
A Última Entrevista com Belkiss Spenzieri Carneiro de Mendonça
Bernardo Élis, José J. Veiga e Afonso Felix de Sousa colocaram Goiás no cenário literário brasileiro. Na música, pelo menos no início, Belkiss Spenzieri Carneiro de Mendonça foi a agente solitária que atraiu os olhos do Brasil para Goiás
Belkiss Spenzieri Carneiro de Mendonça: sua humildade escondia uma musicista ousada e inventiva
Neta de Nhanhá do Couto, uma das pioneiras da música em Goiás, Belkiss Spenzieri Carneiro de Mendonça é um dos mais importantes nomes do piano brasileiro. Já fez concertos na Europa, Estados Unidos, Américas do Sul e Central, México e Marrocos. Em 2002 foi eleita para ocupar uma vaga na Academia Brasileira de Música, entidade fundada por Villa-Lobos em 1945. Entre os seus admiradores está o compositor Marlos Nobre, de quem gravou músicas na década de 60. Na entrevista, a pianista conta historias de sua infância passada ao lado da avó na Cidade de Goiás. Também fala de sua carreira como musicista e relembra o primeiro concerto acontecido há 64 anos. Pouco vaidosa e nada afeita à auto-promoção, Belkiss era, segundo críticos e músicos, uma artista ousada e inventiva. Só não conseguiu mais destaque porque decidiu ficar em Goiás. Era uma espécie de Kant da música. Até que viajava para se apresentar noutros lugares, mas esses lugares não conseguiam convencê-la a abandonar a tranqüilidade de seu Estado, Goiás. O grande amor de sua vida, além do médico Simão Carneiro, foi a música. Mas, mesmo esse amor, não a levou a se mudar do Estado. Como se sabe, para fazer sucesso internacional, como o excelente pianista Nelson Freire, é preciso morar temporadas no exterior.
A entrevista, feita no início de 2005, foi publicada pela Revista Bula, editada pelo poeta Carlos Willian Leite. A própria Belkiss, meticulosa e atenta, fez a revisão do texto.
A pianista (e excelente cronista) , aos 77 anos. A entrevista que o Jornal Opção publicou com exclusividade provavelmente é a última de Belkiss.
Carlos Willian Leite — A senhora é neta de Nhanhá do Couto, um dos maiores patrimônios culturais da antiga Vila Boa, mas qual é a sua cidade-natal? Fale-me como foi sua infância ao lado de sua avó?
Belkiss - Nasci na Cidade de Goiás, em 15 de fevereiro de 1928. Fui criada por minha avó materna, Maria Angélica da Costa Brandão, carinhosamente chamada de Nhanhá do Couto. Ela era muito dinâmica, entusiasta e cheia de vida. Seu pai, o maestro Francisco Vicente Costa, deu-lhe uma base musical bastante sólida, compartilhada com muitas pessoas na Cidade de Goiás, onde passou a residir desde 1900. Tinha apenas 20 anos de idade quando, acompanhando o marido goiano, veio de Ouro Preto, percorrendo grande parte do trajeto a cavalo. Sua personalidade, enérgica e ao mesmo tempo afetuosa, marcou muito a família. Seu olhar era firme e penetrante e quando, severo, o dirigia a nós, crianças, revelava que algo de errado estávamos fazendo. À frente de seu tempo, organizou o Clube Caravana Smart, destinado a promoções artísticas e aos festejos carnavalescos, criando, também, a primeira orquestra destinada ao fundo musical do cinema mudo. Quando eu ainda era muito criança, ela me levava consigo para o cinema, onde, aproximando duas cadeiras, me ajeitava para dormir. E, entre cochilos, assisti a muitos filmes anteriores ao advento da sonorização. Tive, em seu convívio, uma infância muito feliz.
“Minha avó tinha muitos alunos e eu, com 3 anos, já “orelhava” as lições das outras crianças. Assim, dispôs-se a me introduzir no estudo do piano. Não gostei da experiência. Do momento em que virou obrigação, o instrumento perdeu seu encanto e muita gente amiga se lembra de mim chorando ao piano”
Carlos Willian — Com que idade a senhora começou a ter aulas de música?
Belkiss - Com 5 anos. Minha avó (que eu chamava de mãezinha) tinha muitos alunos e eu, com 3 anos, já “orelhava” as lições das outras crianças. Assim, dispôs-se a me introduzir no estudo do piano. Não gostei da experiência. Do momento em que virou obrigação, o instrumento perdeu seu encanto e muita gente amiga se lembra de mim chorando ao piano. Sentava-se ela a meu lado, com o crochê nas mãos e, supervisionando o estudo, exigia-me completa concentração. Nunca me bateu, mas, por causa do piano, castigou-me muitas vezes. A maior punição era privar-me de ir à matinê. Aprontando-se, encenava que iria sozinha. Permanecia na casa das filhas casadas e voltava dizendo que o filme tinha sido muito bom. Hoje, conscientizo-me de que ela sofria mais do que eu, impedindo-me de ver os seriados, as fitas de caubóis das grandes revistas da Metro.
Carlos Willian — Em que ano a senhora fez seu primeiro recital?
Belkiss - Foi em 1940 e tinha eu 12 anos de idade. Antes tocava em festas ou em programas coletivos. Sozinha, foi neste, realizado no Lyceu, cuja sala era grande e tinha um bom piano.
Carlos Willian — E Nhanhá do Couto estava com a senhora?
Belkiss - Claro, ela estava sempre ao meu lado. Já mocinha, nunca tive liberdade de conversar com um moço sozinha. O tio Alvarenga, certa vez, escreveu os seguintes versinhos: “Semeei no meu quintá/semente de maravia,/A cunversa tá com a vó,/o sentido tá na fia.”
Carlos Willian — Voltando àquela questão da influência...
Belkiss - A música sempre se fez presente no ambiente da casa de minha avó, conquistando-me. Quando ela percebeu que eu tinha vocação para a arte, forçou-me a adquirir a disciplina necessária à formação de um virtuose. Assim, quando meus irmãos ou amigas apareciam para brincar, só permitia que a eles me juntasse após a conclusão do estudo das peças por ela determinadas. Como as seis sonatinas de Clementi eram geralmente esquecidas de propósito, os meninos ficavam por ali, esperando que as terminasse e depois, cansando-se, iam embora.
Carlos Willian — A senhora teve reconhecimento muito cedo. Ele começou quando?
Belkiss - Não percebi. Trabalhei sempre por amor à música, sem buscar reconhecimento. Instada por amigos, candidatei-me a uma vaga na Academia Brasileira de Música e fiquei surpresa quando dois dos inscritos retiraram seus nomes em consideração ao meu trabalho. Sensibilizei-me com o gesto e fico feliz por ter sido a representante do Centro-Oeste naquele importante sodalício.
Carlos Willian — Ainda mocinha, a senhora foi estudar no Rio de Janeiro. Como Goiás era visto lá fora?
Belkiss - Quando me mudei para o Rio de Janeiro, no final de 1942, Goiás era um Estado muito pouco conhecido. Perguntas se sucediam: “Mas existe loira em Goiás?” “Toca-se piano em Goiás? Lá não tem só índio?” Na verdade, pouco se sabia sobre nosso Estado, de difícil acesso, situado bem no centro do país. Câmara Filho promoveu várias gestões a fim de despertar a atenção do país para a nova cidade que aqui se erguia: Goiânia. Hoje, o panorama é totalmente diferente e Goiás se projeta em todos os setores da arte.
Carlos Willian — Além da música caipira qual outro tipo de música predominava em Goiás?
Belkiss - A música chamada caipira era executada com naturalidade nas fazendas e nos encontros festivos religiosos. A seresteira (modinhas e canções) e os trechos de ópera eram cultivados com carinho. A música sertaneja, que hoje alcança tanto sucesso e é difundida pelas rádios e TVs, era inexistente.
Carlos Willian - Qual sua avaliação, hoje, sobre a música goiana? Em todos os níveis, da regional à erudita?
Belkiss - Um grande interesse se verifica. Há uma efervescência cultural nascente, muito evidenciada em Goiás e notada em todo o âmbito nacional. Com a profissionalização da música, grupos se formam para tocar e cantar em diferentes locais, aumentando cada vez mais o número de pessoas que prestigiam estas apresentações. Escolas de Música públicas ou particulares formam novos elementos, que escolhem seu direcionamento: para a música popular ou de concerto. O Corpo Docente da Escola de Música e Artes Cênicas da UFG, composta de grande número de Mestres e Doutores, oferece novos cursos, inclusive o de composição.
Luiz Alberto Queiroz — Qual o concerto mais importante que a senhora realizou na vida social de Goiânia?
Belkiss - Para o artista, todos os concertos são importantes. Refletem um momento de emoção. Um, especialmente, proporcionou-me muita felicidade. Quando dona Gercina, mulher do governador Pedro Ludovico Teixeira, adquiriu o piano do palácio, fui convidada para inaugurá-lo. Tinha apenas 13 anos de idade e nunca havia tocado num piano de cauda. O pedido era pra que eu encerrasse a programação festiva com a Fantasia sobre o Hino Nacional Brasileiro, de Louis Moreau Gottschalk, compositor norte-americano que a escreveu em homenagem à princesa Isabel, em agradecimento à família imperial pelas atenções que lhe foram dispensadas. Infelizmente, porém, logo depois contraiu a febre amarela, vindo a falecer no Rio de Janeiro. Voltando à minha apresentação, foi o Hino muito apreciado e fiquei contente com os aplausos e a oportunidade de interpretá-lo num bom piano e perante a elite goianiense. Ao sair, uma surpresa: recebo um envelope com delicado cartão de agradecimento pela minha participação e, junto a ele, uma nota de dez mil réis. Foi o primeiro dinheiro que ganhei, já que, à época, as crianças não recebiam mesada.
“Trabalhei sempre por amor à música, sem buscar reconhecimento”
Carlos Willian — A senhora é um caso raro de artista que conseguiu reconhecimento sem ter saído de seu Estado de origem. A senhora atribui isso a quê?
Belkiss - A vários fatores: fui dos pioneiros da cidade; co-fundadora do Conservatório Goiano de Música, uma das escolas integrantes do primeiro núcleo que deu origem à Universidade Federal de Goiás; formei muitos pianistas, alguns lecionando na Europa e nos Estados Unidos; dediquei-me a dar realce à música brasileira de concerto. Muitos amigos tentaram dissuadir-me de persistir nesta linha, dizendo-me que assim enterraria minha carreira.
Carlos Willian — Marlos Nobre, que também faz parte da Academia Brasileira de Música, colocou-a entre seus intérpretes favoritas. A senhora já gravou Marlos Nobre?
Belkiss - Tive essa oportunidade. São obras muito bonitas e de real valor. Gravei sua Toccatina, Ponteio Final e a Homenagem a Arthur Rubinstein. Em minhas turnês, geralmente apresentava duas modalidades de programas: um só com autores brasileiros e outro incluindo, na primeira parte, autores internacionais. Optavam, geralmente, pelo primeiro e eu ficava feliz pela oportunidade de mostrar nossa música em outros países. Nosso ritmo e melodias sentimentais agradavam em cheio.
Carlos Willian — Em quais países a senhora já tocou?
Belkiss - Em vários países da Europa, toda a América do Sul, Central, México, alguns Estados norte-americanos e Marrocos. Nas comemorações do centenário de Villa-Lobos, fui, a convite do Itamaraty, divulgar parte de sua obra em vários países da América Latina, por intermédio de recitais, gravações, work-shops, master-classes e palestras em universidades e escolas.
Carlos Willian — Quais são as entidades de cultura de que a senhora faz parte?
Belkiss - Vamos começar por Goiás: Academia Goiana de Letras, Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás, Instituto Histórico e Geográfico de Goiás, Conselho Estadual de Cultura, Conselhos Honorífico e Deliberativo da Sociedade Goiana de Cultura, União Brasileira de Escritores (seção de Goiás), Academia de Letras e Artes do Planalto. No Rio de Janeiro, faço parte da Academia Nacional de Música, da Academia Internacional de Música e, em 2002, fui eleita para a Academia Brasileira de Música. Pertenço à Sociedade Brasileira de Musicologia e à Sociedade Brasileira de Música Contemporânea, da qual fui presidente.
Carlos Willian — Qual a sua avaliação dessa música que se toca nas rádios hoje, como o axé, pagode, funk e hip-hop?
Belkiss - Aprecio a música em suas diferentes formas e manifestações. Todas elas têm seu encanto seja ele resultado de um ritmo especial, interessante, arranjos bem elaborados, frases melódicas bonitas, mensagens poéticas de qualidade ou mesmo de contestação. Apenas não me identifico quando, para sua exibição, se tornam incômodas pelo excesso de som.
Luiz Alberto Queiroz — Qual a relação entre a música e a literatura na sua vida?
Belkiss - Sempre gostei muito de ler. Lia tudo o que me vinha às mãos. Ás vezes, absorvia-me na leitura à luz de vela, após minha avó apagar a lâmpada de meu quarto. Cheguei a ler com o livro na estante do piano, enquanto os dedos percorriam automaticamente as escalas no teclado, numa infração à disciplina de atenção imposta mesmo nos exercícios diários. Havia escrito apenas alguns artigos para revistas específicas de música e dois livros publicados: A Música em Goiás e A Invenção — Histórico, Forma e Estética, quando Domiciano de Faria e Reynaldo Rocha, gentilmente, me convidaram para integrar o importante grupo que redige Crônicas e outras Histórias, de O Popular. Escrevendo-as, vou-me divertindo ao lembrar pessoas e casos do passado, não tendo, no entanto, nenhuma pretensão literária.
Carlos Willian — Quais são os seus desejos para o futuro?
Belkiss - Com a permissão de Deus, continuar vivendo com saúde e prosseguir tocando até o fim, ao lado da família e dos amigos.


