
Semana passada, ao vasculhar meus guardados na biblioteca, reencontrei a cópia de uma carta de amor que enviei à minha filha Ana Paula. Não tenho como me lembrar da data em que ela foi escrita, porém, era início da primavera; o ano? Segundo minhas anotações, 1993.
Ana Paula residia em Alfenas, sul de Minas Gerais, onde cumpria a sua missão de estudante de medicina; ainda não havia me acostumado com a idéia de “perder” a Timbete (tipo de carrapicho que gruda na roupa).
Seus dois irmãos conseguiram fazer o curso em Goiânia e logo ela, a caçula, portanto, mais dependente da nossa afeição, fora obrigada a viajar para tão longe dos nossos olhos.
Confesso que senti grande emoção ao reler mais este capítulo da nossa correspondência epistolar; tomo a liberdade de dividir este sentimento com meus leitores.
“Sentado, confortavelmente, entre minhas estantes apinhadas de livros da minha biblioteca da Santa Tereza, sozinho, perdido nas minhas elucubrações, pensei em você.
Pensei com saudade e ternura; vejo-a, tão forte e destemida enfrentando, com notável denodo, o seu destino; destino este que é como uma ampla e multicolorida colcha de retalhos a qual, com infinita meiguice e encantamento, você haverá de encaminhar, cruzar e moldar as peças que irão compô-la, com a mesma segurança que sempre mostrou possuir.
Quando você encontrar dificuldades, infelizmente elas irão aparecer, enfrente-as com naturalidade e a garra que lhe é natural. Se você encontrar um canteiro de cactos, sublime sua emoção e substitua-os por rosas. Afirme então: Aqui deveria haver rosas!
Sua nova vida, isolada de todos os seus, pela distância, irá proporcionar-lhe a oportunidade para o amadurecimento definitivo; amadureça como a árvore que não apressa a velocidade da sua seiva e enfrenta, tranquila e resignada, as tempestades da primavera, sem medo ou receios, sempre infundados, de que não surjam outros verões.
O verão virá sempre, só não irão ver a sua chegada os impacientes e os pessimistas!
O vento sopra as copas das árvores, balançando e arqueando os seus galhos, às vezes com ternura e suavidade, outras, com fúria e sem temperança. O aroma das folhas e das flores, independente do tipo de açoite, percorre, sempre, o itinerário benfazejo determinado pela natureza e alegrará o dia de alguém, à distância.
Sinta este aroma, independente de saber a sua origem, o aceite como uma dádiva da natureza!
Embora, em algumas oportunidades, você possa se sentir triste, não importa, aja como uma criança que você ainda é; seja tão triste quanto o necessário, porém seja, ao mesmo tempo, tão feliz como a primavera
Toda primavera é triste em seu início, porém, a sequência da floração torna-a alegre e transmite felicidade!
Faça como a terra que não dificulta o advento das estações, pelo contrário, propicia condições para recebê-las; prepare seu coração para receber o amor! Dê asas ao seu pensamento, nomine este sentimento como lhe aprouver: reminiscências? Saudades do passado? Do ontem? Embarque nas correntes do otimismo e voe ao encontro do seu grande destino!
Ainda ouvindo os ecos vibrantes da saudade, despeço-me com carinho.
Seu Pai.”


