Capa do livro: O Gado de Deus

Aqui estou assim meio anestesiado. Na verdade, encaiporado, marafonado mesmo! Não sei se feliz, emocionado, confuso ou encantado. É um estado emocional deveras esquisito. Acontece que terminei a releitura do novíssimo romance O Gado de Deus, do jornalista e escritor Valdivino Braz, que certamente vai ser um novo marco na história da literatura goiana, quiçá brasileira.

Antes, quero esclarecer que não sou nenhum crítico literário e não tenho pendor nem capacidade para o feito. Contudo, não consigo permanecer calado após a leitura desse sensacional O Gado de Deus, de VB. O livro é simplesmente fabuloso, completo! Nasceu das páginas do livro uma envolvente e fascinante sensação que me invadiu o corpo e a alma.

Aconteceu que, calejado e embrutecido pelos tombos da vida, desobedeci ao autor, e de peito aberto li e reli o livro! E confesso, fiquei engambelado com tanta beleza emocional e estética nesse fabuloso O Gado de Deus. Em certos momentos da leitura, sorri; em outros, senti revoltava e nojo, até mesmo ânsia de choro! Foi quando entendi a importância das advertências que VB faz aos possíveis leitores, nas páginas iniciais do livro. Realmente fiquei sensibilizado, a obra é de fato escatológica!

O Gado de Deus está irreprimível, merece reverencia o escritor VB. Aliás, sempre tive plena certeza da qualidade e beleza desse esmerado romance. Quer por conhecer bem o autor, por quem tenho ótima amizade e muito respeito, quer por já conhecer, no original, boa parte do livro, por leitura e comentários proferidos pelo próprio autor.

Ao tomar forma física definida e receber título definitivo, O Gado de Deus, que visualmente parecia fragmentado e textualmente fragmentário, avolumou-se em sua forma física, ganhou densidade e profundidade lingüística; aprofundou seu comprometimento social, aprimorou sua conotação humana, externou sua áurea angélica e liberou suas tendências profanas, bestiais, satânicas!

Percebi que todo o foi cuidadosamente reestruturado, redimensionado; totalmente refeito. E assim, em cada capítulo, cada parte, cada partícula de parte, uma nova e sábia surpresa se apresenta. A narrativa que se visualizava fragmentada, torna-se unificada, coerente, impactante!

A bem cuidada narrativa apresenta-se sempre em antítese. Rebelde e pacífica, turbulenta e serena, pungente e agradável, bela e asquerosa, amorosa e arrogante, saudosista e repugnante, telúrica e fugidia, áspera e sensual, visionária e real, melancólica e festiva, revolucionária e pacífica, patriótica e subversiva, humilde e atrevida, meiga e agressiva, amável e impiedosa.
 

Contudo, na visão perfeccionista do autor, a obra continua incompleta, como incompleta é a vida! Mesmo assim, plena. Pois cada página, cada parágrafo cada palavra, revela a dor e a solidão que habitam a alma humana! De forma dura, direta e contundente, revela a descrença do autor nas instituições sociais estabelecidas, no próprio homem. Humano, saudosista, revoltado, repudia a violência praticada contra toda espécie de vida! Relata, de forma lancinante, a saudade de sua infância vencida, seu mundo destruído, seus sonhos desfeitos, suas verdades desacreditadas.

E assim prossegue a narrativa. O químico, o mágico, o bruxo das palavras, VB, sabiamente vai pespontando sua história. Não tão real, não tão fictícia, mas fiel ao retratar sua própria história, corporificada na solidão dos ermos distantes, por onde, em sua dilacerada infância, caminhou telúrico e solitário. E, imune às pieguices e puxa-saquismos, em seu nome, em nome do homem e da vida, com invejável maestria avança satirizando o governo, o clero, o diabo e o próprio Deus, num desafio aterrador!

Polêmicos sãos os personagens, mas fiéis representantes das múltiplas identidades do próprio VB, que destemido, avança resmungando despautérios, mas sempre possuído de alto saber, revolta, heroísmo e bravura. Destemido, coloca o santo, o diabo e o homem no mesmo bornal e sai em peregrinação por sua terra amada e brutalmente violentada, visitando lugarejos, bosques, pântanos, estradas, córregos, ribeirões e rios, solitários e poluídos. E, numa linguagem provocativa e plangente, prossegue pela terra dos homens, as estradas do tempo, revelando as mais recônditas saudades, cuidadosamente agasalhadas nas dobras de sua atormentada alma. 

Desta vez VB foi além, muito além do simples e corpóreo texto, operou a memorável façanha de fundir o homem à terra e a terra à alma do homem! E mais, sem ufanismo piegas, revela seu amor, respeito e dedicação à sua humilde origem e desafia o santo e o diabo a provarem quem dos três tem mais poder!

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