A.G. Ramos Jubé: O Ultimo Afluente Esquecido da Poesia Goiana
 

Por:

Brasigóis Felício

Saber um poeta fazer versos deve ser qualidade natural e essencial em quem se nomeie como tal – mas não é. Tanto assim que o poeta Carlos Drummond de Andrade expressou sua impressão positiva da leitura que fez de seus livros Flauta andarilha e Lira Vilaboense: “Trata-se de um poeta que sabe fazer versos. Coisa raríssima hoje em dia! Tanto na forma lírica como na acadêmica, A.G. Ramos Jubé domina a forma poética, e isto é gostoso de se verificar”. Gilberto Mendonça Teles, craque tanto no ofício de poetar, e também no de criticar, vai na mesma linha do gauche itabirano: “Aí está uma obra que, sem pagar tributo às modas literárias, revela, coerentemente, a sua linguagem particular de poesia. Em cada poesia, podem-se ler as sutilezas de um artista que sabe de seu trabalho intelectual, que sabe ir do soneto, maleável e polissêmico, a expressões líricas funcionalmente válidas, como no poema Variações sobre o Araguaia”.

 
Perdeu a academia e o mundo literário goiano um de seus mais inspirados poetas: A.G. Ramos Jubé nasceu na cidade de Goiás, em 1927. Descendente, pelo lado materno, do grande escultor Veiga Valle, cedo ainda, manifestaram-se nele, pela lei da genética, as artes plásticas, e se pôs a desenhar. Ninguém jamais poderá determinar o ser de uma pessoa. O homem é ou não é, tem sensibilidade ou não tem. Aos vinte e dois anos publica seu primeiro livro, Duas elegias, para logo depois, ainda no começo do poetar, como quem se despede, oferecer ao público Últimos poemas. Cursou Direito na Universidade Católica de Goiás, fez o curso de Letras Neolatinas, concluído em 1958. Na UCG (hoje PUC) foi aluno de Gilberto Mendonça teles, vindo a sucedê-lo na disciplina. O literato pagaria tributo ao jornalismo, para a qual pendiam os poetas e escritores de seu tempo. Exerceu o cargo de Promotor de Justiça em Goiânia, tendo sido promovido, por merecimento, ao cargo de Promotor de Justiça.

 
A poesia de lirismo cantante, afeita à contemplação do bucolismo da província natal, objeto de sua veneração, marcou a criação literária deste vilaboense ilustre. Na academia, e no convívio com seus pares, revelou sempre generosidade e gentileza, demonstrando interesse por acompanhar a produção de poetas e escritores que admirava. Em texto de apresentação de sua antologia poética, publicada pela coleção Vertentes, (Editora UFG) a ensaísta e poetisa Darcy França Denófrio fala de uma “solidão dos afluentes esquecidos”: “Pertencem a esses afluentes vozes que carregam no seu seio o fluxo da tradição greco-latina. "(...) Jubé tem mais algumas razões para sustentar essa alta solidão de afluente esquecido. Entre os intelectuais, notabilizou-se por seu excelente estudo sobre a literatura goiana, Síntese da história literária de Goiás, e é muito mais lembrado por este trabalho do que propriamente por sua poesia". Segue Darcy Denófrio em seu brilhante ensaio sobre a poética de A.G. Ramos Jubé.

 
Enviei a Darcy França Denófrio um e-mail em que falo: “Jubé era de uma simplicidade e despretensão tocantes. Ainda que isto não o tenha ajudado para dar visibilidade ao seu talento. Em nossa sociedade de valores invertidos os tímidos passam desapercebidos. Ganham notoriedade, fama (ainda que à custa de infâmia) os que superestimam seu talento, inflacionam com projeção imerecida o seu valor. Há tantos assim na literatura e na vida goianas...
 
Na academia mesmo ele foi pouco visto - você é dos poucos que levantaram a voz, não só estudando sua poesia, mas trabalhando para publicá-la em momento mais que oportuno. Embora isto não tenha o devido reconhecimento, não importa: você fez o que era preciso fazer. No dizer de Fernando Pessoa: "Cumpri, com meu destino, o meu dever ao mundo. Inutilmente? Não, porque o cumpri".
 

Aquilo que falo dos outros atribuo também a mim: por que, conhecendo o valor deste poeta, só escrevo sobre ele depois da sua morte? Talvez por um fenômeno que se dá entre os autores muito fechados em suas egoidades, com olhos só para si mesmos: as pessoas só se tornam visíveis depois que morrem. É a realidade da modernidade líquida, em que até os relacionamentos são apenas virtuais, podendo deixar de existir com um simples adicionar ou deletar no teclado do computador.


Em sua penetrante e ainda não concluída Hidrografia Lírica de Goiás, Darcy França Denófrio tem prestado tributo às grandes vozes da poesia brasileira feita em Goiás – e se tal fato não é proclamado com a admiração que merece tal trabalho, é porque Goiás tem o péssimo costume de sabotar a si mesmo, uma espécie de conspiração do silêncio condenando à solidão ou ao esquecimento o fecundo trabalho de críticos brilhantes, como o de Darcy França Denófrio, José Fernandes, e mais uns poucos. Para não dizer que relega ao oblívio (desde a vida até a morte) impedindo que falem às gerações do futuro, vozes poéticas tão inspiradoras, como a que vibra na obra poética de A.G. Ramos Jubé, desconhecida até mesmo para a maioria de seus colegas de academia.

É uma triste realidade esta, que impede o reconhecimento dos valores da cultura: o supor que um escritor só o é de verdade, e tem talento confirmado, se ingressar em Academia de Letras, sendo ao menos imortal estadual, tirando cera do nariz, uma vez não chegando á glória de tirar ouro das ventanas, como imortal federal... ou, na melhor mas improvável hipótese, será levado em consideração, sendo digno de atenção e apreço, bem depois de sua morte, e mesmo assim, se tiver sido um imortal.

 
José Mendonça Teles, admirador do poeta Jubé, apresenta seu livro Calendário reforçando as palavras de seu mano Gilberto, no importante A poesia em Goiás, que está a merecer nova edição, na qual se inclua a produção da nova geração de poetas goianos, e para que não se pense que secou o rio da poesia goiana depois de 1960. “Sua obra poética se caracteriza pela espontaneidade, em conquista gradual do poder de expressividade e destreza verbal, bem como pela facilidade em descobrir a beleza nas coisas mais simples, desde a tosca realidade de uma árvore pau terra, às mais profundas e líricas emoções do coração humano”. Além disto, reforça JMT, o historiador da poesia goiana o vê como um excelente crítico literário. O Jubé que dará uma notável prova disto na sua futura Síntese da História Literária de Goiás”.

 
No poema Interlúdio Rural, o poeta reverbera iluminações da paisagem da província em plena metrópole. E sua inspiração revela-se nitidamente cabralina, permitindo-se um oportuno e iluminador intertexto:” Os galos cantam na madrugada do Setor Oeste. - Não te parece extraordinário?/A urbe cresceu, preencheu todos os espaços/na concretude arquitetônica dos edifícios/que galgam os céus!/ No entanto,/galos cantam nas cercanias./Há um frescor rural próximo,/onde se advinham quintais, chácaras,/onde os galos convocam a manhã/”.

 
Elegia Coralina é outro inspirado poema de A.G. Ramos Jubé, publicado em sua antologia poética: “Seus olhos estão fechados, agora, na consideração do novo/que lhe enviava o sol da manhã./Toda manhã o sol batia-lhe à janela/para dizer-lhe bom dia./E seu ouvido captava o recado do morro/ali defronte/ Criatura vivente na alma da paisagem,/ela era um elemento da paisagem,/como o rio, gato manso, que lhe passava ronronando ao pé,/e a rola que desfiava as queixas no quintal./E a casa velha da ponte./E a própria ponte da Lapa sacudida aos trancos/do tráfego pesado./ (...) Minha amiga, agora, está dormindo./Cante o rio manso/uma música antiga do passado antigo de adormentar./A menina Aninha está dormindo/um punhado de lembranças desfeitas sob a nívea cabeça/cansada de tanto sonhar/”.

 
Sempre vi este homem, cidadão e poeta como um Ser, despido da vaidade de querer ser mais e melhor do que outros. Como nos versos de José Décio Filho, mesmo tendo a cabeça pesada de sonhos, não foi torpedeado por violentas paixões. Sempre quis – e conseguiu – ser apenas um homem simples, amável e honesto, pois a vida é muito séria. Aplicam-se a ele próprio, os versos que A.R. Ramos Jubé fez para sua amiga Aninha, a Cora Coralinda dos caminhos e dos becos de Vila Boa. Ele, que todas as vezes que nos encontrávamos, nas reuniões e sessões da AGL, recebia dele a alegre revelação: tinha retornado a Goiás, tinha lá sua casinha de varanda, de onde podia escutar o murmúrio dos morros, encantar-se com o sabiá na laranjeira do quintal, e ver o sol nascer, sem pressa de deixar as amáveis lembranças do quintal de sua infância.