Um Barco de Palavras Incendiadas

 

Foi então que conheci Gabriel Nascente. Nos idos de 1972, ditadura militar das pesadas, eu era estudante secundarista no Colégio Pedro Gomes, ávido por informações literárias. Por sugestão minha, endossada pela turma, a professora de Português (ou seria de Comunicação e Expressão?) o convidou para nos proferir uma palestra. 
 

Cronologicamente, o Gabriel e eu somos da mesma geração. Mas do ponto de vista poético, sou da geração seguinte. Talvez da mesma geração, mas de uma facção retardatária. Pois enquanto eu, acanhadamente, rascunhava meus primeiros madrigais, Gabriel já publicara uma renca de livros, começando por Os Gatos, aos 14 anos e como garoto-prodígio, fazia sucesso pelo Brasil afora. 
 

Me lembro que nessa palestra Gabriel teceu um panorama da poesia em Goiás, no Brasil e no mundo. Falou de Leo Lynce, Castro Alves, Drummond, Lorca, Neruda, Maiokovski e Rimbaud. Mas especialmente falou de Menotti Del Picchia e nos fez ouvir uma entrevista que ele próprio, Gabriel, gravara em fita K-7 com o poeta paulista.
 

Confesso que fiquei deslumbrado, de queixo caído e babei nos cadernos. Confesso também que por muito tempo fiquei inibido de me admitir poeta. Poesia era coisa pra gente ativa e fervorosa como o Gabriel. Me achei o verdadeiro mocorongo das letras, ante tamanha desenvoltura.
 

A verdade é que ele falou com tanta propriedade e com tanto entusiasmo que temi até pela sua integridade física. Os militares não gostavam de gente falante e entusiasta. Não fazia muito tempo que uma professora nossa havia sido retirada de sala, em plena aula, por uns milicos à paisana, porque ela falava de democracia, com entusiasmo fervente. E nunca mais voltou a dar aulas. Dizem que foi torturada e acusada de coisas que ela nunca fez nem sabia.
 

Com o tempo fui percebendo que jamais seria um Gabriel na vida, mas mesmo do meu jeito, contido e tímido, poderia emitir meus resmungos líricos, e meus gemidos poéticos, ainda que ao largo do bafejo das musas.
 

Mas o Gabriel era e continua assim: prolífero, abundante, um barco de palavras incendiadas.  As musas, sem lhe dar sossego, estão dia e noite com mil megafones a lhe berrar poemas nos ouvidos, o que faz dele um poeta full time. Tenho a impressão de que se ele xingar no trânsito, ou melhor, se ele xingasse, porque ele não tem tempo para se ocupar com xingamentos, seus impropérios seriam em forma de poemas.
 

Em outras palavras, Gabriel Nascente é um Boing de voo permanente, que não aterrissa nunca, que não se despressuriza jamais. Se um dia tiver que trocar uma turbina, os mecânicos terão que fazê-lo em pleno voo.
 

Agora ele reivindica uma cadeira no mais alto panteão das letras nacionais, a Academia Brasileira de Letras. Acho legítimo e justo, não só que reivindique, mas que a conquiste de fato. E tenho a certeza de que, se a vetusta casa de Machado de Assis já houver dissipado suas velhas idiossincrasias geográficas e históricas, o nosso Gabriel já pode encomendar o fardão de posse. Porque poesia e tutano pra isso não lhe faltam.