É um incendiário da frase, de lavas candentes, mas que sabe também os efeitos polifônicos espetaculares em audiovisual no embate que provoca entre os vocábulos por associação fonodiscursiva, principalmente por étimos grecoparoxítonos.

 

Contudo, é o imagético o seu traço fundamental e que conduz a amplos apairrelamentos que o fazem um lídimo sucessor de Victor Hugo, Castro Alves, Guerra Junqueiro, Moacir Almeida, Santos Chocano, que nos proporcionaram como ele, um telário infinito de onde vemos jorrar imediatamente, de olhos um tropel de cornetas e faúlhas coruscantes, raios e fulgurações, em sucessão de rastilho pululante, infrenável, os trovejantes turbilhões verbo-metafóricos das suas penas fagulhantes, suas imagens consteladas e esplendentes que uma imominável pujança imagética deflagra aos borbotões...

 

Um mostruário eloquente desses paradigmas é, por exemplo, “A Torre de Babel“ (lembrando que essa feição se dissemina por todo conjunto de sua obra até na prosa), onde carrilhões de fogo chispam faúlhas  em concerto proceloso e inumerável faiscações poéticas e o gênio olímpico da pena estelífera e meteórica, mas também capaz de se robustecer em  talhadas de painelizações das dimensões e amplitudes transmudadas em pincéis das musculações encorpadas de um Miguel Ângelo....

 

Desde “Menino de Rua” (1970) descobriu-se Gabriel Nascente um possesso de correntes verbais em cachões incontidos.

 

A disponibilidade ingente, a vastidão infinita, a caudal inesgotável de filões e minas incontáveis de fluxos criadores que explodiam em sua mente predispuseram-no a uma infremável pletora de dialetizações poéticas que se debatiam agitadas e delirantes ante as intermináveis premissas da criação literária.

 

Deste modo, nos primeiros arroubos publicados eram evidentes os confrontos estilísticos e a imposição temática momentosa, que se abarrotava. Por isso, estas vertentes – os temas das décadas de 1960 e 1970 juntos às estilizações de Ferreira Gullar e Carlos Drummond de Andrade assolam sua poética. O que é incrível, porém, é que ele, não só ao longo dos livros, mas também em um mesmo poema, ao mesmo tempo tem capacidade de perfundir as estilísticas daqueles dois próceres, como o da pág. 75 de “Menino de Rua”:

 

  

“Agora que sou candidato

às dores da terra,

entrelaço minhas mãos

na construção de uma paz.

É urgente meu recado.

Não há tempo de ser poeta

e decifrar a solidão do galo.

Outras feridas se alastram pelo mundo:

aleijados, homens sem prumo,

óculos quebrados,

muletas, costureiras sem trabalho,

tristezas de jegue,

braços caóticos, mãos sem rumo,

lirismo vagabundo

de coisas e flores carbonizadas pelo ódio”

 

Com uma dialética de vários reflexos da poesia de outros mestres cinzelando a sua, os latejamentos hipocondríacos de Augusto dos Anjos também se patenteavam no livro, como nas págs. 81 e 82, listando a quadra final como amostragem:

 

Nascer... nasci

tão nauseabundo

como larvas

de um morto.

A nota evolutiva de Gabriel Nascente na ascenção poética, curiosa e coincidentemente corresponde à saída da infância e da adolescência para a chegada de adulto: despoja-se de quejandas neofitizes e vai fixar novas sinalizações estéticas já palpáveis em “Os Passageiros e pós-ditador”, racionalmente desfaz a estilística metafórica de imberbes descabimentos e a reveste de vigilante senso harmonizador seja ele tronitroante ou de lirismo contido:

  

“Há uma aurora saindo do teu corpo

ninho de pássaro, rosas de fogo”

(“Os Passageiros”, pág. 72)

 

ou

 

“Detenho em meu peito

tua voz empoeirada:

rubra”

 

“Como a ferida de Lorca

agonizando a madrugada”

(“Pastoral”, pág. 48)

 

 

Este amadurecimento nas cogitações estetizantes passa a revelar também e o faz com pericia admirável que Gabriel Nascente adquira um domínio indiscutível da ambientação canônica do poema, isto é, compõe se quiser, poema com a conotação do Romantismo (vide “Signos do Amor”, nas pág. 23, 24, 25 do livro “Os Aventais da Púrpura”) bem como se faz leda e idílicamente proustiano em “Cora, a pitonisa da ponte.”

 

Porque a sua energia criativa se dota de rastro bercúleo, pode produzir sua lavra contínua e inesgotavelmente, e, como agora alcaçou um domínio da elocução e inventiva escritural difusa, ampla, substancial, como um dândi de estéticas, não se detem só nisso de explorar um só cânone isolado, mas várias delas agora vão afestoando seus cantos e até, em um só poema, se mesclam e se embricam juntando surrealismo, condorcirismo, metafonjação, veja:!!

 

 

O DIA

A fruta no podre

que mata o dia

fulgos de faca

gomos de morte

sêmem de cristal

derramado

borboleta parida

pelo sol

(in “Madrugada nos Muros” pág. 53)

As plurivalências estético-artesanais é um apelativo freqüentíssimo na poesia goiana e nesse item em relação a Gabriel Nascente como aquelas já demonstradas, ocorre também o vezo da metamorfose classicizante, a volta aos símbolos e as codificações que relembram os textos dos ícones supremos da Antiguidade e Modernidade Clássicas, ex: Homero, Dante, Camões, Goethe, Pessoa, etc. Tal salsugem silábárica é extensamente revivida em Valdecino Braz, Heleno Godoy, Aidenor Aires, Edival Lourenço, Itamar Pires, etc, etc. Pois em Gabriel Nascente, porque todas as temáticas assumem dimensões olímpicas e hiperbólicas, não só um poema, mas quase todo um livro, o “Tempestade na Proa” – uma das forças máximas da sua extensa lavra-assume esse complexo de estesias que, na sua abrangência ciclópica e multifária - temática – lingüística – estética - terça apolíneas intertextualidades nada menos do que com Homero, Virgílio, Dante, Camões, Goethe, Rimbaud, Pessoa, Maiakovski, etc.

 

Por outro lado, a força das suas raízes leva-o ao retorno às origens para recrudescer e encaixar outras temáticas assimiladas no contemporâneo. Havia nos arroubos de seus livros iniciais a invocação do cotidiano apenas sob a visagem do imediato impacto que aturdia sua captação poética, todavia agora em avançado estágio de dotação de novas dimensões de estesia, outros modelamentos estilísticos de que se empolgava, como a aquisição da METALINGUAGEM (vide pág. 32 de “O Senso de Obra Aberta na Literatura e o Modelismo Conjuntivo da Atualidade – Mário Jorge Bechepeche – 1º vol – Ed. Kelps – Go – 2011). A metalinguagem, relembrando aqui, de passagem, foi validada como cânone poético revigorador na poesia brasileira e filão principal, precioso e de renovo da sagração poética de Affonso Romano de Santana e de Gilberto Mendonça Teles.

 

“A Ponta do Punhal” e “Ventania”, produto das décadas que geraram a contracultura e esta era.

 

Mais idealogia e ação cinematográfica, portanto supremacia da presença temática do que dosagem estética mostra, contando uma conquista de um amadurecimento de senso poético agora já seguramente conseguido e aplastado nos poemas: a metáfora hugoana e castroalvesca como suporte primacial do poema:

 

 

O vento levanta a saia da terra.

O sol arremessa seus rútilos

de navalhas esconsas.

E uma tênue muralha de nuvens.

Se desmorona, lá pelos umbrais

do céu entorpecido.

(pág. 36, in “A Ponta do Punhal”)

 

 

De tal forma se consolida este suporte em dimensão poética crescente e cada vez mais potente, vigorosa e rija que a sua ascensão de estilística ostentórica se plasma em medalhões portentos:

 

  

“Ás sombras do universo tremem

em minhas lagrimas.

Ah, eu sou Lucrécio, Varrão

Virgílio e Dante

nesta valsa do pó!”

(pág. 27, in “Ventania”)

 

 

Inexaurível e sedento de replasmações e reformatações do poema, a cada passo infunde-lhes adventos da poética. Assim, mescla à metaforização a imagem que é ao mesmo tempo realismo fantástico e intertextualidade com Manoel Bandeira no final:

  

“Coisas e Coisas”

 

Cristais golpeiam a primavera.

Almas de relógios da sucata.

Rios afogados no ventre das pedras.

Manhãs de focinhos nas vitrines.

Meninos com vontade de chover mangas.

Peixes nadando na lua.

Árvores tristes, sem pulmões.

Pássaros se aninhando nos respingos da aurora.

Náusea no peito das flores.

Tijolos de açúcar no berço.

Água que voa: nicotina.

Tumulto nos planos de Mozart.

Girassol no lixo.

Sangue nas tintas de Van Gogh.

E salvem as formigas de luto!

Meu Deus, as coisas...

Tão sem remédio.

(in “A Ponta do Punhal” – pág. 80)

 

 A plasmação angélica, isto é, a colocação do senso plumático de asas de anjo de Rimbaud no poema, passaria a assediá-lo em seus versos daí por diante em:

   

Ser poeta em tudo

eis a questão

ter fôlego de anjo

mãos de menino

varrer a miséria

beijar a lua

e pôr alma de poesia

no gesto de cada coisa.

(pág. 38 – in “A Ponte do Punhal”)

 

 Embora o lastro de teor épico seja originalmente de Victor Hugo e Castro Alves, vê-se que Gabriel Nascente, perpassando aquele fenômeno que só a Arte ao artista delega em milagre da criação literária de poderio transformador – adquire, combina e consegue fazer o épico em plumática plangência de Rimbaud no mesmo poema jactado daquele máximo insuperável da metáfora de Federico Garcia Lorca e pespontando dos rebrilhamentos lantejoulados do realismo mágico:

Gitano, meu gitano

atirei lorca aos ventos

para ouvir o bufo, na noite.

Horror, sapateiros quebravam pratos

por amor aos seios da aurora!

 

De repente, tão prendada se via

a lua em cochilos no seu leito de estanho.

 

Uma gaita e o cavalo

viajaram para o sul

flores no telhado

céu preto.

 

E eu, minha vida

uma palavra

de louça

(in “A Ponta do Punhal, pág. 50)

A partir de “Os Aventais da Púrpura” Gabriel Nascente se mostra desfilado de engajamento que o faziam atar-se ao patético empulhamento das contestações político-sociais, temas reconhecidamente antipoéticos, que faziam relativa apodização da lucilância faiscante do seu estro. Sem a contenção dessa prosaica, eis que:

  

A casa do vento

é uma sepultura de velhos gaviões.

O medo tem cara de górgonas,

Olho furado de punhais.

Deram um tiro na folhagem,

Meu Deus,

Começou o ódio!

  

Sua verse escritural se vê agora em plena carnavalização vocábula, isto é, completamente mergulhada no universo lingüístico do imagélico e da abstração, da efetização de imagem pelos retinidos e estralos da palavra relampejante e formatadora de ludismos magistrais:

  

As Asas da Metáfora (pág. 141)

 

O céu entope de granizo

leito aquátil das rãs

lembrança vira búzios na

memória.

 

Bolhas de sabão constroem castelos de amianto na floresta

e ninguém sabe onde sofrem as borboletas

em tuas almofadas de prata.

As formigas cospem ferrugem no inverno.

Ó bravias plantas do pragal

 

 

 

“A Lira da Lida” (1997)

 

Dos rasgos alcantilados de condoreirismo hugoano e epicidade homérica, plasmação sempre metamorfoseante e Gabriel Nascente se deteria em buscas de novas estetizações como vimos até agora e, portanto, na “A Lira da Lida” a sua insaciável germinal poética abre-se a novas perspectivas canônicas e escriturais. Ao fuste evolutivo de gamas e matizes do seu rosário de criações, Gabriel Nascente concebe uma metaestilização sempre inovadora ao incorporar nela o realismo fantástico, quando contracenou com ícones e acontecimentos reais, ficcionados poeticamente:

  

Vem.

O albor já desce.

Inda o céu é fúnebre

na ponta dos edifícios.

Um bafo de frio corre.

Pela nudez dos ébanos.

E então, Homero,

me arrebatas a lira?

Tu, morcego louco

de sinuosos mares.

(pág. 343, in “Inventario Poético”)

 

  

Brecht e Camus

que drama se trama

na efígie destes nomes?

(pág. 351, in “Inventário Poético”)

 

 

“Doutor Einstein,

Quando é que seu mundo vai acabar?”

(pág. 354, in “Inventário Poético”)

 

 Conquanto não pertença ao grupo de poetas acadêmicos aqueles que por serem professores-ou-não-mas utilizam os recursos advindos com a contribuição da Lingüística e da Semiótica e que tem contribuido excepcionalmente com sondagens e modelizações na linguagem poética  e na prosa e que prodigalizaram ate o aparecimento de escolas literárias como o Praxismo e o concretismo, Gabriel Nascente, em “Velho Einstein”, sem deixar de abrigar, em todo o poema, uma vivacidade zombadora em tom de Manoel Bandeira, apanha a imaginística da Simiótica no arremate que o último verso inteligentíssimamente desfere:

 

 

Velho Einstein

 

I

- Doutor Eisntein,

quando é que o mundo vai se acabar?

 

- Sei apenas, meu filho, que dispararam setas

de ódio contra mim. E que é preciso “construir pontes

espirituais e cientificas entre as nações do mundo”.

O dia em que o mundo vai se acabar? Fica aí, meu filho,

esperando, que você verá.

 

II

A pólvora é o tormento do mundo.

E o medo ma faz girar como um inseto

no tornado.

 

Eu vi um pombo esmigalhar

seu vôo numa vidraça.

A guerra atômica tem

o rosto do horror, horror!

 

 

III

 

- Doutor Einstein,

o senhor acha que o fim do mundo

é o fim dos tempos?

 

- Sei apenas, meu filho, que não fui eu

Quem ajudou a crucificar Cristo. E que, na

juventude, a solidão é penosa.

 

O átomo, meu filho, não tem fim.

E pôs a língua para fora.

 

(In “A Lira da Hira”, pág. 354

Inventário Poético)

 

 

A “Lira da Lida” firma-se como o máximo amadurecimento criador atingido por Gabriel Nascente e que, em conseqüência, pode dotar todo livro daquela magnitude de resolução estética sempre em nível de consagração de esplêndida estilística expressional, de transfigurações candentes, de verbalização incontida, luminosa resplendente. Além dos poemas aqui já supracitados, “A Lira da Lida” apresenta uma verdadeira constelação de títulos do mais alto teor antológico que não deixam dúvida a importância, representatividade e significação de Gabriel Nascente na Literatura Brasileira.