O Tesoureiro do Caixa Zero

Para o bem e para o mal, aqui é terra de tesoureiros. No anterior e no corrente governo, a presidência do Banco Central (o tesoureiro do país) foi/é exercida por goianos. Em tempos recentes, Goiás esteve em boca de Matilde da mídia nacional por ter cedido o espaço de nascimento a certo político que atuou como tesoureiro do Caixa Dois do mais rumoroso caso brasileiro de corrupção de todos os tempos. Tal episódio foi batizado pelos moldadores de eventos com o singelo nome de Mensalão.
 
Ser tesoureiro de caixa dois é mole. É claro, desde que preenchidas as eventuais lacunas do caráter com a devida desfaçatez e boas doses de maldade. Quero ver é o camarada ser tesoureiro de Caixa Zero, de onde você não tira nem retira nada e com certa freqüência tem até que ser  desprendido a tal ponto de lançar as inevitáveis despesas a débito do próprio bolso.
 
Por isso dos tesoureiros que temos o que mais nos enche de orgulho e honra é um certo operador de Caixa Zero. Estou me referindo ao escritor Bariani Ortêncio que, desde a fundação de Goiânia tem sido, sem cerimônia, o tesoureiro das instituições sem recursos.

Começou aos 18 anos como tesoureiro do Atlético Clube Goianiense. De lá pra cá, como a cumprir uma sentença de pena de vida, não parou mais. Foi tomar conta do cofre da União Brasileira de Escritores, do Instituto Histórico e Geográfico do Estado de Goiás, da Academia Goiana de Letras e assim por diante. Até da recém-criada Academia Goianiense de Letras, adivinha quem é o tesoureiro?

Ele só não assumiu a tesouraria da Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás pela sua incontornável condição masculina, em desacordo com os estatutos da entidade. Mas mesmo diante do impedimento intransponível, há quem diga que ele presta consultoria àquela instituição desmonetizada. E só tem duas formas de prestar consultorias a entidade sem dinheiro: de graça, e eventualmente enfiando a mão no bolso. 

Com relação ao Bariani não dá para dizer que ele “foi” ou “é” tesoureiro desta ou daquela entidade. Acho que a única forma de dizer é que ele “tem sido”. Entra chapa, sai chapa, seja de situação, seja de oposição, o Bariani está lá firme, na sua posição de tesoureiro perpétuo.

Não sei se é verdade, mas corre à boca pequena que certa vez numa instituição ele concorreu em duas chapas ao mesmo tempo. Como o estatuto não proibia e o que não era proibido, permitido foi.
 
Mas este é apenas o lado folclórico da vida deste paulista de Igarapava de nascimento, mas goiano de coração. O Paulistinha que por aqui chegou aos 15 anos, bem na fundação da Capital. Desde então foi goleiro do Atlético, atleta de corrida (fundista), alfaiate, comerciante (sua rede de lojas Paulistinha é a mais antiga em atividade em Goiânia), fazendeiro, industrial (pioneiro na exploração de granito em Goiás), romancista, poeta, cronista, compositor, dicionarista, radialista, apresentador de TV, historiador, ecologista, pesquisador de folclore e hábitos de nossa gente, conferencista, animador cultural, ufa!
 
Sua Cartilha do Folclore Brasileiro, prêmio João Ribeiro de Folclore da Academia Brasileira de Letras é uma obra de referência Nacional. Sua trilogia Dicionário do Brasil-Central, Cozinha Goiana e Medicina Popular do Centro-Oeste se constitui num trabalho sem par em todo o País. Afora tudo isso, Bariani é produtor e apreciador de uma boa cachaça, pescador convicto do Rio Araguaia, cozinheiro de mão cheia e um papo da melhor qualidade.
 
Aos 85 anos vividos com plenitude e num momento singularmente produtivo, Bariani Ortêncio mantém viva a sua curiosidade de menino e sua capacidade de trabalho de um mouro. Está mais cheio de projetos do que um adolescente ambicioso. E para coroar de êxito este momento mágico em sua vida, a Segunda Bienal do Livro de Goiás será realizada em sua homenagem. Muito bem merecido, aliás.