Há 100 anos, no dia 12 de setembro de 1915, nascia Goiandira Ayres do Couto, a maior artista plástica goiana. Filha do poeta, advogado, historiador e juiz de Direito Luís de Oliveira Couto e da também pintora Maria Ayres do Couto, era a mais velha de doze irmãos. Nasceu em Catalão, mas, com tenros seis anos de idade, mudou-se para a Cidade de Goiás, nossa antiga Vila Boa, então capital do estado.

Além de artista plástica, Goiandira foi professora até se aposentar. Ministrou aulas de Língua Portuguesa, História, Desenho, Artes e Etiqueta, tendo sido também professora na Escola de Artes Plásticas Veiga Valle bem como a primeira professora da Polícia Militar do Estado de Goiás, lecionando gratuitamente aos militares para, como ela dizia, “servir ao seu país, ao seu estado e para que pudessem ter condições dignas de se manterem na sociedade”. Era também dançarina e foi professora de tango, bolero e valsa, tendo dançado com o Governador de São Paulo Ademar de Barros, com os Governadores de Goiás Pedro Ludovico Teixeira, Irapuan Costa Júnior e Ary Valadão, e com o Presidente da República Juscelino Kubitschek.
Eterna Rainha do Carnaval Vilaboense, apaixonada por essa festa popular e das maiores foliãs de sua época, Goiandira criava fantasias e blocos, sendo sempre premiada nos carnavais da prisca Vila Boa. Foi membro-fundador da Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás – AFLAG e da Organização Vilaboense de Artes e Tradições – OVAT, instituição essa que, em 1965, reavivou a tradicional Procissão do Fogaréu da Cidade de Goiás, de modo que – como Goiandira era também estilista – as roupas dos farricocos desse préstito foram desenhadas e costuradas por ela, aliás, assim como todas as roupas dos demais personagens que compõem as encenações bíblicas da Semana Santa vilaboense.

Começou a pintar ainda menina, sendo que aos 16 anos recebeu sua primeira premiação nas artes plásticas. Quando contava com 18, realizou sua primeira coletiva de pinturas a óleo sobre tela, e, aos 52 anos, começou a pintar com areias coloridas da Serra Dourada, técnica única no mundo, o que lhe rendeu reconhecimento internacional, sendo aclamada pela crítica e – qual soe fazer os grandes artistas – levando o nome da sua terra e do seu povo a galgar oceanos e plagas. Levando os casarões coloniais, monumentos e igrejas, os becos e ruas, os belos cenários e paisagens da nossa Goiás para os quatro cantos do planeta.

 “Faça uma casa com areia”. Segundo contava Goiandira do Couto, sua técnica de pintura com areias nasceu na manhã de 18 de dezembro de 1967, quando ouviu e atendeu ao imperativo dessa voz sobrenatural. Algumas horas depois de ouvir aquela voz de ordem, pedido, sugestão ou súplica – não se sabe o tom, senão a artista – sobre uma lâmina de Duratex embasada a óleo branco, ela riscou o desenho, passou cola e salpicou areia pela arguciosa sensibilidade das pontas de seus dedos, criando, assim, seu primeiro quadro com areias da Serra Dourada.

Cumpre ressaltar, nessa esteira, que a pintura de Goiandira do Couto está dividida em duas fases: a primeira – a Fase da Pintura a Óleo – vai de 1933 a 1967, e a segunda – a Fase da Pintura com Areia – foi iniciada em 1967 e vigorou até o ano de sua morte, em 2011, quando tinha 95 anos. Goiandira encontrou 551 tonalidades de cores naturais de areias da Serra Dourada, as quais usava em suas obras de arte e tinha expostas em seu ateliê.
Certa feita, convidada para ensinar sua singular técnica nos Estados Unidos, recusou-se a fazê-lo. Pois explicava com as seguintes palavras: “A técnica é muito simples: basta riscar o desenho, passar cola e jogar areia com as pontas dos dedos. Mas o dom não se transmite”.

Assim que criou a técnica inédita, fez uma exposição em Goiânia com 21 quadros pintados com areias. Quando se montava a exposição, quase todos já estavam vendidos. Nos três primeiros dias, venderam-se todos os 21 e houve encomenda de mais 20. No ano seguinte, o embaixador dos Estados Unidos foi à sua casa na Cidade de Goiás para conhecê-la e convidá-la para fazer uma exposição na Embaixada. Também foi feita com o mesmo sucesso. Aí o nome de Goiandira do Couto correu o mundo. Seus quadros encontram-se em algumas dezenas de nações, espalhados pelos cinco continentes, expostos em embaixadas de países como Espanha, Suíça, Áustria, Escócia, Japão, China, Iraque, Israel e, também, na sede da ONU, em Nova Iorque, estando ainda noutros países como Alemanha, Portugal, África do Sul, Dinamarca, Austrália, Iugoslávia, França, Itália, México, Chile, Paraguai, Uruguai, El Salvador, Bélgica, Colômbia, Tailândia e Rússia. Sua obra já foi abordada por diversos jornais e revistas dos Estados Unidos, Alemanha e França, dentre outros, e por documentários portugueses, além de constar em seis dicionários de artes plásticas brasileiros.
Noutro giro, vale destacar mais um atributo assaz especial dessa querida pintora goiana: seu trato com as pessoas. Recebia a todos em sua casa com a mesma gentileza, atenção e carinho. Quando nos dávamos conta, já estávamos sentados à mesa da sua cozinha, tomando do seu café bom e cheiroso, comendo dos seus saborosos biscoitos de queijo, doces e compotas, tudo feito por ela com diligência e primor. Mais que uma anfitriã de primeira grandeza, uma pessoa que, de braços, coração e sorriso abertos, acolhia a todos. De todas as origens e gentílicos. De todas as cores e etnias. De todos os credos e religiões. De todas as classes e sobrenomes. Porque Goiandira, em sua postura serena, feliz e humilde diante da vida, jamais deixou a fama cegar-lhe e via a todos pelo que eram: seus irmãos e irmãs da mesma humanidade. Goiandira – isto sim – amava a vida, a arte e o ser humano. Desde embaixadores, governadores e presidentes a grupos com dezenas de alunos, crianças e adolescentes, de escolas de todo o Brasil, além dos seus familiares, amigos e admiradores, vilaboenses ou não: recebia a todos com um jeito acolhedor tão especial quanto formidável capaz de superar até os altos padrões goianos de hospitalidade. Fazia mesmo por cativar, por maravilhar as pessoas com seu carisma, cortesia, amabilidade e alegria rutilantes.

Assim é que, além das centenas de estudantes e turistas que a visitavam rotineiramente durante todo o dia, recebeu mais de dez embaixadores em sua casa, sem falar de artistas, jornalistas, governadores e presidentes. Ademais, foram ou são donos de obras suas várias personalidades nacionais e internacionais como o poeta chileno Pablo Neruda, Nobel de Literatura, Mário Lago, Paulo Autran e Roberto Marinho, além de presidentes da República, como o fundador de Brasília, Juscelino Kubitschek, José Sarney e Fernando Henrique Cardoso. Quando já contava com 91 anos, Goiandira fazia um quadro encomendado pelo ex-presidente dos Estados Unidos Bill Clinton, tendo uma fila de encomendas de mais de trezentos quadros.
Há 100 anos nascia essa artista plástica sem-par. Há um século nascia para a alegria do mundo essa bênção de pessoa, essa mulher admirável. Goiandira do Couto era das pessoas mais encantadoras que se poderia conhecer. Além de um gênio notável das Belas Artes, era um lindo ser humano, em estado de graça com a vida, com sua terra, com o mundo e com seus pares. Exemplo de mulher, de cidadã, de dignidade, de coragem. Exemplo de força, de ânimo, de nobreza de espírito, de civilidade, de vivacidade, de fé. Era ela própria a alegria de viver encarnada. Era pessoa amiga, generosa com os jovens, simples e autêntica com todos. Ela cativava as pessoas, e, seguindo a lição do Petit Prince, tornava-se responsável por quem cativara. E muito embora não tenha se casado e tampouco sido mãe, Goiandira acabou ganhando da vida umas dezenas de filhos e netos perfilhados, de coração. Era pessoa gentil, amável e amorosa, de uma energia vital capaz de desafiar muitos jovens dos dias de hoje. Todos os que fruíram da delícia de conhecer e ter a companhia de Goiandira podem dar testemunho do que é deveras sentir uma transfusão de vida. Podem relatar o que é sentir-se acolhido por um grande coração cheio de amor. Podem dar fé do que é provar do que há de melhor dentro do ser humano.
Conheci Goiandira do Couto em 2003, quando eu contava com 12 anos. Foi a propósito de um trabalho escolar do Colégio Sant’Ana – prodigiosa casa de saber, das melhores e mais tradicionais do Brasil, que, muito infelizmente, foi fechada neste ano, após 125 anos de ensino. Eu e um grupo de colegas, ainda hoje amigos, faríamos entrevistas com várias personalidades da cultura vilaboense. Uma delas, por óbvio, Goiandira do Couto. O receio de criança que tive diante da ansiedade e curiosidade de entrevistar aquela artista tão célebre, de que tanto sempre se ouvia falar, foi derruído logo ao primeiro contato, momento mágico e inarredável da memória, e essa artista, dali adiante – um seu outro celso dom – me cativara para sempre. E, desde então, vivemos uma bonita amizade até o ano de sua partida.

O trabalho da escola consistia em fazer um livro tratando da Cidade de Goiás, sua história, tradições, cultura, atrativos, seu patrimônio material e imaterial. As entrevistas com personalidades culturais vilaboenses compunham uma seção do livro. Pois que terminada a entrevista com Goiandira do Couto – que nos ia falando e guiando numa fantástica visita por seu Espaço Cultural, sua casa e ateliê – eu e meus colegas nos fomos embora embevecidos com tanta gentileza, amabilidade, alegria, lucidez e energia daquela tão jovem senhora de 88 anos, não me esquecendo do pedido que ela fizera para levar-lhe uma cópia do livro assim que estivesse pronto.
Algum tempo depois, voltei à casa da artista para atender ao seu pedido, levando-lhe uma cópia do livro “Re... vivendo Goiás!”. Eu levava o livro, e, na última página, um poema que senti tocado a escrever para aquela insigne artista, quem, desde o primeiro contato, passou a me inspirar na arte e na vida, já que era uma mestra de experiência humana. Fui chegando com o livro, e, ela contente pela lembrança, dirigimo-nos para a mesa da sua cozinha, à qual sempre se sentava com suas visitas para um café com prosa, com histórias, mesa de muito aprender. Ela passou os olhos e folheou todo o livro, quando chegou à última página e deparou-se com um manuscrito. Indagou-me o quê era. Respondi-lhe ser um poema que a ela dedicara. Então me pediu que lesse. E o fiz. Assim que concluí a leitura – algo de que nunca me esqueço – disse-me ela: “Que lindo, menino! Você precisa publicar! Você precisa publicar!”. Assim que Goiandira do Couto foi a primeira pessoa a me incentivar na publicação de meus escritos – estímulo fundamental para mim, pelo qual a ela sempre serei grato. Aliás, esse é só um dos motivos de gratidão à tia Dila, como afetuosamente a chamávamos.

Goiandira é patrimônio dos brasileiros. Tesouro dos goianos. Orgulho dos vilaboenses. O nosso povo rende a Deus seu preito eterno de gratidão pela vida e obra dessa grande artista. Mulher de Goiás no nome e na alma. Uma completa apaixonada pela vida, generosa autora de imensurável legado nas artes e em humanidade.Um ser encantado e encantador, que passou pela Terra semeando grãos de areias coloridas e semeando e cultivando alegria, amor e caríssimos valores humanos e éticos de que tanto carece o nosso mundo. Assim como salpicava os grãos de areia da Serra Dourada, com sua sensibilidade riscando formas e contornos,escolhendo cores,com maestria dosando luz e sombra, burilando suas matérias-primas minerais e anímicas para criar beleza aos olhos e ao espírito, Goiandira também salpicava nos corações grãos lídimos de ternura, paz e emoção, conferindo cores, fulgurando luzes, redimensionando formas para a fé e a alegria, animando as obras de arte que existem dentro de cada um de nós.
Como patrimônio nosso que é, o legado de Goiandira deve ser cuidado, tratado com o mesmo zelo e amor que ela destinou à nossa Vila Boa, ao Estado de Goiás e à nossa gente. De patrimônio a gente cuida. Não deixa relegado ao olvido e ao desprezo. Ainda mais um patrimônio tão vívido como o dessa artista e pessoa extraordinárias. Refiro-me à sua casa e ao seu Espaço Cultural. Devem voltar a abrir suas portas, trancadas desde que a nossa artista partiu para o colorido do firmamento.Devemos manter viva a doce memória de Goiandira, sua história, sua arte. Temos que cuidar da casa da gente. A casa de Goiandira deve ficar como sempre foi seu sorriso: aberto e acolhendo a todos. A maior e melhor homenagem que se pode prestar a essa grande mulher é manter vivo e compartilhado o legado portentoso que deixou, mantendo aberta a sua morada. Aqui avigoramos, pois, a nossa estentórea súplica.

Há dias muito preciosos quanto lindos em que o universo fica em festa. Uma festa silenciosa, imperceptível, que não muda a dinâmica da humanidade e tampouco a azáfama do dia a dia. Nesses dias, tudo segue seu curso normalmente, sem interrupções, sem que se note nada de mais, como sempre. Mas, também nesses dias, uma aura de luz e encantamento toma conta do universo inteiro, e acende uma invisível flama de amor, alegria e vida nos corações de cada pessoa, fazendo do nosso planeta um lugar melhor, enriquecendo a humanidade, enobrecendo o dom sublime da vida. Há cem anos atrás, num desses dias, quando nascia Goiandira do Couto, o universo estava em festa...




Rafael Ribeiro Rubro*


* Rafael Ribeiro Bueno Fleury de Passos, nome literário Rafael Ribeiro Rubro, é advogado, escritor, poeta, cantor e viajante. Colaborador do jornal “O Vilaboense” e articulista do “Diário da Manhã”. Membro da OVAT (Organização Vilaboense de Artes e Tradições), da UBE - Seção Goiás (União Brasileira de Escritores) e Presidente da Comissão Permanente de Licitação do Município de Goiás. (rafaelrpassos@hotmail.com)