enfoque malicioso das coisas  viscerais, pelo enlace, por exemplo, da sedução e irreverência, como nos revela neste seu verso: “ A tristeza cortesã me pisca os olhos” ( Poesia reunida, p. 70).
 
Confirmam – se, pois, os projetos poéticos metalinguísticos de nossas três poetas Hilda Hilst, Yêda Schmaltz, e Adélia Prado, nas quais consagramos o poder  de uma voz libertária, manifesta nos vieses transcendentais de um misticismo paranóico e provocador – para Hilda Hilst, - misticismo mítico, subversivo e recriador – para Yêda Schmaltz , -  misticismo religioso e sensual – para  Adélia Prado, além de, cada  uma, na sua técnica poética,  levantar questionamentos existenciais, dessacralizando as forças da tradição que, na visão delas, limitam a personalidade e o poder de criação poética.

Moema de Castro