Conheci o Fausto dentro da maçonaria. Não. Eu não sou maçom. Fui buscar com o Fausto alguns exemplares da antologia de contos dum concurso literário promovido pela maçonaria e organizado por ele. Catei a minha cota-parte de livros e acabei me deparando com um homem decente, inspirador.

Eu já ouvira falar em Fausto Valle. Sabia que era médico. Além do mais, eu associava o seu nome a UBE, da qual ele era membro. A sua fama era de poeta dos bons, como de fato constatei ao ler os seus escritos. Contudo, nos últimos anos ele se revelou um baita contista. Há gente graúda nas letras que o considere um dos maiores valores da literatura brasileira na atualidade. Mesmo sendo amigo do Fausto, concordo com a assertiva e faço parte da sua vasta legião de admiradores, em especial, leitores da internet no Brasil e noutros países de língua portuguesa.

Nascido em Araxá, Minas Gerais, lá onde o povo fica feliz da vida por tomar água sulfurosa e banhar em barro fedorento, Fausto passou a maior parte de sua vida em Goiás. Formou-se médico, atuando com pequenos pacientes (foi pediatra), e ajudando a formar centenas de doutores pela Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás, onde foi professor. Desculpe o mau jeito, Fausto, mas tenho que confessar: você foi, sim, meu pediatra, companheiro. Não adianta. Estou ficando “velho e acabado”, conforme dizia aquela antiga canção do Cassiano, “A lua e eu”.

Tinha o hábito de brincar com o Fausto e com nossos amigos em comum, dizendo “quando eu crescer (e está difícil à beça crescer), quero ser igualzinho a ele”. Crescer mesmo. Crescer, enquanto cidadão justo, médico competente, escritor “classudo” e conhecedor dos atalhos literários, pai adorado pela renca de filhos. Portanto, fica difícil eleger uma faceta do Fausto, já que ele possui várias, todas admiráveis. O que dizer de um intelectual septuagenário recentemente agraciado com o Título de Cidadão Goianiense na Câmara Municipal? Mesmo tímido, humilde, vivido e desapegado às bajulações, o escritor compareceu à Câmara onde foi ovacionado por parentes, amigos, colegas escritores e médicos, numa justa homenagem e reconhecimento. Os vereadores de Goiânia, que tanto distribuem títulos à gente besta e vazia, desta feita, acertaram na mosca.

Fausto levou consigo vários livros na capanga (se não me engano, sete). Não li todos eles, mas os que folheei me deixaram impressionado e nos aproximaram ainda mais. É uma pena que as grandes editoras brasileiras ainda não tenham descoberto o talento do mineiro que virou goiano, por demais ocupadas com publicações cretinas que, no entanto, vendem pra caramba.

Se isto serve de consolo, é um privilégio saber que em Goiânia residiu um admirável escritor brasileiro. Embora discreto, fazendo jus à mineirice incipiente, aqui viveu um cidadão do bem que refuta as adulações interesseiras e as tolas e chatas vaidades acadêmicas. O nome escrito na história é Fausto Valle.

Eberth Vêncio – médico, escritor da Revista Bula, membro da UBE e Presidente da SOBRAMES (Sociedade Brasileira de Médicos Escritores, regional goiana).